URBAN21

Propostas para cidades melhores

Os projetos participantes do 3º URBAN21 foram desenvolvidos por estudantes de arquitetura e urbanismo especialmente para participar do concurso. Poderiam, porém, ser implantados pelas administrações municipais, consideram os jurados, reconhecendo a boa qualidade dos trabalhos apresentados nesta edição. É o caso do vencedor - Reconhecer: Olhar o Urbano Através do Detalhe -, de autoria de uma equipe de alunos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCCRS). Com o projeto, é possível antever, Porto Alegre se tornaria uma cidade melhor

“É impressionante como, em três anos do concurso, as escolas mudaram o ensino do urbanismo. Há três décadas, o MEC discute o currículo e, até agora, com algumas exceções, não entrou nas disciplinas.” Informal, a avaliação da arquiteta e urbanista Elisabete França ocorreu durante a derradeira reunião que definiu os vencedores da mais recente edição do URBAN21. “Todos os meus alunos olham as pranchas do concurso”, acrescentou. O caráter casual não tira o peso da análise, uma vez que, desde a primeira edição, ela participa da comissão julgadora do concurso.

E Elisabete não é apenas teórica - leciona na Fundação Armando Alvares Penteado -, mas uma profissional que vive na pele os desafios e embates de orientar, viabilizar e gerenciar a implantação de projetos urbanos, sobretudo em comunidades carentes. A arquiteta foi Superintendente de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (Sehab) e atualmente é responsável pela Diretoria de Planejamento e Fomento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).

Outros dados que ratificam o comentário da arquiteta podem ser colhidos na evolução dos números da competição que, há três anos, começou a ser realizada pela Revista PROJETO com o patrocínio da Alphaville Urbanismo. No primeiro concurso, a comissão julgadora (posteriormente transformada em júri permanente, ao qual sempre se junta um convidado) avaliou 64 trabalhos. Nesta edição de 2017, 125 equipes entregaram propostas, um crescimento de 95% entre o primeiro e o terceiro certame.

Os números sinalizam ainda que as escolas de arquitetura brasileiras passaram a dar maior destaque ao ensino do urbanismo - na segunda edição do URBAN21, o arquiteto Marcos Boldarini, também membro permanente da comissão julgadora, destacou que as instituições de ensino deveriam entender a cidade como campo efetivo de trabalho e reflexão. A opinião unânime dos jurados é que houve sensível melhora na qualidade dos trabalhos e maior envolvimento de escolas de várias partes do país na competição. Isso é alentador porque o aprofundamento na busca de soluções para os diversos problemas das cidades se faz urgente.

Não fosse por outros fatos, pela perspectiva de que, em 2050, a população urbana mundial irá chegar a 66% do total, percentual que no Brasil atual já foi ultrapassado. Embora, em 2017, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tenha proposto nova metodologia para o cálculo e esse percentual tenha caído, ele continua alto: 76% dos brasileiros vivem em cidades e grandes contingentes moram em favelas e assentamentos precários com acesso restrito a serviços básicos como saneamento e alimentação.

O URBAN21 contribui para levar essa discussão ao ambiente universitário. O concurso tem como objeto o desenvolvimento de estudo preliminar de desenho urbano para municípios com mais de 300 mil habitantes em área entre 10 e 25 hectares, de livre escolha. As intervenções podem ser tanto propostas para novas áreas de desenvolvimento das cidades quanto para regiões consolidadas, mas que tenham carências a serem supridas. Exceção no número de habitantes pode ocorrer se a área do trabalho estiver em uma cidade onde a escola está localizada.

A epígrafe da edição de 2017 da competição foi “Cidade para Todos, Corretas e Vivas. Redefinir o Futuro é Possível”. Há algumas perguntas (e sugestões de respostas) que podem ser inferidas a partir do resultado das competições. O Rio Grande do Sul está mais avançado no ensino do urbanismo? Pela análise dos primeiros lugares, sim. A competição inicial teve como vencedor uma equipe do interior daquele estado: o Centro Universitário Univates, de Lajeado; a mais recente também: a equipe é da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCCRS), de Porto Alegre.

O resultado das duas competições (2015 e 2017) mostra também uma coincidência que é igualmente reveladora do incômodo que determinadas partes da cidade trazem para os seus moradores e, ainda mais, para os futuros arquitetos urbanistas. O projeto vencedor de 2017 - Reconhecer: Olhar o Urbano Através do Detalhe - propõe intervir na área do 4o Distrito em Porto Alegre. Trata-se da mesma região da cidade sobre a qual versou a proposta - Distrito em Cena -, primeiro lugar na competição de 2015.

O 4º Distrito abrange áreas dos bairros Floresta, Navegantes, Humaitá, Farrapos e São Geraldo e abrigou as principais indústrias da cidade - na região, as fábricas conviviam com moradias, escolas e comércio, que serviam aos habitantes da região. Na década de 1970, quando o plano diretor instituiu que aquela área seria exclusivamente industrial, a mudança dos moradores para outros bairros deu início à deterioração - há 30 anos o 4º Distrito espera por uma revitalização/reconversão.

Outro dado interessante que surge na comparação entre as diferentes edições do URBAN21 é que, no concurso de 2016, o segundo lugar ficou com uma equipe da Universidade Federal do Paraná (UFPR), de Curitiba - o trabalho era Ocupar para Proteger. Na competição de 2017, a universidade repetiu a posição com o projeto Ressignificação de Áreas Cristalizadas - ambas as equipes tiveram orientação da professora Mariana Bonadio.

OS PROJETOS
Além de Elisabete França e Marcos Boldarini, são membros da comissão julgadora permanente os arquitetos Adriana Levisky, Carlos Leite e Marcelo Willer. Na atual edição, juntou-se à equipe Fernando de Mello Franco - até o final de 2016, Franco foi o titular da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo -, que, entre outras iniciativas, esteve à frente do grupo que desenhou o Plano Diretor atualmente em vigor na metrópole paulistana.

1º Lugar: Reconhecer. Olhar o Urbano Através do Detalhe

Os jurados elegeram Reconhecer. Olhar o Urbano Através do Detalhe como o melhor trabalho do URBAN21 de 2017. Criação de uma equipe da PUCCRS, a proposta abrange bairros do 4º Distrito e tem como elementos âncoras as antigas instalações da Companhia de Fiação e Tecidos Porto Alegrense e da fábrica de chocolates Neugebauer.

2º Lugar: Ressignificação de Área Cristalizada
Ressignificação de Área Cristalizada, de alunos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), obteve o segundo lugar. A proposta se lança na tentativa de dar alguma visibilidade às imediações do cruzamento da Linha Verde (antiga BR 116) com a avenida Marechal Floriano Peixoto, via que liga São José dos Pinhais a Curitiba.

Menções honrosas
A menção honrosa para o trabalho Perspectivas para o Desenvolvimento Urbano em Florianópolis deveu-se, em parte, à “descoberta” de um dos últimos vazios urbanos de Florianópolis, na parte continental daquela cidade. Os alunos são da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Estudam na Universidade Federal do Piauí os integrantes do time autor de Rio a Rio - também menção honrosa -, proposta que estabelece conexão entre os rios Parnaíba e Poti pelo eixo da avenida Frei Serafim, em Teresina. A intervenção pretende também resgatar a memória e identidade do centro daquela capital.

A terceira menção coube aos alunos do Centro Universitário de João Pessoa com o trabalho Reconciliando o Rio com a Cidade. Varadouro, região onde a capital de Paraíba foi fundada, é o pano de fundo para a intervenção que se concentra na comunidade Porto do Capim.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 440
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora