Opera Prima 2014: os vencedores

Rigor e postura crítica

Esses foram os atributos principais elencados pelos orientadores dos cinco trabalhos premiados nesta 25º edição do Concurso Opera Prima como essenciais à transição, acadêmica/profissional, de que tratam os projetos de graduação em arquitetura e urbanismo. O que o eleitor verá a seguir é o amplo espectro, do conceitual à virtude técnica e funcional, que o júri elegeu como pertinente à formação do arquiteto, no Brasil, hoje.

Publicamos nesta edição os projetos vencedores do 25º Concurso Opera Prima, dedicado a trabalhos de graduação de cursos de arquitetura e urbanismo de todo o Brasil, e da categoria especial, #ImagineComVidro#. A grandiosidade dos números e, consequentemente do concurso, é indicativa da pertinência de, com ele, promovermos o debate acerca do ensino da profissão. Em 2013, ano relativo à edição atual do certame, foram 7.633 formandos nas escolas a tomarem parte do Opera Prima: 129 no total, entre as 148 cadastradas preliminarmente. Trezentos e oitenta e cinco projetos foram selecionados pelos cursos e, então, 331 seguiram participantes. Uma ampla e diversa vitrine daquele que é o mais importante trabalho da carreira de um aluno de arquitetura.

O julgamento ocorreu em duas fases: no final de 2014, permaneceram 25 finalistas (cinco de cada região em que está geograficamente setorizado o concurso) e mais 5 finalistas do #ImagineComVidro# após as rodadas regionais de análise. No início de 2015, então, elegeram-se os cinco premiados do Opera Prima, além do projeto vencedor da categoria #ImagineComVidro#, que distingue tecnicamente o uso do material em consonância com a proposta arquitetônica.

Manuela Muller, autora do projeto Non Park, orientado por Otávio Leonídio (leia na entrevista com os professores orientadores nesta edição) na PUC/RJ, teve a iniciativa ousada de debruçar-se sobre uma questão crítica da cidade contemporânea: a da miséria e exclusão social, associadas à degradação ambiental e ao esgotamento de infraestruturas. Seu projeto trata da recuperação do solo e águas de um aterro desativado há pouco mais de dois anos, o Gramacho, na zona norte do Rio de Janeiro, e da sua transformação em um parque especial. Cuja apropriação, flexível, pelos moradores da comunidade lindeira, seja o resultado de um emaranhado de possibilidades espaciais levantadas pelo seu projeto. A respeito do processo de orientação, Manuela assinala que se pudesse fazer um agradecimento a Leonídio, “não seria apenas pelo imenso conhecimento que me passou, mas, principalmente, por ter me mostrado a importância de saber perguntar. Essa capacidade de investigar e experimentar foi o seu grande ensinamento”.

Profissionalmente, então, Manuela tem desenvolvido, em parceria com a arquiteta Mariana Meneguetti, “projetos de menor escala, mas com causas e condições desafiadoras. Elaboramos uma galeria de arte contemporânea com um novo conceito de venda e apresentação das obras. Também fizemos dois projetos que visam repensar criticamente o espaço expositivo comercial. Além disso desenvolvemos uma casa popular usando métodos da bioconstrução e concebida para não utilizar mão de obra especializada”.

Diego Portas foi um dos membros da banca de Manuela e acolheu a arquiteta em seu escritório, o C+P Arquitetura, onde é sócio de Rodrigo Calvino, após a graduação. Ele é também o orientador do trabalho Maré Fundão, da UFRJ, concebido por Bruno de Oliveira. A questão infraestrutural e a segregação física e social são os cernes do projeto, tendo o autor proposto a integração do campus da UFRJ com o Complexo da Maré. O arquiteto, que trabalha atualmente como coordenador dos processos BIM no escritório carioca Ruy Rezende Arquitetura e está participando do desenvolvimento de um projeto de habitação de interesse social para o Movimento Nacional de Luta pela Moradia, na zona portuária do Rio de Janeiro, comenta que o mérito da orientação foi principalmente “na definição do escopo do trabalho frente à complexidade da área de estudo. Manteve o discurso estratégico coeso, tanto nas escalas territorial e urbana quanto na arquitetônica. Conceitos chave como edifício-infraestrutura, flexibilidade de usos e a conquista de territórios segregados foram postos em foco neste processo”.

Quadra Aberta Multifuncional, por sua vez, de autoria de Raíssa Lopes, da FAU/Mackenzie, é um projeto potente, tanto na escolha do tema como no desenvolvimento de uma quadra, atualmente desmembrada em terrenos que estão acolhendo edifícios residenciais de elevada densidade, em São Paulo, a favor da interligação de áreas de intenso uso público. Os patamares com que ela pretende vencer o desnível de vinte metros entre as vias Augusta e 9 de Julho estariam, assim, disponíveis à fruição do programa e à transposição pelos pedestres. Lucas Fehr foi o orientador de Raíssa, acompanhado pelo co-orientador, Abilio Guerra.

De Pernambuco, o Opera Prima teve como projeto premiado o Oceanário Moinho Recife, concebido por Maíra Duarte sob a orientação de Paulo Raposo Andrade. É a segunda vez consecutiva que a reapropriação de silos desativados aparecem entre os premiados no certame – no ano passado, tivemos o projeto de Camila Thiesen, em Porto Alegre -, neste caso, associado ao tema do desenvolvimento turístico da área central de Recife. A espacialidade hermética dos silos recifenses deram, então, lugar à multiplicidade de pontos de vistas dos tanques d´água que conformam o oceanário de Maíra. Ela trabalha atualmente no escritório de Alexandre Maçães e participa do desenvolvimento do Manual de Conservação da igreja de São José do Ribamar, juntamente com o professor Jorge Tinoco e, sobre a orientação de Raposo, destaca a pertinência do seu “zelo pela boa arquitetura”.

Também de Brasília, da Uniceub, provém um dos premiados do concurso. Trata-se do delicado Cidade dos Mortos, idealizado por André Jorge sob a orientação da (estreante na função) Raíssa Lopes. Localizado no extremo oeste do Eixo Monumental da capital federal, o trabalho navega com liberdade por referências literárias – a Italo Calvino – ao mesmo tempo em que desenvolve a fundo a sistemática do ritual de um cemitério/crematório. Uma dupla habilidade, que a professora considera fundamental à prática posterior do formando, e que está presente igualmente no projeto de Eduardo Cecco, da paranaense Universidade Positivo, o Conservatório de Música, que foi o premiado na categoria especial #ImagineComVidro#.

Clique aqui e veja mais sobre os finalistas regionais

Parabenizamos os alunos e orientadores, premiados e finalistas, e agradecemos o time de jurados, cujo contributo é fundamental para a excelência do concurso. Foram eles: César Dorfmann, Rodrigo Barbieri e Roberto Simon (Região 1); Marcio Kogan, Francisco Spadoni e Marta Moreira (Região 2); Jô Vasconcellos, Thiago Bernardes e Gabriel Duarte (Região 3); Carlos Fernando Pontual, Zeca Brandão e Sidney Quintella (Região 4) e Paulo Zimbres, Gil de Camilo e Paulo Henrique Paranhos (Região 5). Por fim, expressamos nossa gratidão a Roberto Aflalo, que nos assessorou na categoria especial, e ao patrocinador do evento, a Cebrace.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 420
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora