Entrevista:Jaime Lerner

"A cidade é o último refúgio da solidariedade"

No Brasil, projetos em Porto Alegre (a transformação do cais Mauá e a urbanização de trechos da orla do Guaíba) e em Minas Gerais (o instituto Ideia, na capital mineira). No exterior, a proposta para a implantação de cidades com habitações de interesse social, em Angola, na África. Esses são alguns dos recentes trabalhos idealizados pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner. Melhor talvez fosse classificá-lo como um humanista, de frases memoráveis como as que estão em seu livro de crônicas Quem cria nasce todo dia, publicado este ano. Na entrevista a seguir, ele falou sobre urbanização, questionou o automóvel como solução de mobilidade para as cidades e cutucou, de forma bem‑humorada, os paulistanos: “Quer deixar um paulistano feliz? Diga que São Paulo não tem solução. Eles têm um orgasmo, querem ouvir isso. Se você disser que São Paulo tem solução, começam a olhar de maneira desconfiada”

Desde que deixou a vida pública, no início de 2003, quando teve fim seu segundo mandato como governador do Paraná, Jaime Lerner passou a dar expediente em uma casa na rua Bom Jesus, no Juvevê, bairro próximo do centro de Curitiba. O imóvel, projetado pelo próprio Lerner na década de 1960 e, segundo ele, premiado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, serviu de moradia ao autor e a sua família por mais de 50 anos (inclusive durante seus períodos como prefeito e governador) e foi convertido em sede do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados.

“Minhas duas filhas se criaram aqui. Elas eram maiores que as árvores que eu mesmo plantei”, ele conta, referindo-se às espécies que sombreiam a lateral da sala onde foi entrevistado por PROJETOdesign, numa tarde cinzenta do final de outubro, na primavera curitibana. Contrariando a máxima “Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço” (e coerente com a recomendação recorrente em todas as intervenções urbanísticas que orientou), Lerner mudou-se para um edifício praticamente em frente da casa, que agora é apenas local de trabalho dele e de uma equipe de mais de 20 pessoas. “Depois que deixei a política, resolvi me dedicar só à arquitetura, às cidades, ao design. Trabalhamos em projetos que, felizmente, podemos escolher. Só aceitamos aqueles com as quais concordamos”, relata Lerner.

Ele não titubeia ao afirmar que nos próximos anos o automóvel será tão proibitivo quanto o cigarro - e lembra que há pouco mais de uma década as pessoas não acreditavam que o fumo viria a ser banido de locais fechados. Mas vacila ao ser indagado se moraria numa área rural. “Me pegou de jeito, mas acho que não. Moraria em qualquer cidade, pequena, média ou grande. Para mim, a cidade tem que ser um encontro entre as pessoas, e quando você faz um encontro só com você mesmo é triste”, avalia. E imediatamente contrapõe: “Mas não experimentei, pode ser que venha a gostar”.

Em 2001, pouco tempo depois de promulgado o Estatuto da Cidade, o senhor avaliava que ele não era a essência de uma política urbana. Passados quase 15 anos, o senhor observa no país a prática de uma política urbana consistente?

Não. O que mostra a consistência de uma política é a prática, e nós estamos sempre atrás de documentos, de intenções. São boas as intenções, mas colocar em prática é quase irreal. Agora exigem plano de mobilidade em todas as cidades, mas isso não adianta porque, enquanto a mentalidade for a do automóvel, estaremos sempre exigindo as coisas erradas. O estacionamento devia ser facultativo e em alguns lugares até proibido, mas continuamos estimulando o uso do automóvel, que é hoje preocupação de grande parte da população brasileira. Às vezes, com muito sacrifício as pessoas compram um apartamento de 75 metros quadrados, onde 25 são para o automóvel. E elas acham ruim que uma faixa seja dedicada ao transporte público. No Brasil, os espaços são todos para o automóvel. Não que eu seja contra, mas acredito que a maneira de usá-lo precisa mudar.

Como isso pode ser alterado?

Somos dependentes, estamos drogados no automóvel. Costumo dizer que ele é o cigarro do futuro. Quem acreditaria, dez anos atrás, que seria proibido fumar em espaços fechados? No futuro, vamos continuar tendo automóvel, ele vai gerar emprego também, mas o uso vai mudar. Muitas coisas podem alterar a situação atual. Primeiro, ter melhores alternativas de transporte, de mobilidade. E isso é possível, não tenho dúvida de que qualquer cidade brasileira pode fazê-lo. Outra coisa é viver mais próximo do trabalho. Não tem sentido você se deslocar por longos trajetos para trabalhar. Principalmente a moradia de interesse social, que tem sido empurrada para cada vez mais longe, para a periferia, o que é outro crime. Minha Casa, Minha Vida é meu fim de mundo. Deveria ser minha casa, minha vida, meu trabalho, minha mobilidade, juntos.

O que pode induzir essas mudanças?

