Salão do Móvel de Milão 2014

Design além da matéria

Todo ano, o tradicional Salão do Móvel de Milão apresenta novidades em móveis, luminárias e objetos decorativos. Mas, do lado de fora da feira, as ruas são tomadas por artistas e designers independentes, artesãos e marcas internacionais que transformam o espaço urbano em uma grande vitrine de criatividade. Neste ano, um aspecto interessante do evento foram as demonstrações pontuais de como o design pode extrapolar o universo autorreferente de formas, cores e materiais para criar cenários relacionados às mudanças econômicas e sociais

Alguns dos projetos influenciam comportamentos de coletividade ou sustentabilidade, enquanto outros são tentativas de enriquecer a rotina através de produtos e interfaces que agregam emoções à dureza de tarefas cotidianas. O Fuorisalone - como é conhecida a programação paralela da feira oficial da Semana de Design de Milão - manteve seu caráter experimental e propôs uma discussão mais complexa, menos formalista, sobre como o design pode comunicar valores e estimular comportamentos nas esferas institucional, urbana, comercial e doméstica.

Assim, foi unindo design emocional e tecnologia da interação que a escola suíça Ecal conquistou o prêmio de melhor exposição da Semana de Design de Milão. A mostra Delirious Home questionou a banalização da presença tecnológica na vida doméstica e injetou diversão na proposta de "casa maluca", em que as pessoas podem interagir ativa e emocionalmente com os objetos. Para o idealizador da exposição, Allain Bellet, a tecnologia se tornou inteligente, mas sem senso de humor: "Essa falta de humanismo foi o ponto de partida para imaginarmos uma residência realmente original, onde os objetos se comportam de uma maneira inesperada". Na mesa de jantar, por exemplo, a colher está disposta a perseguir a xícara onde quer que esta vá. Os cactos de estimação, hipersensíveis, respondem carinhosamente ao toque e o relógio imita os movimentos das pessoas. "Peças e móveis aparentemente comuns foram projetados para nos fazer questionar a nossa relação com eles", acrescenta Bellet.

Por outro lado, a empresa italiana de móveis Lago buscou discutir a melhor forma de agregar valor aos produtos e difundir os ideais de uma marca, ao expor mais uma vez seu plano de negócios que funde a esfera doméstica e a comercial: casas de verdade se tornam showroom. Os moradores escolhidos participam de uma consultoria de interiores, mobiliam toda a residência com móveis da Lago e abrem suas portas aos visitantes da feira. Trata-se da oportunidade de vivenciar um espaço diferente dos tradicionais e frios ambientes de exposição de produtos. "A casa habitada assume um caráter único. Nós fornecemos apenas os ingredientes para que cada morador acrescente o próprio estilo e personalidade", explica Andrea Leone, um dos designers da empresa.

Ainda no Fuorisalone, o território urbano virou palco de experimentações. O Public Design Festival, criado pelo Studio Esterni, resultou de um concurso centrado no tema Comida de Rua, no qual foram eleitos 12 designers de diversas partes do mundo. Seus projetos apresentaram diferentes modalidades de preparação e consumo, que transformaram a praça 25 de Abril, tradicional espaço de passagem, em um grande restaurante temporário, lugar de encontro e socialização. As soluções ali apresentadas facilitam e reinterpretam as práticas da cozinha de rua. Módulos móveis para o preparo da comida, hortas, bancos e mesas encaixáveis formam unidades multifuncionais, como no projeto Kit Chen, das italianas Laura di Donfrancesco e Isabella Secchi. Outros buscaram incentivar o espírito colaborativo e sustentável, como o Juicy Pedal Bar, idealizado pelas designers Olga Goloshchapova e Olga Becker, no qual uma centrífuga é ligada a bicicletas que, quando pedaladas, geram energia para fazer sucos frescos.

Hortas ambulantes também estiveram entre as instalações do Public Design Festival. No projeto italiano Il Frutteto Urbano, promovido pela marca de sorvetes de frutas Dietorelle, árvores foram plantadas em estruturas com rodízios, que servem também de assento para o público.

TRABALHO E ECONOMIA CRIATIVA
No campo do mobiliário para escritório, um dos destaques foi a proposta de criar ambientes que inspirem e desafiem seus ocupantes a serem mais criativos, arriscarem mais e atuarem em grupo, demandas geradas pela alta competitividade da economia globalizada. O designer italiano Luca Nichetto, por exemplo, desenvolveu para a Kinnarps a instalação interativa Scandinative Workspaces, baseada em estudos neurocientíficos sobre aspectos espaciais que estimulam a criatividade. São eles, assim denominados por Nichetto: Build & Change, maleabilidade dos móveis e sistemas; Disorient Us, configuração labiríntica que estimule encontros inesperados; Out on a Limb, espaços para vencer o medo de errar; Play Hard, interações lúdicas, para a inovação; Ecosystem of Ideas, para encontros. "Acredito no espaço de trabalho orgânico, que se modifica de acordo com as pessoas que trabalham ali. Na minha proposta, visualizei uma combinação inesperada de salas de diferentes tamanhos, funções e desníveis, com vários percursos possíveis. Um local onde as pessoas podem interagir livremente", explica o designer.

