FINESTRA: Conforto, Tecnologia e Futuro

Em sua terceira edição, a High Design - Home & Office Expo apresentou, entre os dias 28 e 30 de agosto, no pavilhão São Paulo Expo, na capital paulista, diversas novidades em sua programação, como o Arq + Smart Construction - espaço de negócios, relacionamentos e conteúdo focado em arquitetura e design de interiores. Além de abrigar uma Ilha Acústica, espaço de 150 metros quadrados onde expositores da ProAcústica exibiram produtos e soluções para os mercados residencial e corporativo, essa área foi palco de “talks” sobre conforto, tecnologia e futuro, sob curadoria da revista PROJETO

Os visitantes conferiram 12 “talks” nos três dias do evento, com as temáticas Conforto, Futuro e Tecnologia, sob curadoria da revista PROJETO.

Abrindo a série de palestras do Arq + Smart Construction, na sessão Conforto, o arquiteto José Augusto Nepomuceno, da Acústica & Sônica, abordou o tema Acústica de Salas Especiais x Projetos de Arquitetura, apresentando seus cases de sucesso como a Sala São Paulo e a Sala Minas Gerais. Para ele, a acústica é parte integrante da arquitetura - e vice-versa -, e não uma disciplina complementar. Por isso, o ideal é que o arquiteto e o profissional de acústica trabalhem em conjunto desde o início do projeto.

O engenheiro Marcelo de Godoy, da Modal Acústica, conversou com o público sobre Desempenho Acústico e Mercado Imobiliário, ressaltando a importância da Norma de Desempenho de Edificações (NBR 15575), de 2013, que estabelece exigências de conforto e segurança em imóveis residenciais.

Segundo Godoy, apesar de o regulamento tratar também de outros temas, foi um marco para o desempenho acústico no país. “Agora temos critérios objetivos de como o prédio deve funcionar, minimamente, na questão acústica. A norma aponta, inclusive, como aferir esses critérios na obra”, explica. Os problemas acústicos, ainda de acordo com o engenheiro, eram os mais recorrentes para moradores de apartamentos: “O desconforto acústico atingia desde empreendimentos como o Minha Casa, Minha Vida até os de de alto padrão”.

Godoy comentou que, cinco anos após a entrada em vigor da norma, o mercado imobiliário ainda está se adaptando a essa nova realidade, mas já existem, por outro lado, arquitetos, construtores e fabricantes que passaram a fase da compreensão de conceitos básicos e começaram a apresentar inovações.

No dia 29, as arquitetas Marcela Barros e Priscilla Bencke falaram sobre a relação entre acústica corporativa e neuroarquitetura. Segundo elas, esta última traz comprovações quantitativas, por meio de instrumentos de medição, sobre o que acontece com o sistema psíquico quando estamos expostos a certa quantidade de luzes, ruídos, cores e materiais. O estudo de neuroarquitetura deve ser feito logo no início do projeto.

Assim, é possível mensurar o quanto um problema (seja ele acústico, visual etc.) está, de fato, interferindo no ambiente e buscar estratégias, com base em pesquisas da área da neurociência, para proporcionar soluções adequadas. Como benefícios da contratação de uma consultoria em neurociência, as arquitetas destacaram o aumento da produtividade dos funcionários e a queda nos gastos referentes à infraestrutura (luz, água, energia elétrica), com a racionalização do tempo de trabalho.

José Carlos Giner, da empresa de consultoria em áudio e acústica Giner, foi convidado para falar sobre Elementos Acústicos e Ambientes Corporativos. O engenheiro acústico destacou a evolução desses elementos em relação a estética e performance nos últimos anos, principalmente depois da criação da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica). “As empresas estão caracterizando muito os produtos, investindo em testes para sabermos qual o desempenho de cada um deles e, assim, como aplicarmos em cada ambiente”, explicou.

Ainda segundo ele, com a entrada de novas empresas no mercado, o preço dos elementos acústicos diminuiu, mas é preciso estar alerta, pois também surgiram muitos produtos em não conformidade com as normas de desempenho.

