PERFIL

Dal Pian Arquitetos

Pretende trabalhar no Dal Pian Arquitetos? Se não gosta de cachorros, desista! Se gostar, mas não tiver senso de humor, também enfrentará dificuldades. Lelé, a cachorrinha da foto na próxima página, não projeta, mas devora livros. Literalmente. “Estudem, se informem, pratiquem e procurem absorver o conhecimento não apenas no campo da arquitetura”, recomenda Renato Dal Pian aos alunos de arquitetura (o que vale para os candidatos a integrarem a equipe) – com a experiência de quase duas décadas como professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie). O escritório que ele e Lilian, sua esposa, constituíram no início da década de 1990 chega aos 25 anos com uma produção que abrange edificações e programas de natureza muito distintos e que se renova constantemente. O casal não acredita no gesto criativo. “Projetar não é um ato de inspiração, mas de suor. Genialidade é consequência de pesquisa, de estudo, de empenho”, afirma Lilian.

Na foto, da esquerda para a direita: Paulo Noguer, Lilian Dal Pian, Renato Dal Pian e Carolina Mina Fukumoto (em pé), Carolina Freire e Luis Taboada (sentados). No colo, a cachorrinha Lelé (Foto: Carolina Fukumoto)

No interior de São Paulo, na primeira metade do século passado, o espanhol que viera para o país à procura de melhores condições de vida, entra no armazém de secos e molhados e, estendendo o indicador em direção à prateleira, pede, com convicção, ao português sentado do outro lado do balcão: “Dê-me uma fatia daquele doce de leite”. O lusitano, que migrara de Portugal pelos mesmos motivos, volta os olhos para a direção apontada e responde: “Aquilo não é doce de leite. É sabão”.

Com a proverbial teimosia que fez a fama de seus conterrâneos, o espanhol rebate: “É doce de leite!”. Ao que o português retruca: “Já disse que não é doce de leite. É sabão!”. Com o tom de voz um pouco mais alto, o espanhol repete com firmeza: “É doce de leite! Dê-me um pedaço”, reforça. O proprietário da venda decide cortar uma fatia do sabão, estende-a ao espanhol que a leva à boca, mastigando-a. Depois de alguns segundos, o dono da venda pergunta: “Então, é doce de leite?”. E o espanhol encerra: “Espuma um pouco. Mas é doce de leite!”.

Foi em uma edição deste ano do Esquina da Arquitetura, evento realizado pela PROJETO a cada lançamento de edição, que, numa brincadeira, o arquiteto Renato Dal Pian falou, com bom humor, da obstinação dos espanhóis em relação às suas convicções e da renitência em abrir mão delas. Renato não é espanhol - sua família é de origem italiana -, mas sua mulher, Lilian, tem raízes parte na Espanha, parte em Portugal. Embora, pela tez clara e límpidos olhos azuis, se quisesse poderia se passar por descendente de alemães ou de algum povo nórdico. Renato é um ótimo contador de “causos” e, com a teimosia do espanhol, fez uma sutil brincadeira com a sua parceira e sócia no escritório Dal Pian Arquitetos, fundado por eles em 1992. Além dessa face só conhecida por aqueles que lhe são mais próximos, o arquiteto possui notável memória para acontecimentos e situações (engraçadas, constrangedoras, curiosas) da arquitetura e seus personagens que, se reunidos, dariam um livro de crônicas sobre a profissão – em algumas seria conveniente omitir o nome real dos protagonistas.

Início do escritório
O casal é personagem de uma dessas passagens, como, por exemplo, a de quando voltaram de um período na Europa (primeiro na Inglaterra e depois na Itália), em 1992, terem se lançado numa “aventura” de (mesmo sem ter projetos contratados e sem perspectiva imediata de consegui-los) constituir o escritório que completou 25 anos em 2017. No retorno ao país, o governo Collor estava nos estertores e o país em crise. Um conjunto habitacional (não construído) na região leste de São Paulo foi das primeiras encomendas de maior relevância que conseguiram.

Natural de Marília (SP), Renato formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em 1981, enquanto a paulistana Lilian graduou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), no mesmo ano. “Abri mão da minha vaga para ela”, ele brinca com o fato da sua futura companheira ter ingressado na escola onde ele não passou no vestibular. O casal se conheceu por amigos comuns. Ela trabalhou nos escritórios de Jarbas Karman e Héctor Vigliecca, e ele passou pelo Itauplan. O plano de morar e trabalhar fora se efetivou pouco tempo depois do casamento.

Foi movido pelo espírito aventureiro, mais permitido aos jovens, que o casal mudou-se para Londres e bateu à porta de escritórios locais em busca de trabalho. Naquele momento, começavam a ganhar projeção no cenário internacional nomes como Norman Foster e Richard Rogers, e eles, logo ao chegarem, tiveram a oportunidade de visitar uma exposição com obras da dupla, junto com projetos de James Stirling - na época já falecido. “Foi onde vimos, pela primeira vez, projetos com uso dos painéis compostos de alumínio”, recorda Renato.

No período que moraram na Inglaterra, sempre trabalharam simultaneamente nos mesmos escritórios. A dupla reconhece que esse período na capital londrina foi muito significativo, principalmente dos pontos de vistas técnico e organizacional. Foi em um dos estúdios em que foram admitidos que, de certo modo, eles deram início ao “casamento profissional” que perdura até hoje.

Se técnica e economicamente o trabalho de ambos era reconhecido, faziam falta relações humanas mais calorosas do que os ingleses eram capazes de oferecer. Esse foi um dos motivos de eles se demitirem dos empregos, transferindo-se para o norte da Itália – na viagem para a Europa, antes de se radicarem em Londres, haviam passado por Milão e se encantado. Nos três anos seguintes que passaram na capital da Lombardia (onde, de novo, foram admitidos na mesma época e no mesmo escritório), aproveitaram para conhecer outros países.

Mais que turismo, o objetivo dessas incursões era conhecer o que de significativo estava ocorrendo na arquitetura das cidades europeias - eles registraram o que acontecia e, por isso, possuem hoje um grande acervo fotográfico de obras do período. Somadas ao trabalho nos escritórios, as “excursões arquitetônicas” consolidaram suas formações e fundamentaram as bases da arquitetura que passariam a praticar no seu retorno à capital paulista.

No Mackenzie e nos concursos
No regresso, o primeiro encargo de maior dimensão não teve êxito (o conjunto habitacional em São Mateus), mas o mesmo empreendedor confiou ao recém-fundado Dal Pian Arquitetos a tarefa de transformar (não se falava retrofit) um edifício próximo do elevado Presidente João Goulart em um condomínio de apartamentos. No ano seguinte, Renato ingressou como professor na FAU-Mackenzie, escola onde atuou por quase duas décadas. Por período bem mais curto, Lilian também ensinou arquitetura na PUC-Campinas.

Ao trabalhar com Héctor Vigliecca, Lilian reconhece ter sido picada pela ”mosca” dos concursos - Vigliecca é um contumaz participante dessas competições. Incutido o “veneno”, a ele somou-se a possibilidade que ambos enxergavam nesses certames: a de investigar e especular em programas de diferentes naturezas. Assim, os Dal Pian tornaram-se discípulos do uruguaio radicado em São Paulo no que se refere à participação em concursos, nos quais competem com Vigliecca.

Por isso, se o casal foi surpreendido quando, em 1994, o escritório ficou em segundo lugar no concurso para a revitalização do centro de Poços de Caldas, em Minas Gerais (PROJETO 175, junho de 1994), o viés para a participação nesse tipo de certame reafirmou-se três anos depois, quando, de novo, figuraram entre os premiados no concurso que pretendia renovar o centro de São Paulo. A primeira vitória ocorreu na competição São Paulo Eu Te Amo - a solução deles para a reurbanização do bairro da Penha, zona leste da capital, conquistou a primeira posição.

O feito se repetiria em 2004, com a proposta de um centro cultural em Campinas (PROJETO 289, março de 2004), junto a um antigo reservatório de água da companhia de saneamento local – neste caso, apenas a primeira etapa (a Praça das Águas) foi implantada. Renato conta que hoje ela se encontra descaracterizada e deteriorada. Nos concursos públicos, a mais recente vitória foi com o projeto para a sede (em implantação) do Sesc Guarulhos. As instalações da Natura (que publicamos nesta edição) também são resultado de uma competição - esta, porém, em um concurso fechado.

Foi na década de 1990 que os trabalhos do escritório começaram a repercutir nas publicações especializadas. Entre eles, PROJETO publicou duas residências na Praia Brava, em Ubatuba (SP). A primeira (edição 264, fevereiro de 2002), constituída por pavilhões de madeira implantados em duas cotas, e a segunda (edição 335, janeiro de 2008), de propriedade do casal. Esta era uma derivação da primeira, uma vez que estão próximas e enfrentavam situações parecidas: terrenos íngremes cercados por vegetação nativa e com visadas para o oceano.

Menos inspiração, mais suor
“Para ensinar tem que aprender.” A frase de Renato refere-se aos 18 anos em que foi professor. Diferente dos acadêmicos clássicos, ele se recorda que foi preciso organizar as ideias para poder desempenhar a contento a função – nos encontros do Esquina da Arquitetura, não é raro encontrar arquitetos que foram seus alunos. Como docente, teve a oportunidade de conviver, entre outros, com profissionais experientes como Pedro Paulo de Melo Saraiva [1933-2016] e Miguel Forte [1915-2002]. “Sempre fui paciente para ouvir e aprender com os mais velhos”, ele afirma.

Sobre Forte, recorda que ambos concordavam na opinião de que projetar não é um ato de genialidade; ao contrário, é um processo agônico. Isso porque, explica Renato, desde que acorda, até o momento de descansar, o pensamento do arquiteto não se desvia do assunto até chegar à solução satisfatória diante de diversas condicionantes. “Quando você consegue achar a solução é um prazer muito grande, mas a ela sempre antecede a agonia”, argumenta o arquiteto.

“Projetar não é um ato de inspiração, mas de suor”, completa Lilian. O casal não acredita, portanto, no criador genial. “Genialidade é consequência de pesquisa, de estudo, de empenho”, afirma ela, convicta. Sobre esse assunto, os sócios do Dal Pian lembram que, na arquitetura, muitas vezes as versões sobrepõem-se aos fatos. Recordam, por exemplo, o mito de que a marquise do Ibirapuera (de autoria de Oscar Niemeyer) foi equacionada num desenho em guardanapo. “Sei de pessoas que estiveram no escritório dele e viram calhamaços de croquis da marquise”, revela Renato. Para Lilian, versões fantasiosas são prejudiciais tanto à imagem da profissão, como atrapalham o estudo nas escolas de arquitetura.

Métodos e não especialistas
Embora tenha trabalhos em diferentes segmentos e escalas - de centros logísticos a edifícios industriais, passando por centros culturais e edifícios institucionais -, ainda persiste certa distorção na tentativa de se enquadrar a produção do estúdio. Quando foram premiados em concursos mais ligados à questão urbana, “disseram que éramos mais urbanistas do que arquitetos de planta, corte e fachada”, lembra Renato.

Depois, quando participaram de competições em situações que contavam com bens a serem preservados, imaginavam que tinham se tornado especialistas em intervir em edifícios tombados. Em outro momento, como responsável por projetos de vários centros logísticos, o escritório esteve também associado a essa especialidade. No caso do Dal Pian, não se pode colar qualquer rótulo, uma vez que é constante ele estar envolvido com programas de naturezas distintas – sempre com uma equipe enxuta. 

“O importante é você compreender a dimensão do trabalho, o momento e as suas necessidades”, argumenta o sócio do Dal Pian sobre a variedade de projetos e de programas nos quais o escritório se envolveu. “Para fazer um centro cultural, como o Sesc, por exemplo, é preciso ter compreensão do programa, das relações que você pode estabelecer em função da diversidade de usos. A partir disso, vai criando seu pensamento. Nosso escritório tem a característica de trabalhar em vários segmentos e conseguir dar respostas”, completa Lílian. “Os nossos projetos tem um rigor muito forte, algo que aprendemos com a temporada em Londres. Nossas plantas são muito claras”, destaca Renato.

Espaços amigáveis e colaboradores
Privilegiar transparências, proporcionar espaços amigáveis, criar interfaces entre o interior e o exterior são situações que o escritório procura valorizar em seus projetos, sobretudo naqueles que a equipe classifica como sendo de exceção – casos do conjunto do Sesc Guarulhos e da sede da Natura. O casal relata que procura sempre trabalhar muito próximo dos aspectos de engenharia e complementares, bem como de fornecedores e da indústria – ainda que, segundo eles, nem sempre seja um meio receptivo.

Esse tipo de arquitetura sempre foi desenvolvido com equipes pequenas - em períodos de intensa demanda e projetos de grande dimensão (o escritório chegou a trabalhar ao mesmo tempo nos projeto da fábrica da Nissan Motors, em Resende (RJ), do Sesc Guarulhos e da sede da Natura, em São Paulo) o total de arquitetos nunca chegou a 20 profissionais. Lilian, Renato e o grupo que permanece no estúdio neste momento em que as encomendas encontram‑se reduzidas asseguram que não “viram” noites e raras vezes trabalham aos finais de semana.

Os colaboradores do estúdio têm opiniões semelhantes sobre o principal motivo que os atraiu para o Dal Pian: a diversidade de projetos e programas. Carolina Fukumoto (a Mina) e Paulo Noguer vieram de experiências em escritórios atuantes no mercado imobiliário e percebem que, na atual função, têm tempo maior para se aprofundar. Carolina Freire (Calu) teve experiência anterior na Espanha e Alemanha e considera que o escritório apresenta coerência em todos os projeto. “Há constante preocupação com a iluminação natural, com a transparência e, em geral, é o vazio central que articula os espaços”, exemplifica.

Luiz Taboada (a quem Renato atribui o título de BIM Manager do escritório) formou-se pela FAU-Mackenzie e começou no escritório como estagiário. Em sua opinião, a arquitetura do Dal Pian apresenta-se com uma linguagem constante. “Não imutável, mas coerente. Temos elementos, métodos e processos característicos, independentemente do programa, e noto um modo muito parecido de fazer”, ele analisa. Ao que Calu acrescenta: “A vantagem da equipe pequena é que todos se envolvem e aprendem muito. São experiências sempre diferentes da anterior”, ela conclui.


Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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