Vencedor e finalistas do Concurso Público Nacional de Projetos de Arquitetura e Expografia para Expo Dubai 2020

Em Dubai, água para ver e sentir

Água que evapora resfriando o ar e que se oferece ao desfrute recobrindo quase a totalidade do chão brasileiro em Dubai. É a água representativa dos rios do Brasil, da nossa biodiversidade, que conforma uma atmosfera totalizante protegida da chuva, dos ventos e do sol por meio de uma membrana têxtil na cor branca. Esse é o delicado equilíbrio entre intimidade e monumentalidade da arquitetura e expografia vencedoras do concurso público para a escolha do pavilhão brasileiro na Expo Dubai 2020, promovido em 2018 pela Agência Brasileira de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), com organização do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Distrito Federal (IAB/DF).

Poderiam ter sido concorrentes, mas decidiram unir esforços e inscreveram-se juntos no concurso para a escolha do pavilhão que irá representar o Brasil na Expo Dubai 2020. José Paulo Gouveia (JPG. ARQ) e Alexandre Benoit, de um lado, Milton Braga e Marta Moreira (MMBB Arquitetos), associados ao argentino Martin Benavides (Ben‑Avid) e Guilherme Wisnik, do outro, são os grupos de origem do sexteto vencedor do certame, cujo resultado foi divulgado em 12 de novembro de 2018.

A proposta (elaborada com a participação de Miguel Maratá e Gabriela Trevizan, na estrutura, e com a colaboração de Ana Carolina Isaía, Emilia Darricades, Juan Pablo Parodi, Mateo Arjona, Raphael Carneiro, Seizen Uehara, Tomás Quaglia Martínez e Victor Oliveira) leva ao extremo a orientação do edital para que o projeto privilegiasse a experiência do usuário, ou seja, o caráter imersivo e lúdico do espaço e da mostra.

É superlativo, assim, o montante de água - caminhável - que conforma quase a totalidade do chão do pavilhão, cuja cobertura é feita por uma estrutura metálica vedada com membrana têxtil que, com sua translucidez, imprime aspecto etéreo ao ambiente. Em contraposição, são concisos os espaços fechados, reunidos em uma construção disposta numa das laterais da implantação e solta tanto do teto quanto do piso.

As laterais do fechamento têxtil não tocam o térreo, de modo que, embora exista formalmente uma entrada ao pavilhão, o visitante possa vislumbrar os interiores a partir de qualquer ponto do perímetro da implantação. Uma liberdade e singeleza marcantes se pensarmos no excesso de informações e narrativas que costumam caracterizar esse tipo de evento.

A superfície expositiva, então, é a totalidade do espaço interno, tanto o céu artificial (a membrana), quanto as paredes e o chão de água, isso porque as imagens de grande formato projetadas no alto serão também refletidas no piso (tão intensamente quanto o efeito resultante do acabamento preto do contenedor do espelho d’água).

Imagens essas - sobretudo de texturas e enquadramentos de paisagens naturais - associadas a sons - de cantos indígenas à música do movimento manguebeat - e odores: eis o princípio expográfico. Uma mostra, portanto, em contínua transformação, acompanhando as gradações cíclicas das luzes natural e artificial.

Aparentemente simples em recursos, no entanto, o projeto passará a lidar agora com as demandas para que o pavilhão responda adequadamente às condições do dia e da noite, à acústica e às variações de calor, considerando-se a previsão de que o evento dure quase seis meses, de 20 de outubro de 2020 a 10 de abril de 2021.

A ideia é que no segundo semestre de 2019 ocorra a licitação para a construção, cujo orçamento total disponível é de 14 milhões de dólares. Participaram do concurso 42 projetos, a metade dos quais elaborados por equipes de São Paulo, de onde saíram os vitoriosos não apenas desta edição como aqueles do certame anterior, de 2013, relativo ao pavilhão brasileiro na Expo Milão 2015.

