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Roberto Segre: Oscar Niemeyer: um persistente exercício político

Oscar Niemeyer: um persistente exercício político

Em 2012, com surpresa e admiração, esperava-se com ansiedade o dia 15 de dezembro, quando o Mestre completaria 105 anos, ainda em plena atividade produtiva. Sem dúvida ele superou a imaginação de Gabriel García Marquez, em cuja obra Cem anos de solidão a saga familiar de Macondo culminava com o centenário de José Arcadio Buendía, uma trajetória que se pode comparar à vida complexa de Oscar. Entretanto, pouca semelhança há entre ambos no que se refere à identificação política e ideológica. Niemeyer é um expoente da arquitetura brasileira e latino-americana. Seu papel fundamental na consolidação do movimento moderno em âmbito internacional foi reconhecido através do grande número de prêmios recebidos: o Pritzker, nos Estados Unidos; o Imperial, no Japão; a Medalha de Ouro do Riba, na Inglaterra; e o Príncipe de Astúrias, na Espanha, entre outros. Mas dificilmente alguém lembra que ele foi o único arquiteto latino-americano a ganhar o Prêmio Lenin, recebido na União Soviética, em 1963.

Desenhos relacionados ao monumento da foice e do martelo
Desenhos relacionados ao monumento da foice e do martelo
Oscar Niemeyer: um persistente exercício político
Em 2012, com surpresa e admiração, esperava-se com ansiedade o dia 15 de dezembro, quando o Mestre completaria 105 anos, ainda em plena atividade produtiva. Sem dúvida ele superou a imaginação de Gabriel García Marquez, em cuja obra Cem anos de solidão a saga familiar de Macondo culminava com o centenário de José Arcadio Buendía, uma trajetória que se pode comparar à vida complexa de Oscar. Entretanto, pouca semelhança há entre ambos no que se refere à identificação política e ideológica. Niemeyer é um expoente da arquitetura brasileira e latino-americana. Seu papel fundamental na consolidação do movimento moderno em âmbito internacional foi reconhecido através do grande número de prêmios recebidos: o Pritzker, nos Estados Unidos; o Imperial, no Japão; a Medalha de Ouro do Riba, na Inglaterra; e o Príncipe de Astúrias, na Espanha, entre outros. Mas dificilmente alguém lembra que ele foi o único arquiteto latino-americano a ganhar o Prêmio Lenin, recebido na União Soviética, em 1963.

A trajetória política de Niemeyer, tão extensa quanto a sua frutífera vida de projetista, é marcada pela coerência, persistência e continuidade de sua militância.

Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1945, manteve uma participação constante e ativa, permitindo que o Comitê Metropolitano do partido, sob a direção de Luís Carlos Prestes, funcionasse em seu ateliê, no Rio de Janeiro.

E cabe assinalar que seu compromisso ideológico não se enfraqueceu com a desintegração da URSS e o fim do sistema socialista mundial, nos anos 1980.

Com mais de um século de existência, manteve com absoluta firmeza seu apoio à causa socialista, à luta dos despossuídos e dos povos explorados no Terceiro Mundo, como o Movimento dos Sem-Terra, no Brasil, e até sua identificação com Cuba e Venezuela.

Monumento em Cuba representa o imperialismo (na figura de um cachorro) tentando morder o camponês cubano
Monumento em Cuba representa o imperialismo (na figura de um cachorro) tentando morder o camponês cubano
Monumento em Cuba representa o imperialismo (na figura de um cachorro) tentando morder o camponês cubano
Monumento projetado para o entorno da ex-embaixada dos EUA em Malecón

Com a crise do mundo socialista e o fim da Guerra Fria, os conteúdos ideológicos da arquitetura, particularmente intensos nos anos 1960, depois do movimento estudantil de maio de 1968 em Paris, perderam espaço no debate teórico.

Na apresentação da obra de profissionais de prestígio internacional - Zaha Hadid, Rem Koolhaas, Renzo Piano, Steven Holl, Santiago Calatrava e David Libeskind, entre outros -, é incomum estabelecer uma relação entre a expressão formal e o conteúdo ideológico.

Por que, então, isso ocorria com Niemeyer? Nos ensaios críticos sobre sua obra, nunca se faz referência a sua posição política, como se a criatividade artística não tivesse relação com o compromisso filosófico e ideológico.

Monumento projetado para o entorno da ex-embaixada dos EUA em Malecón, Cuba. É a imagem de um anel (o embargo norte-americano), quebrado pela bandeira cubana
Monumento projetado para o entorno da ex-embaixada dos EUA em Malecón, Cuba. É a imagem de um anel (o embargo norte-americano), quebrado pela bandeira cubana
Uma mensagem de Stalin, por Niemeyer
Uma mensagem de Stalin, por Niemeyer

No entanto, é impossível ignorar esse nexo na obra do Mestre. Seus ideais, suas aspirações, seus princípios éticos e morais têm presença significativa no conteúdo social das obras realizadas.

Seu conceito de beleza, seus enunciados estéticos e a criatividade implícita nos edifícios constituem a essência de sua relação com a comunidade que os abriga e que receberá a influência positiva de sua qualidade artística, tanto no que se refere aos conteúdos funcionais como nos significados icônicos e simbólicos que estão sempre associados a determinado grupo social.

Em âmbito nacional, o Congresso e a praça dos Três Poderes (1958), em Brasília, criaram um símbolo reconhecido por todos os brasileiros; o olho do museu em Curitiba (2000) e a flor do MAC em Niterói (1996) são ícones que se transformaram em símbolos arquitetônicos dessas cidades.

