PERFIL

Biselli & Katchborian Arquitetos Associados

Duas casas, um aeroporto e, na introdução da matéria, o histórico de um projeto misto de arquitetura e desenho urbano são os trabalhos abordados nesta seção Perfil dedicada ao escritório paulista Biselli & Katchborian Arquitetos Associados. Criado em 1986 por um trio de colegas de turma formados no ano anterior pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (leia a entrevista adiante), desde 1991 o escritório está sob o comando dos sócios-fundadores Mario Biselli e Artur Katchborian, que frequentemente atuam em parceria com outros colegas arquitetos, muitos deles jovens profissionais e antigos colaboradores. Tanto a diversidade de projetos por eles desenvolvidos quanto a sua participação constante em concursos e em forma de coautoria são indícios do seu modo trabalho ou, melhor dizer, de sua arquitetura. Como se cada projeto fosse um recomeço e como se cada um deles, se refeito, abrisse margem para novas (e igualmente boas) soluções, contando favoravelmente no processo com a colaboração de criatividades diversas. Isso se refere à noção que o escritório opera de partido arquitetônico, cuja formulação, como apresentado por Biselli na abertura da sua tese de doutorado defendida em 2014 na FAU-Mackenzie - Teoria e Prática do Projeto Arquitetônico -, “não se submete a nenhum tipo de procedimento metodológico apriorista, sendo antes o aspecto excêntrico, não linear, aparentemente arbitrário e, contudo, central no processo projetual”

Em resposta à enquete que promovemos em janeiro de 2017 na edição comemorativa dos 40 anos da PROJETO, Mario Biselli respondeu da seguinte forma à pergunta sobre o projeto que esperava ver publicado, no futuro, na revista: “ Eu gostaria de ver na cidade o resultado da aplicação do novo Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo daqui a alguns anos. Acho que a cidade vai melhorar significativamente”.

Não estava dito, mas implícito, que tal projeto é o Complexo Júlio Prestes, na região da Luz, no centro de São Paulo, cuja implantação se encaminha para a etapa final de execução - as obras foram iniciadas em janeiro de 2017, com duração prevista de 36 meses. O projeto contempla oito torres residenciais (com apartamentos que variam de um a três dormitórios e são prioritariamente destinados à habitação social), uma escola estadual de música, a Tom Jobim, a praça frontal à Sala São Paulo, além de creche e itens de desenho urbano. Metade das torres e a praça já estão concluídas.

Para Biselli, o histórico desse projeto é “um círculo virtuoso, em que fomos o elo último”. Ele se refere tanto aos termos da Parceria Público-Privada (PPP),  extraídos do chamamento público de projetos feito pelo governo estadual em 2012 no contexto do programa Casa Paulista - de revitalização de seis setores do centro expandido da cidade de São Paulo, com foco na implantação de habitação social e para a baixa renda -, quanto à conformação da área de intervenção. No primeiro caso, Biselli credita a qualidade da encomenda ao edital da PPP, ou seja, à obrigatoriedade de se promover uso misto e fachada ativa, assim como às contrapartidas de desenho urbano e provisão de equipamentos públicos impostas ao consórcio vencedor para que pudesse construir no local as torres de apartamentos.

A maior parte de tais determinações foi extraída da proposta do URBEM, o Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole, concorrente no Casa Paulista, mais especificamente os seus modelos urbano e econômico. Integraram a equipe do URBEM os escritórios MMBB, Andrade Morettin e Piratininga. No segundo caso, ou seja, no que se refere à delimitação da área de intervenção, a disponibilidade do terreno anteriormente previsto para a implantação do Complexo Cultural Luz (projeto desenvolvido entre 2009 e 2012 pelo escritório suíço Herzog & De Meuron para o governo estadual, mas posteriormente cancelado) foi um acaso que favoreceu o projeto de Biselli & Katchorian.

“O governo ficou com aquele terreno enorme em frente à Estação Júlio Prestes e a construtora [Canopus, vencedora da licitação desse lote da PPP] aceitou incorporá-lo ao seu escopo”, assinala Biselli. Com tais qualificantes como pano de fundo, o projeto de Biselli & Katchborian é tão simples quanto desejável, no sentido de priorizar a ambiência urbana: “Prolongamos o eixo da Rua Santa Ifigênia no bulevar ao lado da futura escola de música [cujo contrato para o desenvolvimento do projeto executivo estava sendo assinado com a construtora em agosto passado] que, por sua vez, tem frontalidade com a Sala São Paulo.

Já os edifícios de apartamentos não têm nada de exuberante. São feitos com alvenaria estrutural e, no geral, possuem 17 pavimentos - exceto aqueles vizinhos ao prédio do Franz Heep, que acompanham o seu gabarito -, implantados na forma de miolo de quadra. Mas, tanto as cores dos prédios quanto o painel [da escola] têm poética inspirada no cromatismo da antiga rodoviária existente no local [demolida em meio aos preparativos para a obra do projeto de Herzog & De Meuron, nunca realizada]. “É um trabalho draconiano, a minha primeira experiência com um cliente que não negocia. O arquiteto precisa saber lidar com uma situação como essa”, declara Biselli, com sentimento de dever cumprido.

O Complexo Júlio Prestes não é o primeiro projeto de habitação social e urbano criado pelo seu escritório, como atesta o Conjunto Habitacional Heliópolis (2014), desenvolvido para a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, mas por causa do histórico anteriormente apontado será, sem dúvida, um dos trabalhos emblemáticos da sua produção. E um aspecto em particular que ele suscita, fazendo pensar no conjunto da obra do Biselli & Katchborian, é a capacidade dos arquitetos de negociarem com os agentes diversos que interferem na arquitetura, preservando a qualidade e a expressividade da produção.

Quando questionado sobre o fato de ter tido que redesenhar o terminal de passageiros do Aeroporto Hercílio Luz, de Florianópolis (leia o trecho final desta matéria), a resposta de Biselli foi: “Gosto de resolver tudo de novo. Aquele projeto [o perfil arredondado da cobertura metálica], aliás, já tinha sido copiado tantas vezes!”. E é nesse sentido que o leitor poderá cotejar o conjunto dos três projetos que apresentamos a seguir, dois edificados (uma moradia de religiosos no Rio de Janeiro e uma casa unifamiliar em Curitiba, no Paraná) e o outro em construção (o terminal do aeroporto de Santa Catarina), atentando para a diversidade das suas especificidades.

ENTREVISTA

Sobre o período da formação acadêmica de ambos, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie), quais experiências foram importantes para vocês?

Mario Biselli e Artur Katchborian Nosso período de formação coincide com o momento da redemocratização brasileira, que culminou com o movimento Diretas Já, em meados dos anos 1980. Foi uma época muito interessante; vivenciar a transformação política nacional ao mesmo tempo em que o país se abria às novas questões que pautavam o debate internacional no campo da arquitetura - naquele momento, um cenário em que tudo se encaixava na chamada pós-modernidade e que consolidava um conjunto muito grande de produções, críticas e textos que emergiram no início dos anos 1960 em oposição à doutrina modernista que havia dominado a primeira metade do século XX. Muitos dos nossos professores (Carlos Bratke, Roberto Loeb, Antonio Carlos Sant´Anna, Decio Tozzi) estavam conectados a tudo de importante que estava acontecendo, então o período de faculdade foi intenso e fecundo.

Falem sobre a decisão de constituírem sociedade, quando recém-formados. Possuíam já uma encomenda ou um concurso em vista?

MB/AK Nosso escritório foi fundado no final de 1986, embora o registro da empresa seja de 1987, depois de uma experiência anterior em escritórios próprios. O escritório era formado por Mario Biselli, Artur Katchborian e Alfieri Chiamolera Júnior, que ficou conosco até 1991. Todos nos formamos na mesma turma. O primeiro cliente foi trazido pelo Artur, uma fábrica de aspersores para irrigação. Nessa época, fizemos muitos projetos industriais.

Descrevam a estrutura de trabalho do escritório. Ele poderia ser definido como um ateliê?

MB/AK Sim, o escritório funciona como ateliê. A produção é dividida em basicamente duas partes - criação e produção -, e as equipes de trabalho acompanham genericamente essa divisão, embora, no dia a dia, tudo seja um pouco compartilhado entre todos.

Nesse sentido, como se complementam as competências de trabalho de vocês dois?

MB Eu e Artur discutimos os projetos quando da definição conceitual, mas a iniciativa e a responsabilidade pelo desenvolvimento de um projeto deriva de quem mais se identifica com o cliente, normalmente aquele que já é o responsável pela vinda de tal encomenda para o escritório.

Dentre o conjunto de trabalhos que já desenvolveram, construídos ou não, quais destacariam como novas experiências de projeto?

MB/AK Alguns projetos são muito especiais para nós, como aquele para o teatro de Natal e o projeto do aeroporto de Florianópolis, porque representam premiações importantes. Mas tanto o projeto de Heliópolis Gleba G quanto o complexo do CEU Pimentas foram realizados e rapidamente se confirmaram como equipamentos de uso coletivo, de impacto social importante no contexto em que foram implantados. Fizemos muitas casas marcantes para nós ao longo do tempo, mas observar o modo como as pessoas se apropriam e interagem nos espaços públicos é coisa muito emocionante.

Qual a importância da prática de ensino para cada um de vocês?

MB A escola te mantém fora da zona de conforto, que na arquitetura significa acomodar-se às soluções que funcionaram bem no passado. É muito fácil que a produção de arquitetura se converta em commodity, e é preciso lutar contra isso o tempo todo. O fato de frequentar o ambiente acadêmico, com a quantidade de arquitetos e pensadores que estão ali cotidianamente, te atualiza sobre todos os assuntos e te obriga a produzir conhecimento e ideias em arquitetura.



Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 445
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