Naquela ocasião, venceu a dupla Studio Arthur Casas + Atelier Marko Brajovic. Em 2010, a Apex-Brasil foi designada pelo Ministério das Relações Exteriores como autoridade brasileira responsável pela participação do Brasil nas feiras mundiais, que ocorrem a cada 5 anos e que na edição de 2020-2021 tem o título Conectando Mentes, Criando o Futuro.

Dos três subtemas dele derivados (Oportunidade, Mobilidade e Sustentabilidade), o que é novidade na história do evento, a Apex-Brasil, conforme depoimento concedido à PROJETO, acolheu a sugestão da organização da Expo Dubai 2020 para que o Brasil integrasse o setor da Sustentabilidade.

No mesmo sentido, relata a entidade, “o lote oferecido ao Brasil foi aceito por contar com área compatível com as dimensões do lote na Expo Milão 2015, pela localização privilegiada, próxima ao Pavilhão Temático de Sustentabilidade [projeto do Grimshaw Architects] e pela dimensão de frente (54 metros)”.

Ele possui 3.772 metros quadrados (em Milão foram 4.133 metros quadrados de terreno), sendo que em Dubai os lotes variam de 2.700 a 10.800 metros quadrados.

Finalistas

O concurso público para a escolha do projeto arquitetônico e expográfico do pavilhão brasileiro em Dubai foi aberto em 19 de setembro de 2018, com o resultado divulgado em 12 de novembro. Compuseram o júri os arquitetos brasileiros Fernando Viegas, Maria Luiza Fragoso e Thiago Teixeira Andrade, além da portuguesa Inês Lobo e do argentino Fernando Diez.

A coordenação do certame esteve a cargo dos arquitetos Paulo Henrique Paranhos e Gabriel Daher Jardim, e os prêmios concedidos foram de R$ 70 mil, R$ 35 mil e R$ 20 mil, respectivamente para o primeiro, segundo e terceiro colocados, valor dedutível, no caso do projeto vencedor, do contrato para o desenvolvimento do projeto executivo de arquitetura e expografia, consultorias e acompanhamento da montagem e desmontagem do pavilhão, totalizando R$ 6.162.929,66.

Além dos projetos de 21 equipes paulistas, fizeram parte do certame os trabalhos de profissionais de Minas Gerais (5 projetos), Distrito Federal (5), Rio Grande do Sul (4) e Paraná (3) e, com um participante cada, de Mato Grosso, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiânia.

Durante o julgamento, iniciado em 7 de novembro de 2018, houve um trabalho desclassificado por descumprimento do edital e a posterior seleção de 11 concorrentes para a etapa seguinte de análise. Dela, em 8 de novembro, participaram “(…) propostas que não apresentaram representações literais e conclusivas da realidade brasileira (…) e o caráter aberto da expografia no sentido de permitir o necessário desenvolvimento e maturação dos conteúdos expositivos”, aponta a ata do certame.

Passou-se, então, para a análise de seis projetos, culminando com a escolha dos quatro finalistas. Entre eles, a segunda colocação foi concedida ao projeto inscrito no Distrito Federal (escritório MGSR Arquitetos), com autoria de Fabiano Sobreira e Paulo Borges Ribeiro e colaboração de Filipe de Abreu, Luana Alves, Paulo Henrique de Oliveira e Gabriela Figueiredo.

A terceira colocação foi conferida a uma equipe de Porto Alegre (0e1) associada a um escritório do Uruguai (Masa Arquitectos), com autoria de Anna Carolina Galinatti, Martin Pronczuk e Santiago Saettone, curadoria de Mario Guidoux, museografia de Mathias Pereira Sant’Anna, expografia de Gabriel Giambastini e a colaboração de Jeronimo Berruti, Lucia Echavarria e Julian Martinez.

Houve ainda uma menção honrosa concedida a projeto inscrito por equipe de São Paulo (André Scarpa e Rosário Pinho) associada ao escritório francês Oyapock Architectes, com curadoria de Andrea Carneiro Jakobsson, expografia de Glória Afflalo e colaboração de Amanda Tamburus, David Zee e Pamela Gomes.



Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 447
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