E, ultrapassando os limites nacionais, algo semelhante ocorreu com o centro cultural em Le Havre (1972), a sede do Partido Comunista Francês (1965), em Paris, e o recém-inaugurado centro cultural em Avilés (2010). Essas obras emblemáticas são assumidas com orgulho pelos habitantes de cada localidade.

Desenhos sobre a causa do Movimento dos Sem-Terra
Desenhos sobre a causa do Movimento dos Sem-Terra
Desenhos sobre a causa do Movimento dos Sem-Terra
Desenhos sobre a causa do Movimento dos Sem-Terra

Desde a divulgação do Manifesto Comunista de Marx e Engels, os ideais igualitários alimentaram a luta de camponeses e proletários por justiça social e pelo fim da miséria e da exploração, numa trajetória que culminou com as sucessivas revoluções que marcaram a história do século 20, no México, na Rússia, na China, em Cuba, entre outras.
Na arquitetura e no urbanismo surge a busca de uma relação entre as conquistas sociais e a criação de cidades e edifícios que representassem os novos valores culturais, com formas e técnicas construtivas inovadoras. Isso aconteceu nos “anos de fogo” na Rússia (1917/35), período que constituiu a cunha da renovação formal e espacial da arquitetura do século passado.
Nele se imaginou de tudo, com soluções inesperadas nos edifícios públicos, nos conjuntos habitacionais e nos símbolos monumentais concebidos por Konstantin Melnikov, Vladimir Tatlin, Ilya Golossov, Ivan Leonidov, Alexander Rodchenko, Victor e Leonid Vesnin, Nikolai Ladovsky.
O resultado foi uma identificação simbólica com as ideias socialistas, da qual se lançou mão também em países capitalistas: Mies van der Rohe projetou em Berlim o monumento a Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo (1926, logo destruído pelos nazistas) e Le Corbusier desenhou o monumento a Paul Vaillant-Couturier (Paris, 1938), falecido diretor do jornal L’Humanité. Nessa linha se situam os projetos de Niemeyer para as sedes do PC francês e do L’Humanité em Saint Denis (1987).
A estes se somam monumentos associados a temas políticos e sociais, como o projeto Tortura Nunca Mais, os memoriais de Luís Carlos Prestes e Leonel Brizola no Rio de Janeiro, o projeto de monumento a Bolívar em Caracas e aquele implantado em Havana, contra o bloqueio a Cuba.
Na trajetória de Niemeyer, a identificação da dinâmica criadora com o compromisso político se desenvolveu desde a década de 1930, ao relacionar-se com a vanguarda ideológica e cultural brasileira surgida com a Revolução de 1930, de Getúlio Vargas.
Nesse grupo podemos citar Pedro Ernesto, Mario de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Anísio Teixeira, Cândido Portinari, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Lucio Costa. A influência desse importante movimento intelectual se manifestou na atitude combativa que o Mestre revelou em textos, ensaios e artigos, defendendo os princípios éticos e morais da arquitetura moderna local, publicados em diversos números da revista Módulo, editada ao longo de 30 anos.
A divulgação de textos como esses se manteve, no século atual, na revista Nosso Caminho, também dirigida por Niemeyer. A essência de seu posicionamento político pode ser resumida pela resposta enfática que deu ao ser interrogado pela polícia na época da ditadura militar: “O que pretendemos? Transformar a sociedade”.
A Módulo foi fechada e Niemeyer partiu para a Europa no final dos anos 1960, onde continuou desenvolvendo seu trabalho. Também cabe recordar que, depois de sua participação no projeto da sede da Organização das Nações Unidas em Nova York (1947), foi convidado por diversas universidades para realizar conferências nos Estados Unidos, mas nunca lhe foi concedido o visto para entrar no país.
Por outro lado, Niemeyer experimentou a emoção de ver o reconhecimento que sua obra teve entre os movimentos progressistas internacionais. Esse reconhecimento se revela nas encomendas feitas por governos democráticos, como o conjunto de obras desenvolvidas na Argélia por iniciativa do presidente Houari Boumedienne, levadas a cabo por uma equipe de arquitetos e intelectuais que haviam participado da construção da Universidade de Brasília.
Também recebeu solicitações de governos estaduais e municipais, tanto na França (as cidades de Le Havre e Bobigny) como no Brasil, onde executou para o governo Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, por iniciativa de Darcy Ribeiro, cerca de 500 Cieps, espalhados por todo o estado.
Em suma, é possível afirmar que existe uma representação ideológica na obra de Oscar Niemeyer? As aspirações políticas e ideológicas do socialismo - com exceção das crises dogmáticas e autoritárias do socialismo real - estiveram identificadas com a vanguarda estética e tecnológica da qual o Mestre participou com sua persistente inovação de formas e espaços baseados na liberdade estrutural possibilitada pelo concreto armado.
A representação ideológica da arquitetura de Niemeyer também está presente no fato de privilegiar as obras públicas, concebendo-as despidas de um simbolismo monumental e opressor. Ele sempre se propôs a criar espaços públicos democráticos, inovadores, incomuns e inesperados, abertos ao uso da comunidade, com significados icônicos e simbólicos que os transformam em centros de referência arquitetônica da cultura na qual estão inseridos. Sem dúvida, a obra que ele desenvolveu ao longo do século 20 vai perdurar como um exemplo progressista para as novas gerações do século 21.


Texto de Roberto Segre*
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 395 Janeiro de 2013

*Roberto Segre formou-se arquiteto pela Universidade de Buenos Aires em 1960. É professor titular do Prourb/FAU/ UFRJ e coordenador do Laboratório de Análise Urbana e Representação Digital (Laurd)
 

Texto de Roberto Segre| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 395

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