As pessoas brigam para ter um plano diretor. É muito bom, mas ele é apenas um instrumento. Mais importante são as pessoas que trabalham para que as diretrizes do plano aconteçam. Em geral, o plano diretor não orienta a execução daquilo que é importante para a cidade. É uma posição passiva: fica-se à espera de que documentos tragam a solução, e não é por aí. O que funciona são as cidades que estão realmente mudando, fazendo o que é necessário, dirigindo seu próprio crescimento.

O senhor também afirmava que era preciso ter um país mais generoso com as cidades, pois havia uma visão trágica em relação aos problemas delas e os condutores das políticas econômicas não tinham uma visão de cidade. Houve avanços?

Nenhum. É uma lógica: todas as vezes que se separa a economia das pessoas, quando se trata separadamente a atividade econômica dos assentamentos humanos, não acontece coisa boa. O mais importante ao cuidar da cidade são as pessoas. A cidade é o último refúgio da solidariedade. Se ela deixa de oferecer qualidade de vida, não adianta criar programas isolados ou globais de educação. Esses programas têm que ser implantados com diretrizes gerais, sim, mas cidade por cidade. É ali que as coisas acontecem. Eu raramente tenho encontrado governos nacionais que se preocupam de fato com as cidades. Nos debates entre candidatos a presidentes de um país, dificilmente o problema da cidade é levantado.

Devemos continuar mantendo a esperança de que isso se altere?

Claro que sim. Um pensador já dizia que o simples fato de detectarmos uma coisa que não vai bem é o início da mudança. Quando, em 1962, se começou a falar sobre meio ambiente, todos achavam que estava tudo perdido, e veja a grande mudança que tem acontecido. Quem falava em mobilidade tempos atrás? Hoje ela está na pauta de todos, porque ninguém se mexe nas cidades. E quando se começa a ver que soluções de mobilidade que levaram 50 anos para acontecer começam a sair da pauta, já é o início dessa mudança. Todo mundo acreditava que o metrô era a grande solução de mobilidade, mas estamos vendo, em todas as cidades do mundo, que não se pode sacrificar gerações e gerações até que se tenha uma rede completa. Isso não quer dizer que não haja solução. O BRT, que começamos em Curitiba em 1974, está ganhando espaço, mais de 300 cidades estão implantando, entre elas Bogotá, Seul, Istambul, Cidade do México e Rio de Janeiro. É possível atingir uma qualidade muito boa em [transporte na] superfície, mas não é isso que está acontecendo em São Paulo.

Por que o senhor afirma isso?

A prioridade está certa. São Paulo começou bem, criando um número muito grande de pistas exclusivas para o transporte público. Mas existem vários estágios para um sistema de superfície ser bom. Um deles é a pista exclusiva, o segundo é uma pista exclusiva no centro, que possibilita menos interrupções. O terceiro é operar corredores, mas isso é apenas um começo. O quarto é criar uma rede, que é o que temos em Curitiba. Dessa maneira evoluímos de 50 mil passageiros transportados por dia para 2,6 milhões. O metrô de Londres, o mais antigo do mundo, transporta 3 milhões de passageiros por dia, sendo uma cidade muito maior. Pode-se avançar, e vêm surgindo coisas inovadoras, como a eletrificação dos sistemas, supercapacitores, novas baterias. Considero errado o outro caminho: o de inventar estradas em que o carro se conduza sozinho. É um gadget, mas não é uma visão de mobilidade. Em São Paulo, 84% dos deslocamentos são feitos pela superfície, então ela precisa ser bem operada. Você pode “metronizar” o ônibus, dar a ele a mesma performance, como fizemos aqui, dar rapidez, embarque rápido, frequência.

Quais cidades são exemplos de boas práticas urbanas?

No Brasil, Curitiba é uma delas, mesmo com todas as idas e voltas. Porque o processo de inovação tem que ser constante, e, no transporte, Curitiba parou. Mas sempre é possível retomar e ainda é um bom sistema. E em outros aspectos, como o índice de áreas verdes, que passou de meio metro quadrado por habitante em 1970 para 60 atualmente. No Rio as coisas também estão acontecendo. Eu acreditava que São Paulo avançaria bastante em relação ao transporte, mas não está. Não sei o que acontece no Brasil, mas acho que os prefeitos estão amarrados. Há uma burocracia federal. Quando não há definição e as pessoas têm medo de tomar decisões, o burocrata cresce. Temos no país uma síndrome de desconfiança, e ela cria vontades, cria xerifes e suas barreiras, que acabam também em corrupção. E também está se criando a ilusão de que para algo acontecer precisa ter unanimidade. A democracia não é consenso, é um conflito bem gerenciado, bem administrado. Hoje tem que ouvir todo mundo: o cara que é canhoto, o cara que tem joanete no pé direito, o que tem joanete no pé esquerdo. E essa unanimidade não existe.

A busca pela unanimidade pode acabar paralisando as ações?

É o medo da responsabilização. Se você sabe que está tomando decisões adequadas, não precisa ter receio. Se tem medo de tomar decisões, então não assuma cargo público. A vontade de mudar, que encontrávamos há alguns anos, hoje é rara. Quer deixar um paulistano feliz? Diga que São Paulo não tem solução. Eles têm um orgasmo, querem ouvir isso. Se você disser que São Paulo tem solução, eles começam a olhar de maneira desconfiada. Não se trata de achar que é fácil resolver, mas em toda cidade dá para fazer, não importa a escala, nem as condições financeiras. Só que isso exige trabalho, criatividade, perseverança, equipe, conhecimento. Às vezes queremos substituir o conhecimento pelo consenso, e isso não é possível.