Encerraram a temática, no dia 30, o arquiteto Lineu Passeri Junior e a engenheira e gerente de produto da OWA Sonex, Nancy Devai. Passeri Junior, que também é músico, abordou a relação entre conforto acústico e design. Ele explica que existem duas abordagens no projeto de acústica: as soluções de isolamento sonoro, que dizem respeito à quantidade de ruído no ambiente e estão intimamente ligadas às decisões tomadas no partido arquitetônico - vedação, sistema de caixilhos de fachada; por outro lado, as soluções para o resultado estético - iluminação, revestimento, entre outros -, que são tomadas no decorrer do projeto.

Essa abordagem, portanto, diz respeito ao tratamento acústico que soluciona a qualidade sonora dos espaços. “Cada tipo de ambiente tem requisitos específicos, como controle de reverberação ou privacidade sonora, como é o caso de restaurantes”, exemplificou.

Já a conversa guiada por Nancy Devai abordou a função do especificador de acústica, que é um consultor técnico que ajuda o arquiteto a integrar os produtos da melhor forma possível ao projeto. “Essa função vai muito além de ajudar o arquiteto a escolher um forro. O papel fundamental do especificador é evitar improvisos em obras, porque no improviso o arquiteto pode pôr a perder tudo aquilo que tinha imaginado no início, ou então, aumentar custos, aumentar prazos”, comentou.

Tecnologia

As arquitetas Aline Rocha e Amanda Gouveia, da ARQUI4D, inauguraram o tema Tecnologia, na apresentação do dia 28. A ARQUI4D é uma startup que executa modelagens 3D a partir do BIM, além de trabalhos de realidades virtual e aumentada, feitos exclusivamente por meio do aplicativo da AUGmentecture, empresa fundada por Zarik Boghossian e Alen Malekian, em Los Angeles, Estados Unidos.

Elas explicaram a diferença entre realidade virtual, que é a que utiliza óculos de imersão, permitindo que o usuário se sinta dentro do ambiente, e a aumentada, similar ao holograma, mas que depende da utilização de um dispositivo móvel para a visualização. Além de oferecer soluções para escritórios de arquitetura, empresas de mobiliário, entre outros, buscando facilitar o entendimento espacial dos projetos, a startup realiza parceria com a revista PROJETO (desde a edição 441), permitindo que os leitores vejam as obras publicadas também em realidade aumentada.

No dia 29, o arquiteto José Rocha falou sobre a implantação, em 2003, do BIM (Building Information Model - Modelo da Informação da Construção) no escritório Gui Mattos Arquitetura. Segundo ele, além de auxiliar no desenho dos projetos, o software permite integrar informações do início ao fim da obra. “É uma questão de gestão da informação. Então, o ganho inicial é poder visualizar possíveis problemas de execução em uma etapa muito antecipada”, explicou.

Rocha comentou, ainda, que existem várias vertentes no uso do BIM: “Por exemplo, uma construtora pode implementá-lo com foco no orçamento; já um escritório pode querer trabalhar sob a ótica de documentação; pode-se listar também mobiliários, tipos de parede, vigas específicas etc”.

Em sua conversa com o público, a arquiteta e urbanista Cristiane Urakawa, do Perkins + Will, destacou que, com o uso das realidades virtual e aumentada, há menos erros de alinhamento entre o escritório e os clientes. Isso porque, com a tecnologia, os clientes podem ter uma visualização mais clara e lúdica dos projetos, e os arquitetos podem antecipar possíveis problemas durante o desenvolvimento dos mesmos.

O escritório criou internamente dois aplicativos próprios, no intuito de oferecer aos clientes uma experiência personalizada, mas também para não depender dos softwares disponíveis no mercado.

Futuro

Edificar em Madeira, É Possível, É Sustentável! foi o tema da palestra da arquiteta Ana Belizário, da AMATA. Ela apresentou o conceito de “madeira engenheirada”, que é quando a madeira de crescimento rápido - principalmente o pínus, mas também o eucalipto - é tratada, colada e prensada para formar peças estruturais de grandes dimensões. Os principais tipos, hoje, são MLC (Madeira Laminada Colada) e CLT (Cross Laminated Timber, Madeira Laminada Cruzada).

De acordo com ela, construir em madeira não é grande novidade para a humanidade. No entanto, nos últimos cinco anos, esse mercado teve intenso crescimento. No caso do CLT, cresce 20% ao ano em todo o mundo. Isso tem acontecido, em sua opinião, pois é uma necessidade ambiental, já que a construção civil representa cerca de 50% das emissões de gás carbônico na atmosfera.

“Diferentemente do concreto e aço, que emitem gás carbônico ao serem fabricados, a madeira, em sua produção, o absorve. E quando a gente produz uma peça dessas, ele continua estocado nela ao longo do tempo”, explica. A arquiteta destacou ainda os avanços tecnológicos, custos e a segurança da “madeira engenheirada”.

No dia 29, o engenheiro civil Edgar Werblowsky apresentou os conceitos de “co-housing” e “co-living” e experiências no exterior, que podem ser aplicadas no Brasil. “Co-housing” é uma comunidade onde as pessoas decidem viver e envelhecer juntas, cada uma na sua casa, mas usufruindo de áreas comuns. Já o “co-living” é um espaço amplo, onde as pessoas moram efetivamente juntas.

Segundo Werblowsky, o planejamento arquitetônico de uma “co-housing”, que engloba desde a fase de escolha do terreno até a de execução, só acontece depois que o grupo entende quais são as preferências de cada integrante. Durante esse processo, é necessária a presença de um mediador, que pode ser arquiteto, gerontólogo, psicólogo etc.

Fechou o ciclo de “talks”, a arquiteta e urbanista Maria Teresa Diniz, da Urbitandem, que destacou, entre outras questões, que o debate sobre mobilidade na sociedade cresceu e passou a abranger todos os modais, e não apenas os de transporte público.

Ela ressaltou, ainda, que São Paulo tem um plano de mobilidade que não é posto em prática, muito devido ao fato de a sociedade não se apropriar desse conhecimento, mas também pela forma não amigável com que o poder público comunica esses instrumentos de planejamento. “Precisamos, como sociedade, nos aproximar desses planos, acompanhá-los, conhecer a parte financeira”, alertou.

Segundo o diretor da High Design, Lauro de Andrade, até a edição passada a feira era vista como ambiente de exposição apenas para interiores. No entanto, o sucesso do espaço Arq + Smart Construction, com lotação nas palestras e espaços de conteúdo, mostrou que os quase 5 mil arquitetos visitantes já definiram a High Design como um “hotspot” do segundo semestre.

A 3ª High Design contou ainda com lançamentos de cerca de 120 marcas e trabalhos de profissionais de arquitetura e design de interiores, além da realização do Congresso Nacional de Designers de Interiores (Conad), evento organizado pela Associação Brasileira de Designers de Interiores (ABD) desde 1996, e da 22ª Mostra do Prêmio Salão Design, que completou 30 anos de história com palestras e exposição de trabalhos premiados de designers do Brasil, Argentina e Uruguai.

Repetindo edições passadas, foi promovido o Studio High, espaço com peças exclusivas do design autoral brasileiro e que acolheu conversas sobre o processo criativo, entre outros temas, e o Office Conection, em parceria com a RAL Estratégia, que apresentou área focada no segmento corporativo.

A programação 2018 também trouxe outras novidades, como o Hotel Business Meeting, que no dia 29 de agosto contou com workshops e rodada de negócios entre fornecedores e equipes de especificação e compras da rede hoteleira AccorHotels.

Além da High Design Objects, área que reuniu 20 renomados designers de objetos, com curadoria da Brasil D|A e direção de Cecilia Rima e Marco Aurélio Saad Pulchério, o evento também contou com a High Design Photos, com exposição do fotógrafo Gabriel Wickbold, e a High Design Gallery, área dedicada às artes plásticas, esculturas e pinturas, com curadoria de Vera Simões e participação de Sila Lima e Beatriz Ferrari.

O diretor da feira acrescentou que esta edição foi, sem dúvida, a mais completa em termos de soluções para projetos de arquitetura e design de interiores, com a criação das novas áreas de negócios, relacionamentos e conteúdos. “Para 2019, aumentaremos o espaço da feira em 30%, apostando principalmente nos segmentos de arquitetura e sistemas construtivos”, adiantou.

Promovida pela Informa Group e idealizada pela Summit Promo, a próxima edição da High Design - Home & Office Expo está marcada para 21 a 23 de agosto de 2019, no São Paulo Expo.

Texto de Camila Gonzalez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 445
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