Terra e Tuma Arquitetos Associados + COA: Habitação popular, Suzano, SP

Arquitetura para a convivência

O empreendimento popular proposto para um terreno de 119 mil metros quadrados em Suzano, Região Metropolitana de São Paulo, compreende cinco etapas de setores de moradias, um edifício institucional, além de uma grande extensão de área verde. O projeto de arquitetura é assinado pelos escritórios paulistanos Terra e Tuma Arquitetos Associados e COA

Embora sejam exceções à regra, há no país bons exemplos de projetos de habitação social com alta qualidade arquitetônica. Ainda mais incomum, no entanto, é que esses empreendimentos surjam a partir de iniciativas não governamentais, como é o caso do conjunto habitacional em Suzano - município de São Paulo, cuja população estimada em 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de cerca de 300 mil habitantes.

A implantação proposta para um lote de 119 mil metros quadrados, situado no bairro Jardim São José, foi pensada para receber mais de mil famílias de baixa renda, representadas por cooperativas habitacionais locais. Inicialmente, essa não era a ocupação destinada à área, que receberia um condomínio fechado de alto padrão. O dono do terreno, porém, iniciou as obras sem as licenças ambientais necessárias, ocasionando um crime ambiental grave.

Atenta ao longo processo que gerou o embargo da construção e diversas multas, a Habcasa - empresa de assessoria em projetos habitacionais - iniciou em 2012 uma negociação com o proprietário e apresentou ao Ministério Público uma proposta de reparo social e ambiental, desenvolvida em parceria com uma equipe de arquitetura e engenharia, que prevê a implantação de unidades de habitação popular, um edifício institucional, além de um viveiro da mata atlântica de usufruto público e a despoluição de uma nascente, de um córrego e de dois lagos, que contaminam plantações de áreas vizinhas, entre outras ações.

Assim, buscou-se preservar o local que estava abandonado e em iminência de ser ocupado por famílias da região sem infraestrutura adequada, o que intensificaria a sua degradação. Para se ter ideia, em Suzano há mais de 9 mil ocupações irregulares em áreas públicas e particulares e cerca de 18 mil famílias estão à espera de moradia apropriada.

Desde então, desenrola-se um amplo processo de gestão com a participação de diversos atores sociais para viabilizar tais compensações, unindo interesses e condicionantes do movimento de moradia, do meio ambiente, construtores, empreendedores, financiadores e poderes municipal, estadual e federal.

Os escritórios Terra e Tuma e COA foram convidados em 2015 pela empresa de assessoria para desenvolver o projeto arquitetônico do conjunto habitacional, que tem como partido “fazer cidade” e não apenas unidades residenciais, integrando seu desenho à malha preexistente.

“É uma história meio única. Não só pelo processo, por a empresa conseguir aprovar uma habitação social no local, mas também por ela ter essa coragem de querer fazer um projeto que ajude a construir a cidade, e não apenas engavetar gente”, comentam os arquitetos.

Estão previstas cinco etapas de setores de moradias e um equipamento público (creche-escola) no entorno de um parque ecológico de 23 mil metros quadrados, que tiram partido da topografia natural e das modificações anteriormente realizadas no terreno.

A disposição das edificações - nas tipologias torre e lâmina - origina generosas áreas de convivência, qualificando a espacialidade do residencial. Outra preocupação foi criar modelos de habitação que atendessem diferentes conformações de famílias.

Segundo os arquitetos, a implantação em fases é uma estratégia que permite autossuficiência às seções, que poderão ser integradas entre si e à cidade gradativamente, atende às questões orçamentária e mercadológica, e possibilita adequações nos canteiros de obras, a partir das experiências prévias.

O conjunto habitacional estará inserido na faixa 2 (renda de até R$ 4.000) do programa federal Minha Casa, Minha Vida. A princípio, seria destinado à faixa 1 (renda de até R$ 1.800), mas a ausência, desde 2015, de contratações nessa faixa levou à readequação do projeto – embora mantendo a premissa de viabilizar uma habitação com custo o mais econômico possível, sem abrir mão da qualidade arquitetônica.

Agora, tanto antigas famílias cadastradas no empreendimento quanto novas serão representadas pela Cooperativa Habitacional do Alto Tietê (Coohabite). O projeto de arquitetura também passa por atualização para estar em consonância com o novo zoneamento da região, alterado de Z3 para Z6, e que, inclusive, receberá impactos de futuras obras rodoferroviárias.

Terra e Tuma Arquitetos Associados + COA Arquitetos

   
Terra e Tuma Arquitetos Associados Os arquitetos Danilo Terra (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie - FAU/ Mackenzie, 2003), Fernanda Lie Sakano (Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - IAU, 2010), Juliana Terra (FAU/Mackenzie, 2003) e Pedro Tuma (FAU/ Mackenzie, 2004), são sócios no escritório Terra e Tuma Arquitetos Associados.

  
O escritório COA foi fundado em 2008 e é constituído pelos arquitetos Cassio Oba, Gabriel Cesar e Eugenio Conte, todos formados pela FAU/Mackenzie, respectivamente em 2007, 2008 e 2009.



Ficha Técnica

Habitação social Local Suzano, SP
Início do projeto
2015
Área do terreno 119.000 m²
Área construída 61.935,16 m2 (residenciais)

Arquitetura Terra e Tuma Arquitetura Associados - Danilo Terra, Fernanda Sakano, Juliana Terra e Pedro Tuma; COA Arquitetos - Cassio Oba, Eugenio Conte e Gabriel Cesar

Texto de Camila Gonzalez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 447
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