COLUNAS

FAU-Mackenzie, tradição e renovação

Desde sua fundação em 1947, a Faculdade de Arquitetura Mackenzie se destaca no cenário cultural brasileiro e no ensino de Arquitetura e Urbanismo, formando gerações de arquitetos e urbanistas que se projetam no exercício profissional, em busca da qualidade de vida nas cidades.

O ideário que fundamentou a escola desde seu início envolve não somente a trajetória do fundador, o arquiteto Christiano Stockler das Neves. Vai além da exaltação de uma ou mais personalidades, mas convida a conhecer o pensamento e os princípios que sustentaram o ensino e as práticas pedagógicas ao longo desses seus 70 anos de existência e os 100 anos do Curso de Arquitetura da Escola de Engenharia Mackenzie, criado em 1917.

Uma genealogia de ideias, práticas e concepções não é uma apologia ao passado, e sim a exposição daquilo que, enraizado, olha o futuro, parte de uma Escola Viva, que põe à prova sua transformação e os desafios futuros.

Ao rememorar a contribuição do professor Christiano Stockler das Neves para a emergência de uma identidade da FAU-Mackenzie, é possível dizer que ao conduzir a Faculdade de Arquitetura Mackenzie manteve intacta uma visão de arquitetura, cidade e arte, enraizada ao longo do tempo em que atuou como diretor do Curso de Arquitetura da Escola de Engenharia (1917 a 1947) e depois como o primeiro diretor da Escola (1947-1956).

Suas ideias representam a tensão entre um idealismo próprio ao Beaux-Arts e o pragmatismo; crença indelével na atualização dos processos que conformam a concepção arquitetônica e suas práticas, sujeitas à inexorável transformação histórica. Referências e modelos eram então vistos como necessários e próprios à imanência da arquitetura, mas devendo atualizar-se, levando-se a admitir sempre novas expressões, como resposta às transformações sociais. Essa produtiva tensão se expressou na resistência oposta por Christiano à arquitetura moderna, a qual, embora questionando, não podia banir.

Como não o fez, sob pena de contradizer o espírito transformador que alentava. Todas as inovações deveriam passar pelo crivo do rigor da disciplina arquitetônica e projetual, uma educação erudita, e aprendizado dos fundamentos disciplinares. Rigor e fundamento, visão crítica e olhar às premências sociais do trabalho do arquiteto e urbanista - impõem-se como a motivação primordial do ensino, para além da emulação de modelos e soluções.

Essa ação programática convida a olhar o futuro a partir de suas bases, em uma ação contínua de educar para a cidadania, valorizando o projeto em todas as escalas, e entendendo-o como mediação possível da utopia e da realidade. Uma Escola que tem um passado de quase um século, um Curso centenário, mas que se repensa sempre - como a crença legada pelo fundador - de que é preciso renovar sem deixar de lado o que persiste.

Eunice Abascal é arquiteta e urbanista, mestre e doutora em Arquitetura e Urbanismo. Atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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