URBAN21: 1º Lugar

A periferia no centro: Um outro olhar sobre São João de Meriti

Lançar o olhar sobre as questões da periferia metropolitana foi o ponto de partida do projeto classificado em primeiro lugar no URBAN21. Desenvolvido por equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o trabalho propõe novas formas de relação entre mobilidade, cotidiano e poder em São João de Meriti, município na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro

O projeto da equipe vencedora do URBAN21, intitulado “A periferia no centro: Um outro olhar sobre São João de Meriti”, partiu do entendimento de que a periferia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro se situa em um cenário de dependência econômica, cultural e política do centro hegemônico e identificou dois dos seus maiores desafios urbanos atuais: a mobilidade baseada em grandes deslocamentos pendulares cotidianos e as diversas deficiências de seu planejamento e gestão.

O trabalho critica a lógica urbanística centro‑periferia, que, apesar de baseada no acesso
da população periférica aos recursos do centro metropolitano, acabam por reforçar a relação de dominação dessa centralidade em vez de fortalecer o conjunto dos munincípios. Tal ideia de mobilidade metropolitana estabelece a construção de infraestruturas que, sozinhas, não conseguem lidar com as demandas periféricas.

Os alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro elegeram São João de Meriti, na Baixada Fluminense, como área de estudo. Segundo o grupo, trata-se, atualmente, do município com maior densidade demográfica da América Latina: pouco mais de 13 mil habitantes por quilômetro quadrado e 99,9% do solo ocupado. O local é cortado por grandes infraestruturas de transporte e delimitado por dois rios.

A escolha do município justifica-se também por ser o projeto piloto do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado (Pedui), desenvolvido pela Câmara Metropolitana do Rio de Janeiro e publicado em 2018, que propõe uma estrutura policêntrica com o fortalecimento das centralidades urbanas secundárias e a sua articulação em rede, sugerindo transversalidades contrapostas às estruturas radiais.

Para criar o projeto, os estudantes inicialmente analisaram os movimentos pendulares em razão de três fatores: distância, tempo e custo. Em seguida, estudaram as particularidades de trechos urbanos que, apartados do entorno devido à sua morfologia, quebram o paradigma homogêneo das tramas periféricas. A equipe criou uma rede de transporte para facilitar o acesso a toda extensão de São João de Meriti, a partir da introdução do VLT (veículo leve sobre trilhos) aos modais preexistentes, conectando as subcentralidades propostas no projeto e articulando uma espécie de “circuito intramunicipal”.

O projeto de intervenção tem como etapa inicial um masterplan de caráter analítico e propositivo. Um trecho no bairro de Vilar dos Teles, chamado de “fita”, foi eleito como o primeiro estudo de caso. A análise apontou grandes deslocamentos de pedestres devido à extensão das quadras, que, assim, acabam funcionando como barreiras. Foi sugerida a incorporação de atravessamentos lentos a um sistema de espaços livres e públicos dispostos entre quadras e ruas perimetrais - um parque urbano fragmentado e conectado.

A ideia é promover novas possibilidades de trocas sociais e culturais e diminuir a sensação de longa distância com uma experimentação sensorial da paisagem. O VLT chega ao local de duas formas: perpendicularmente aos edifícios e em pontos inseridos dentro do parque. As edificações se relacionam com os espaços abertos a partir de diversas soluções e abrigam programa misto.

“Não se trata de um único gesto ordenador, mas da sensibilidade analítica que cada escala e espaço apresentam. E foi nesse sentido que o projeto se debruçou. É desejo que esse projeto não se cerque de respostas, mas que proponha uma nova possibilidade de debate e projeto de periferia”, concluíram os autores em memorial.

Equipe Ana Carolina Nonato Silva, Ariane Pereira da Silva, Julia Porto Amaral Campos, Larissa de Almeida Monteiro, Lis Fernanda de Lima Thuller Carneiro
Orientadores Cauê Costa Capillé e André Cavendish Wanderley Jacques de Moraes
Instituição Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Parecer do júri
Vencedor por escolha unânime, o projeto foi elogiado pela seleção do local de intervenção e pela clareza da proposta. Ao introduzir condições urbanas visíveis e estabelecer pontos de humanização, poderá provocar transformações nessa periferia ao longo dos anos.

Clique aqui para ver o PDF com o projeto completo

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Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 446
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