O sistema não restringe a criatividade do arquiteto, dá total liberdade de formas e permite vãos e aberturas de grandes dimensões. Também oferece flexibilidade para a escolha dos fechamentos, e cada um deles implica técnicas próprias para a execução da obra. “O arquiteto deveria pensar de modo diferente para projetar com steel framing, mas não precisa. A maioria dos clientes já chega com um projeto arquitetônico pronto, que é adaptado para a construção nesse sistema”, destaca Mariutti. O ideal é trabalhar com a modulação de 1,20 metro de largura, porque os perfis são fixados com espaçamento de 40 ou 60 centímetros, conforme o projeto estrutural. “Se o arquiteto pensar a partir desse módulo, vai ter o benefício da economia”, ele completa.
De acordo com Mariutti, um dos segredos para construir com steel framing é saber comprar e cortar os perfis, além de contar com um calculista de estruturas que conheça bem o sistema. Ambos os profissionais recomendam procedimentos de canteiro para medir a espessura dos perfis e da camada de galvanização.
Segundo Heloísa, uma das principais vantagens é a rapidez de execução da obra. “É um sistema de montagem. Demora mais tempo para projetar, mas uma construção de cem metros quadrados fica pronta em um mês”, afirma. O steel framing permite construções sem entulho. O pouco que sobra é reciclável e pode ser vendido.
De modo geral, as patologias mais comuns estão ligadas às redes hidráulicas e elétricas, idênticas às do método convencional em alvenaria. “O que vemos são mais vícios de obra que defeitos do sistema”, compara Mariutti. Heloísa concorda. “A maioria das patologias está relacionada à mão-de-obra não qualificada. Não adianta esperar que o pedreiro instale perfis ou trate juntas corretamente. O pessoal tem de ser treinado e capacitado a trabalhar com o sistema”, alerta.
A ausência de centros formadores de mão-de-obra para o steel framing é um dos problemas enfrentados pelos profissionais da área. “Os fabricantes dos fechamentos treinam profissionais para trabalhar com seus materiais. Mas, para montar a estrutura, nossa empresa é que faz o treinamento e forma equipes especializadas para atuar em cada uma das etapas de montagem de nossas obras”, revela Heloísa. Também não há softwares nacionais para cálculo nem normas técnicas específicas para o conjunto steel framing. “O Brasil tem normatização para os perfis e para os painéis de gesso acartonado. Como não há normas nacionais para o cálculo estrutural, usamos a norte-americana”, explica Mariutti.
Apesar desses aspectos, o steel framing oferece um conjunto de vantagens que o colocam como opção eficiente a ser considerada na hora de escolher o sistema construtivo. Entre elas destacam-se a eliminação de grandes interferências no lote, a leveza estrutural, que dispensa fundações, a precisão que só sistemas industrializados podem oferecer, a grande velocidade de montagem, a limpeza e organização do canteiro, a redução de custos e a quase inexistência de entulho.
Do perfil à estrutura
O sistema steel framing é composto por perfis leves de aço galvanizado, chamados steel frame, disponíveis em espessuras entre 0,95 e 1,25 milímetro. Eles são usados como montantes (aplicações verticais) e guias (aplicações horizontais) em toda a estrutura, incluindo caixa-d’água e telhado. “Embora sejam parecidos no desenho, esses perfis não são os mesmos usados nos sistemas drywall. Pelas normas, os perfis de drywall têm espessura de 0,55 milímetro e não servem para fins estruturais”, alerta Mariutti. Os steel frames estão disponíveis em larguras de 90, 140 e 200 milímetros, que resultam em paredes com 9, 14 e 20 centímetros de espessura. “O mais usado no Brasil é o montante de 90 milímetros. O de 200 é muito caro e empregado somente em situações especiais, que exijam isolamento extremo”, completa Heloísa.
O aço usado na fabricação dos perfis é fornecido somente pela Usiminas ou pela CSN e já vem galvanizado. Esse tratamento cria uma camada superficial que protege o aço do contato com agentes agressivos, como maresia, poluição, geada e vapores industriais. Existem três opções de galvanização, com camadas de zinco de 180, 275 ou 320 gramas por centímetro quadrado. A mais espessa destina-se a perfis que serão empregados em atmosferas mais agressivas, como construções litorâneas ou áreas industriais. As demais são indicadas para ambientes não marinhos e já garantem resistência e longa vida útil. O aço galvanizado, fornecido em bobinas pelas siderúrgicas, é a matéria-prima com que as perfiladoras (beneficiadoras do aço) produzem os perfis, no comprimento exigido pelo projeto e já perfurados, para permitir a passagem das instalações.
A estrutura steel framing requer uma base em radier, calculada em função do terreno. A área onde ela será concretada deve ser impermeabilizada com manta geotêxtil, a fim de evitar a umidade ascendente. Além de garantir uma obra limpa, o radier já funciona como contrapiso para a aplicação do acabamento desejado. “Para isso, é necessário usar nível laser para garantir o nivelamento perfeito, e desempenar o concreto com o bambolê” (equipamento de pequeno porte que serve para alisar a superfície), detalha Mariutti.
Após a cura do radier (21 dias ou menos se o concreto for aditivado) deve ser executada a alimentação elétrica e hidráulica da construção. A seguir tem início a montagem da estrutura - que, no caso de uma residência de 200 metros quadrados, por exemplo, é feita em apenas uma semana, por equipe treinada. Em obras com dois pavimentos, ergue-se a estrutura do térreo, deita-se a laje seca, que pode ser feita em painel wall (de madeira maciça) ou OSB (oriented strand board, painel estrutural de madeira e resina prensadas sob alta temperatura). Ambos permitem montagem rápida e prática e requerem isolamento acústico, para evitar o incômodo ruído de passos no andar de cima. A seguir, monta-se a estrutura do mezanino ou do andar superior. Também é possível utilizar a laje steel deck - fôrma metálica para o concreto que permanece na estrutura, trabalhando como armadura positiva e eliminando a necessidade de escoramento. Por fim, há ainda a possibilidade de uma laje convencional, mas com os inconvenientes do escoramento e do cronograma estendido para aguardar a cura do concreto. Os especialistas recomendam que todas as interfaces entre o steel framing e outros sistemas construtivos sejam tratadas com mástique.
A etapa seguinte é a de cobertura, que emprega os mesmos perfis. Uma construção de 200 metros quadrados estará coberta ao final de uma semana de trabalho. “Em apenas 15 dias, a equipe já estará trabalhando sem correr o risco de atrasos em decorrência de chuvas. Numa obra convencional, levaria seis meses para o telhado estar pronto”, compara Mariutti.
Opções para fechamento
Após a montagem da estrutura, é a hora de aplicar a membrana permeável, do tipo Tyvek, em versões específicas para vedações verticais ou subcoberturas. Essa membrana é instalada pelo lado externo do perfil e será recoberta pelo material de fechamento (placas cimentícias, siding vinílico ou painéis OSB) ou ainda pelas telhas. A finalidade desse elemento de poros minúsculos é bloquear a entrada de água e, ao mesmo tempo, possibilitar a saída de vapores e umidade, evitando a condensação no interior da construção. No caso de uso de telhas cerâmicas, previne ainda o surgimento de goteiras.
Para a cobertura é possível escolher qualquer modelo de telha. Entre as opções mais práticas e atuais, Heloísa destaca a shingle asfática, que adere perfeitamente e impede a penetração de umidade, e as metálicas do tipo sanduíche, que garantem conforto termoacústico. “Numa residência, estas são usadas com forro por questão estética”, observa a arquiteta. “Alguns clientes ainda preferem a tradicional telha de barro. É possível fazer, mas é um serviço artesanal e sempre haverá o risco de quebras ou deslocamentos”, completa Mariutti.
O sistema steel framing implica dois planos de fechamento, o que deixa um vazio entre paredes a ser preenchido com material isolante. O primeiro a ser instalado é o plano de fechamento externo, implantado junto da membrana permeável. Há opções bastante diversificadas para esse procedimento, o que flexibiliza a escolha para o arquiteto. A mais comum é a placa cimentícia (painel de cimento reforçado por fibras). Disponíveis em opções com dez ou 12 milímetros de espessura, elas devem ser fixadas aos perfis com parafusos de aço inoxidável ou galvanizado autobrocante, que furam e aparafusam ao mesmo tempo, evitam reações químicas com a estrutura e ainda facilitam a desmontagem para reaproveitamento do aço no caso de a construção vir a ser demolida. Leves e resistentes, as placas aceitam acabamentos como massa fina e pintura, textura, cerâmica ou pedras, por exemplo.
Para evitar patologias, recomenda-se nunca colocar as placas em contato direto com o piso, e sim apoiadas nas guias chumbadas sobre mástique. O ideal é que sejam impermeabilizadas pelo lado externo no mínimo até um metro de altura, o que protege contra a batida da chuva. Elas também requerem atenção especial para as juntas entre os painéis, de modo que a dilatação e a retração do material não venham a causar trincas na superfície acabada. Para prevenir esse problema, Heloísa sugere que as placas nunca fiquem coladas umas às outras. “É necessário deixar uma fresta entre elas, preencher o espaço com a massa indicada pelo fabricante das placas e aplicar a tela de poliéster, própria para juntas de dilatação”, explica.
Entre as opções de tratamento para juntas, os especialistas destacam o Pesilox, adesivo à base de poliéter silil-terminado, desenvolvido no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo pela Adespec, empresa graduada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, da Universidade de São Paulo. Indicado para juntas de dilatação em geral (fachadas, granitos, painéis cimentícios, OSB etc.), o produto resiste a altas e baixas temperaturas, raios ultravioleta, água, umidade, intemperismo, impactos e vibrações. Flexibilidade, força de tração e coesão, o colocam como de elevado desempenho.
Também é necessário que massas, tintas ou texturas aplicadas sobre as placas tenham comprovadas propriedades elastoméricas, a fim de acompanhar o trabalho dos painéis cimentícios sem que surjam fissuras superficiais. No caso de pedras ou cerâmicas, o projeto deve prever juntas capazes de seguir essa movimentação. Para a pintura direta da placa, sem o uso de massa fina, a superfície deve ser previamente selada. O uso de tintas à base de solventes não é indicado em nenhuma circunstância.
Outra opção de fechamento externo é o siding vinílico, composto por barras de PVC fornecidas em diferentes larguras e várias cores, que dão uma personalidade norte-americana às construções. Esse revestimento dispõe de arremates para caixilharia e cantos, forro para beirais e outros itens de acabamento. Também é possível utilizar painéis de concreto leve, vidro ou placas de OSB com acabamento masseado. “O sistema é feito para fechamentos industrializados, que são rapidamente instalados, mas também é possível usar tijolo aparente ou argamassa armada”, detalha Mariutti.
Instalações e acabamentos
Após a aplicação do plano externo de fechamento, é a vez das instalações elétricas, hidráulicas e de ar condicionado. A rede de água pode empregar sistemas comuns, como os tubos de PVC e cobre, ou ainda soluções diferenciadas, como a tubulação de polipropileno copolímero random (PPR), que substitui o cobre, e sistemas hidráulicos flexíveis do tipo Pex. Para a rede elétrica, também é possível optar por conduítes corrugados, flexíveis ou rígidos, conforme o previsto em projeto. “O sistema hidráulico flexível é na verdade uma mangueira que acompanha o trajeto sem a necessidade de conexões, o que é bem mais vantajoso”, informa Mariutti. Como as instalações são feitas antes da aplicação do painel interno de fechamento, dispensa-se o tradicional quebra-quebra de paredes para a colocação de dutos, caixas de luz, metais sanitários etc. Isso também permite testar seu funcionamento e fazer ajustes antes de vedar internamente.
A etapa posterior é o preenchimento do vão entre as paredes com lã de vidro ou de rocha. As densidades podem variar de 12 a 60 quilos por metro cúbico, dependendo das necessidades de isolamento específicas de cada projeto. Por fim, aplica-se o painel de gesso acartonado (drywall), que vai fazer o fechamento interno. Disponível em diferentes espessuras, esse material também permite uma gama variada de acabamentos, tais como pintura, cerâmica ou pastilhas.
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| Procedimentos corretos para o tratamento das juntas evitam patologias |
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Tratamento de juntas das placas cimentícias com Pesilox |
Preencher a junta com Pesilox
Aplicar na junta uma camada de massa para tratamento de junta
Colar uma tela de vidro tratada de cinco centímetros
Passar outra camada de massa para tratamento de junta sobre a tela
de vidro
Colar uma tela de vidro tratada de dez centímetros
Cobrir toda a trama da tela de vidro tratada e nivelar o rebaixo com a
massa para tratamento de junta
Aplicar com rolo sobre a placa duas demãos de manta impermeabilizante
Proceder à pintura |
| Fonte: engenheira química Wang Shu Chen, diretora presidente da Adespec |
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008
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