Alma e colaboração são também os ingredientes fundamentais de Acre, Made in Amazonia, um dos projetos brasileiros expostos em Milão. Ele resulta da política de desenvolvimento social, tecnológico e ambiental do governo do Acre, em andamento há 16 anos, que atualmente ganhou força ao formar parcerias de diversas instituições, como o Instituto de Formação Dom Moacyr, o Sebrae (órgão brasileiro de apoio à pequena empresa) e a Universidade Politécnico de Milão. O objetivo é qualificar o trabalho de artesãos, seringueiros, designers e arquitetos da região, criando uma escola de formação de design focada na identidade cultural acriana e na sustentabilidade do desenvolvimento tecnológico local. A ideia é que madeira, borracha e outras matérias-primas locais, antes vendidas somente na forma bruta, sejam transformadas em produtos de design que, com maior valor agregado, possam atingir novos mercados no Brasil e no Mundo. "Antes, eu só sabia extrair a borracha bruta; agora sei que posso criar muitas coisas", relata a artesã Leonora Maia.

A fase inicial do processo de formação reuniu 36 participantes da região, entre eles arquitetos, designers e artesãos, que estabeleceram uma "gramática visual do Acre”. Em outra etapa, o brasileiro Bernardo Senna e o francês Emmanuel Gallina, dois designers de fama internacional contratados pelo Politécnico de Milão, conduziram ao longo de 2013 um workshop no qual elaboraram, com os alunos, produtos de design contemporâneo mas sintonizados com a identidade da cultura local. "Orientamos os alunos a manterem suas ideias originais e a darem forma legível e esteticamente interessante aos seus produtos", explica Gallina.

Já o professor do Politécnico Giuliano Simonelli, responsável pela parceria entre o Acre e a escola italiana, acredita que os europeus têm muito a aprender com o componente criativo da cultura brasileira. “Queremos fazer crescer o design local e desenvolver microempresas que saibam fabricar e vender seus produtos, dentro e fora do Brasil”, completou.

Os móveis e objetos resultantes do projeto foram divididos em dez diferentes coleções, cada uma inspirada em um elemento típico do Acre e remetendo às tribos indígenas locais, seus símbolos, tradições e materiais. A linha Empate, por exemplo, exalta as características e a dualidade da existência da madeira na região. "Deparamos com uma floresta viva e intocada, e outra destruída pelo homem. Interpretamos isso através de móveis com duas madeiras contrastantes, o roxinho e o amarelão, unidas por uma junta que lembra os desenhos indígenas", explica Gallina. Já a linha Palafita apresenta mobiliário com equilíbrio instável, inspirado nas típicas construções às margens dos rios; a marca da água dos rios na época das cheias é reproduzida pelo contraste entre dois tons de madeira na base dos móveis.

NA CASA DOS ARQUITETOS
No segmento mainstream do Salão do Móvel, a exposição Onde Moram os Arquitetos foi interessante oportunidade de explorar um território misterioso e que desperta curiosidade: a casa dos profissionais da arquitetura. Em meio à cenografia de Davide Pizzigoni, foram expostos vídeos, imagens e sonoridades das residências de oito importantes arquitetos da atualidade: Shigeru Ban, Mario Bellini, David Chipperfield, Massimiliano Fuksas, Zaha Hadid, Marcio Kogan, Daniel Libeskind e Studio Mumbai/Bijoy Jain. A sala reservada para o brasileiro Kogan foi interpretada como um espaço aberto e infinito, com uma grande janela panorâmica que se abria para o céu, refletindo referências cinematográficas. Através de vídeos, foi possível percorrer o apartamento do arquiteto (em um edifício de sua autoria, na cidade de São Paulo), onde obras de arte, lembranças de viagens, autógrafos, brinquedos e bibelôs espalhados por todo o imóvel evidenciam sua obsessão pela memória.

Shigeru Ban, vencedor do Prêmio Pritzker de 2014, abriu virtualmente aos visitantes do salão as portas do seu apartamento, localizado em um tranquilo bairro de Tóquio. O edifício, também projetado por ele, em 1997, preservou a densa floresta do entorno, e os ambientes do apartamento são constituídos pelo que Ban considera o mínimo e essencial: uma mesa redonda, uma cadeira, uma estátua grega, luz natural abundante e a natureza integrada.

*Clarice Semerene é graduada em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário de Brasília, em 2006, e mestre em Interior Design pelo Politécnico di Milano, Itália. Tem seu escritório baseado em Brasília.

*Erica Moreti é formada em desenho industrial pela Universidade de Brasília e é mestre em design de serviço pelo Politécnico de Milão, Itália. Atualmente mora em Milão, colabora como professora convidada junto ao Politécnico de Milão e desenvolve projetos de design estratégico para empresas de diferentes setores em todo o mundo.

Texto de Clarice Semerene e Erica Moreti (coautora)*| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 411
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