TECNOLOGIA DAS FACHADAS
A fachada é um dos pontos mais sujeitos a patologias numa construção, perdendo somente para os sistemas hidráulicos
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  Sistema pré-fabricado
 
Comparação orienta escolha de sistema construtivo para fachadas

As fachadas são responsáveis por alguns dos aspectos mais importantes das construções. Além de definir a linguagem estética de um edifício, o que interfere negativa ou positivamente no desenho urbano, elas funcionam como invólucro e devem desempenhar satisfatoriamente funções de fechamento e de conforto interno. Extenso e complexo, o tema foi debatido durante o 1° Encontro Nacional sobre Fachadas, realizado em São Paulo, sob organização da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea). O destaque do evento ficou por conta das palestras de profissionais do setor, entre eles o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, diretor da Tishman Speyer, que apresentou detalhado estudo comparativo entre fachadas moldadas in loco e pré-fabricadas.

Segundo Ceotto, a fachada é um dos pontos mais sujeitos a patologias numa construção, perdendo somente para os sistemas hidráulicos. Isso merece mais atenção na medida em que os edifícios estão cada vez mais altos. “Prédios residenciais hoje têm 30 andares ou mais e os comerciais passam de 40 pavimentos. Com isso, as estruturas são mais flexíveis e trabalham mais, logo estão mais sujeitas a tensões decorrentes de deformações estruturais”, alertou o engenheiro.

Dentre as fachadas moldadas in loco, o tipo mais comum no Brasil é a de alvenaria e argamassa com acabamento em pintura ou revestimento cerâmico. Monolítica, ela sofre grande interferência das deformações estruturais, o que requer estruturas mais rígidas para evitar patologias. Esse tipo de fachada faz uso de serviços artesanais de baixa produtividade, apresenta altos índices de perdas e depende das condições climáticas para sua execução. Outra de suas características é que o acabamento só tem início após a conclusão da estrutura, quando é possível medir os deslocamentos da construção. “Usar elementos intermediários e fazer o revestimento em duas etapas só vale a pena em edifícios mais altos”, afirmou o palestrante.

De acordo com Ceotto, executar qualquer tarefa pendurado em um balancim é atividade de risco. “O serviço fica todo por conta do operário. O engenheiro inspeciona com binóculos e passa as orientações por rádio. Isso é muito precário e explica a realidade dos rebocos em camadas grossas. Além disso, de toda a massa que o operário chapa na fachada, perde-se 20% ou 30%, por melhor que seja a construtora”, afirmou. Nas contas de Ceotto, a fachada com argamassa e acabamento em pintura tem custo aproximado de 119 reais (em 2008) por metro quadrado, considerando material e mão-de-obra. Se receber revestimento cerâmico, o valor sobe para 162 reais (em 2008) por metro quadrado.

Custo das fachadas convencionais e pré-fabricados (em 2008)
Fachada Custo direto
Convencional pintada R$ 119/m2
Convencional cerâmica R$ 162/m2
Pré-fabricada R$ 265/m2*
*Com a redução de custos indiretos, o valor de comparação cai para R$ 203/m2

Fonte: Luiz Henrique Ceotto

Ceotto destacou também características das fachadas de concreto armado moldado in loco a partir de fôrmas que já trazem os recortes dos vãos. De função estrutural, essa fachada sobe junto com a estrutura, permitindo cronogramas mais curtos. Embora também seja monolítica, ela está menos sujeita a fissuras, uma vez que as armaduras densas dissipam as tensões. De elevada precisão, alta produtividade e mais seguro, o sistema requer fôrmas e gruas pesadas e apresenta melhor desempenho quando empregado em prédios gêmeos ou antisimétricos, de modo que a fôrma possa ser deslocada para os lados, sem a necessidade de subir e descer a cada concretagem. “Nesse sistema, o projeto arquitetônico precisa ser mais simples ou agregar pré-moldados”, orientou o engenheiro. Nos estados do Sul do país, a inércia térmica desse tipo de fachada pode causar a condensação da água devido ao resfriamento das paredes durante os períodos prolongados de frio. O problema é resolvido com a aplicação de chapas de gesso acartonado no lado interno. “De São Paulo para cima não tem esse problema”, ele afirmou.

Fachadas pré-fabricadas
As fachadas pré-fabricadas (com painéis de concreto armado, de GFRC ou metálicos com vidro ou pedra) são consideradas por Ceotto a solução ideal para edifícios de escritórios, flats, hotéis e residenciais de alto padrão, além de edificações com estrutura metálica. Entre as vantagens oferecidas pelo sistema, ele destaca alta produtividade e elevada capacidade de dissipar deformações estruturais, além de grande flexibilidade arquitetônica e de acabamento. “A flexibilidade deve ser baseada na modularidade. Se precisar de muitos modelos de fôrmas vai custar uma fortuna”, alertou o engenheiro. Ele também destacou qualidades como segurança do operário, facilidade para o controle de qualidade, rapidez e limpeza da obra, simplificação do gerenciamento e baixo custo de manutenção. Esse tipo de fachada requer componentes com dupla siliconagem nas juntas, cuidado que praticamente elimina as patologias. No caso dos painéis de concreto, deve-se observar que cada um deles pesa perto de sete toneladas, o que implica o uso de gruas com capacidade de carga acima de 150 toneladas/metro.

De acordo com o engenheiro, as fachadas préfabricadas não propiciam redução no orçamento da obra. “Seu custo é entre 10% e 15% superior ao da fachada com revestimento cerâmico, o que representa aumento entre 1% e 1,5% no total”, esclareceu ele. Considerando material e mão-de-obra, as pré-fabricadas ficam na faixa de 265 reais (em 2008) por metro quadrado. Porém, elas propiciam a diminuição de custos financeiros e de gerenciamento de canteiro, o que reduz o desembolso total para 203 reais por metro quadrado. As contas de Ceotto - que o engenheiro afirmou serem imprecisas - supõem um edificio de 25 mil metros quadrados e 20 pavimentos, com 10 mil metros quadrados de fachadas, com fechamento iniciado quatro meses após o começo da estrutura e cujas obras são bem gerenciadas. “Sem gerenciamento e organização, os custos ficam ainda maiores”, advertiu.

O engenheiro abordou também as fachadas do tipo drywall, formadas por estrutura metálica de alta resistência e painéis especiais de gesso acartonado revestidos por placas cimentícias. Ainda pouco conhecidas no Brasil, mas bastante difundidas nos Estados Unidos, elas são leves, flexíveis e admitem curvaturas em raios de até um metro e acabamentos variados, inclusive elementos pré-moldados. Uma membrana externa barra a penetração de água e ao mesmo tempo permite o livre trânsito do vapor. A fachada é montada no solo e içada por equipamentos de pequena capacidade de carga. As chapas são unidas por mástique e a produtividade é bastante elevada. “Pelo que vi no exterior, é possível executar um pavimento por dia”, concluiu Ceotto.

Detalhes de projeto
O engenheiro Jonas Medeiros, diretor técnico da Inovatec Consultores, analisou os revestimentos cerâmicos, muito comuns nas fachadas dos edifícios brasileiros. Ele ressaltou a importância da elaboração do projeto executivo da fachada para evitar patologias e reduzir o risco de acidentes. “Os projetos de arquitetura e estrutural devem ser sobrepostos para identificar os pontos mais sujeitos a problemas. Também seria importante haver a exigência de um responsável técnico pela fachada”, reivindicou. Entre os aspectos de execução, Medeiros chamou a atenção para a regularização do plano para aplicação do revestimento. “Se a camada de emboço é muito grossa, a placa cerâmica se desprende”, alertou. Ele sugeriu a ancoragem cimentícia com reforço metálico e recomendou o uso de argamassa industrializada misturada mecanicamente. Entre os piores problemas das fachadas cerâmicas estão aqueles causados pela ausência ou deficiência das juntas. “A junta deve ser cortada, para dar condições de trabalhabilidade ao revestimento, e impermeabilizada, para evitar a infiltração de água”, ele observou.

Fernando Westphal, consultor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), chamou a atenção para a relação transparência/opacidade nas fachadas. “Grandes áreas transparentes permitem a entrada da radiação solar e aumentam a carga térmica da edificação. O excesso de luz causa brilho e ofuscamento, o que torna necessário recursos de proteção solar e de controle de luz. Por essas razões, a relação deve ser vista com cuidado”, detalhou. De acordo com Westphal, a maior carga térmica implica maior capacidade do ar-condicionado: “Cada TR a mais no sistema aumenta em 6 mil reais o custo do empreendimento”. Segundo o consultor, o desafio hoje é criar algo belo com eficiência e funcionalidade, e sem importar modelos estrangeiros que não levam em conta as condições climáticas brasileiras. “O vidro sofisticado não é solução porque resulta em fachadas que chegam a custar mil reais por metro quadrado. Já as fachadas duplas somente são indicadas se houver grande diferença de temperatura entre exterior e interior”, avaliou.

A arquiteta Joana Gonçalves, do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética do Departamento de Tecnologia da FAU/USP, afirmou que, em cidades como São Paulo ou mesmo Rio de Janeiro, a diferença entre as temperaturas internas e externas são pequenas e fáceis de lidar. “O problema está no excesso de transparência nas fachadas”, disse. De acordo com a arquiteta, o projeto de fachadas deve avaliar o comportamento dos materiais ao longo das 24 horas do dia e simular a carga térmica anual da edificação. “A simulação vai revelar que a ventilação natural atende às necessidades de conforto na maior parte do tempo. O ar-condicionado só é realmente necessário em poucos dias do ano”, afirmou. Hugo Marques da Rosa, presidente da Método Engenharia, lembrou que os edifícios selados transformam-se em estufas quando falta energia elétrica. “O gerador serve a vários sistemas, mas não ao ar-condicionado. É preciso ter a opção da ventilação natural”, salientou.

Segundo Paulo Celso Duarte, da Paulo Duarte Consultores, as fachadas de vidro acabam funcionando como opção de fácil limpeza em regiões muito poluídas. “O granito e outros materiais porosos são contra-indicados nesses locais, e o vidro aparece como uma opção mais prática”, assegurou. Para o consultor, as características de cada projeto orientam a especificação dos vidros, que devem apresentar características adequadas para o controle térmico. Ele lembrou que, em cidades como São Paulo, o ar condicionado tem um papel que vai além do conforto térmico. “A ventilação natural traz incômodos, como papéis voando por causa do vento, poluição do ar e sonora, cheiros desagradáveis ou mosquitos. Mas, se a questão é o conforto térmico, o sombreamento externo é mais eficiente”, concluiu Duarte.


Texto resumido a partir de reportagem
publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 340 Junho de 2008

 
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Moldagem in-loco
 
Formas da moldagem in-loco
 
Gruas de elevação do sistema pré-fabricado
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