Sandra Moura: Restaurante Nau, Brasília

Nau de concreto e aço junto ao lago

Ao aportar na capital brasileira no final do ano passado, o Nau lançou suas âncoras na margem do lago Paranoá. A filial brasiliense do restaurante fundado em João Pessoa foi projetada pela arquiteta Sandra Moura, que cobriu as faces externas da “embarcação” com chapas recortadas de aço corten, combinando-as com o concreto aparente, especificado por ser referência na arquitetura institucional da cidade.

Fundado em 2010 em João Pessoa, o Nau lançou‑se em uma expedição rumo à capital brasileira. O desfecho da história se deu no segundo semestre do ano passado, quando a unidade brasiliense abriu as portas, juntando-se ao Mangai, uma espécie de irmão mais velho. E juntar-se aqui não tem sentido metafórico, pois os restaurantes ocupam lotes contíguos. Ambos são de propriedade da mesma família cuja experiência com gastronomia teve início no final dos anos 1980 na capital paraibana. Em Brasília, o Mangai funciona desde 2008 e suas instalações foram desenhadas pela arquiteta Sandra Moura (leia PROJETOdesign 355, setembro de 2009), que também assina o projeto do Nau. A estrutura marcante do primeiro foi a razão pela qual ela decidiu ligar conceitualmente os dois prédios, intenção reforçada pelo fato de eles estarem separados por menos de dez metros.

Para externar esse vínculo, a autora expandiu na nova edificação o uso das chapas de aço corten, às quais já recorrera para revestir elementos do Mangai. Mas desta vez envelopou quase a totalidade das fachadas com o material, recortando os painéis com desenho que remete à forma da folha da palma, planta comum na paisagem do sertão brasileiro. Ao elemento recolhido na flora do estado de origem dos restaurantes, ela acrescentou os planos verticais e horizontais de concreto aparente, que formam a segunda pele. “Criamos um diálogo entre a estrutura de aço corten e o concreto, balanceando com diferentes materiais”, explica a arquiteta.

Ainda que implantado junto ao Paranoá (ambos os restaurantes ficam no Setor de Clubes Esportivos Sul, próximos da ponte JK), o Nau não está imune ao clima seco de Brasília. Por isso Sandra decidiu colocar parte da edificação solta e envolvida por um lago, sobre o qual se estende uma passarela feita com piso de madeira e perfis laterais de ferro galvanizado, ligando os dois restaurantes. “Ela convida o cliente do Nau a visitar o Mangai e vice-versa”, observa a autora.

Os mais de 7 mil metros quadrados de área construída do edifício estão distribuídos por três pavimentos, numa planta de conformação retangular. No subsolo estão o estacionamento de veículos e instalações técnicas de infraestrutura; no térreo, além do salão principal, ficam a cozinha e os ambientes de apoio; o mezanino abriga a espaçosa área para eventos. Por se tratar de um restaurante de frutos do mar, o arranjo espacial tem base nessas referências. Na adega, por exemplo, ocupam o espaço duas grandes mesas na forma de jangadas com tampos envidraçados; acima delas, dois barcos pendem do teto, como se o vidro refletisse abaixo o que há acima e vice-versa.

Sandra informa ainda que foi realizado um estudo da acústica do lugar, utilizando lâminas de madeira junto das janelas, que têm a forma de escotilhas de um barco. “Transformamos a ida ao restaurante numa verdadeira viagem náutica”, ela completa. Outra referência ao mar são as ranhuras nas paredes presentes também na unidade paraibana e que procuram emular as escamas de peixes. “Com esse conceito, o Nau aporta em Brasília com a intenção de levar à capital brasileira um pouco da culinária, da cultura e das referências da vida no litoral nordestino”, conclui Sandra.

LUZ INVOCA O MAR
Encampando a proposta gastronômica do Nau, o oceano e suas embarcações foram o mote do projeto luminotécnico desenvolvido por Peter Gasper em conjunto com a empresa Alémdaluz, que colaborou com o lighting designer em intervenções na capital federal. “Foi o último projeto comercial de nossa parceria antes de ele partir para encontrar com [Oscar] Niemeyer”, descontrai Luiz Alberto Leite, da Alémdaluz. Na fachada do Nau, foram empregados projetores de iluminação vapor metálico nas cores verde, azul e branca, que criam manchas de luz aleatórias na superfície de aço corten. “Com isso, conseguimos o efeito da luz que atravessa a renda da fachada e ilumina o forro de gesso do salão”, explica Leite. O conceito foi replicado no desenho dos sistemas de iluminação do interior do restaurante. Ali foram utilizadas cordoalhas de cobre atirantadas em base rústica de aço, “como nos navios”, observa Leite. Na cordoalha foram penduradas lâmpadas AR111 de led de 3 mil kelvins para valorizar as mesas, em conjunto com sancas de fita de led também em 3 mil kelvins como luz ambiente. Onde não foi possível atirantar as cordoalhas, uma espécie de espeto sustenta as AR111 no gesso.

Luminárias T5 com difusor de acrílico leitoso, em forro modular e com temperatura de cor de 4 mil kelvins e IRC de 85% (que dão iluminância média de 500 lux no plano de trabalho), foram instaladas na cozinha. Nos banheiros, fitas de led azul em sancas invertidas, bancadas e rodapés criam a sensação de oceano, complementadas “com spots embutidos com luz de 3 mil kelvins direcionados para painéis fotográficos, cubas e sanitários fechados”, acrescenta Leite. Na adega, uma fita de led especial com alto fluxo luminoso dos dois lados destaca as prateleiras dos vinhos. “Nas áreas externas trabalhamos com a valorização das plantas através de projetores embutidos de solo com lâmpadas de led PAR38 e PAR16, conforme o porte da vegetação”, ele detalha. Algumas propostas ainda aguardam implementação, como a iluminação do espelho d'água e da passarela de acesso ao restaurante e da garagem.


Sandra Moura

Formada pela Universidade Federal da Paraíba em 1987, Sandra Moura possui especialização em estrutura metálica e lighting design. É titular do escritório Sandra Moura Arquitetura, que constituiu em 1987



Ficha Técnica

Restaurante Nau
Local Brasília, DF
Data do início do projeto 2012
Data da conclusão da obra 2013
Área do terreno 17.200 m2
Área construída 7.300 m2
Arquitetura e interiores Sandra Moura (autora); Monalisa Felinto e Bárbara Veiga (equipe)
Paisagismo Alex Hanazaki
Luminotécnica Peter Gasper
Acústica Síntese
Estrutura Thomaz de Aragão Neto
Fundações Embre
Elétrica e hidráulica Projet - Vanderlei Barbosa Freiras
Ar condicionado George Raulino Sistemas Térmicos
Construção F5
Fotos Joana França

Fornecedores

Fornecedores Gradebras (cobertura, estrutura e fachada)
Concrecon (concreto e pavimentação)
Indústria Tecnox, Engefood, São Rafael (cozinhas)
Knauf (divisórias e forros)
Otis (elevadores)
Central (esquadrias e vidros)
Sulamericana (fundações)
Pingo Zero (impermeabilização)
Vibrasom, Trisoft (isolamento termoacústico)
Philips, Osram (lâmpadas e luminárias)
Sacaro, Sierra (mobiliário)
RM (pedras, mármores e granitos)
Portobello (pisos e revestimentos)
Fecimal (portas)
Coral (tintas)
Johnson Controls (ventilação e ar-condicionado)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 416
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