O senhor foi executor de políticas urbanas. Hoje elabora propostas, mas não tem o poder de implementá‑las. O que é mais difícil?

O mais difícil é a angústia de ver que algo pode ser feita e às vezes não é. Ser o executor é mais fácil, elaborar propostas é mais sofrido. Mas faço isso com grande prazer, porque, em vez de ficar só em uma cidade, posso influir na vida de outras. E acredito que a referência de Curitiba, no mundo inteiro, tem sido importante. Então isso me obriga a me deslocar por muitos lugares, tenho que fazer palestras, debates. Curitiba ainda é uma grande referência, mas temos outras, como Medellín e Bogotá.

Depois que o senhor deixou a vida pública, quais trabalhos desenvolvidos por seu escritório poderiam melhorar a vida das cidades?

Há um trabalho muito importante que estamos fazendo em Angola, em 13 cidades. Fomos chamados a fazer um plano de moradia para Luanda e convencemos quem nos contratava de que o princípio moradia/trabalho/mobilidade teria que acontecer junto. Esse processo de discussão levou um ano, e estão sendo implantadas naquelas cidades mais de 40 mil moradias. Em Porto Alegre, estamos trabalhando na revitalização do cais Mauá junto com o escritório espanhol Fermín Vázquez, fazendo o projeto da orla. Começamos uma proposta importante que desenvolvemos para São Paulo, de uma cidade sem periferia, que possibilitasse a vida, a moradia, o trabalho. Dei um curso na Universidade Colúmbia, em Nova York, e provamos a viabilidade desse projeto, que teria de ser feito em parceria com a iniciativa privada. Infelizmente, o momento do país não estimula.

As escolas brasileiras estão formando urbanistas capazes de alterar essa situação?

O arquiteto é o profissional da proposta, não do diagnóstico. É a maneira que ele tem de contribuir para mudar alguma coisa. Hoje, na área de desenvolvimento urbano, só vale quem tem mestrado, PhD e essas coisas. Sou doutor em muitas universidades e não fiz mestrado, não tive tempo para isso, precisei trabalhar. Tenho receio - não que esteja acontecendo, mas tenho receio - que as nossas universidades formem professores que se habilitem a ensinar algo com o qual nunca trabalharam. Mas há uma nova geração que é mais aberta e tenho encontrado jovens com potencial. Em relação à arquitetura, eles têm a facilidade de estar por dentro de tudo. A prática, no que diz respeito à cidade, não existe muito porque as próprias cidades não cumprem esse papel de planejamento. Quem quer se dedicar à cidade faz o seu caminho, com graduação, pós-graduação. Mas onde vai aprender? Em muitas universidades o ensino teórico é dado por quem nunca o exerceu na prática. Meu receio é que o conhecimento seja levado a uma constatação de que as coisas são impossíveis, que se crie um conhecimento que impeça a pessoa de ver que aquilo é possível.

Em sua opinião, que nomes estão pensando as cidades?

Um bom arquiteto é um bom entendedor da cidade. E há pessoas que têm sensibilidade para ela. Às vezes gostam mais de trabalhar com a obra de arquitetura, mas nunca vi um grande arquiteto que não tivesse uma sensibilidade especial para a cidade. Embora uma parte da arquitetura se encaminhe para o icônico, porque os computadores, os meios possibilitam, precisamos de uma constelação de arquitetos que se comprometam mais com a cidade. Em vez de egoarquitetos, precisamos de ecoarquitetos.

PROJETOdesign promoveu o concurso de desenho urbano Urban 21, entre escolas de arquitetura [leia nesta edição]. Concursos podem contribuir para melhorar a visão dos alunos sobre a situação urbana?

É um estímulo para pensar a cidade e sempre surgirão ideias novas. Quando fui presidente da UIA [União Internacional de Arquitetos] organizei o programa Celebração das Cidades. Convidávamos arquitetos e estudantes que tivessem uma proposta para sua cidade a apresentá-la. Tivemos mais de 60 países, foi uma quantidade enorme no primeiro ano. A cidade não é tão complexa quanto os vendedores de complexidade querem nos fazer acreditar. E o mundo está cheio de vendedores de complexidade.

O senhor, apaixonado pelas cidades, moraria numa área rural?

Me pegou de jeito, mas acho que não. Quando fui governador, tivemos a iniciativa de implantar as vilas rurais, que pretendiam dar ao campo as condições que se encontrariam na cidade. Foram 418 vilas rurais, com o mínimo de vida em comum: a escola, o centro de saúde. Mas acho que não moraria numa delas. Moraria em qualquer cidade, pequena, média ou grande. Para mim, a cidade tem que ser um encontro entre as pessoas, e quando você faz um encontro só com você mesmo é triste. Mas não experimentei, pode ser que venha a gostar.



Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 428
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora