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Ruy Ohtake: Centro educativo-cultural e condomínio residencial, São Paulo

Em Heliópolis, caminho leva aos redondinhos

Um polo constituído por prédios didáticos e centro cultural e um condomínio de edifícios cilíndricos (conhecidos como redondinhos) para população de baixa renda são as mais recentes intervenções de Ruy Ohtake em Heliópolis, comunidade carente na zona sudeste da capital paulista. Soma de proposta urbanístico?arquitetônica com a estética peculiar do autor, os trabalhos empurram a comunidade na direção de torná?la, de fato, um bairro integrado à cidade.

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O condomínio 2 do Residencial Heliópolis 1 é composto por nove edifícios de forma cilíndrica nos quais a cor é elemento da arquitetura
O condomínio 2 do Residencial Heliópolis 1 é composto por nove edifícios de forma cilíndrica nos quais a cor é elemento da arquitetura
Em Heliópolis, caminho leva aos redondinhos
Um polo constituído por prédios didáticos e centro cultural e um condomínio de edifícios cilíndricos (conhecidos como redondinhos) para população de baixa renda são as mais recentes intervenções de Ruy Ohtake em Heliópolis, comunidade carente na zona sudeste da capital paulista. Soma de proposta urbanístico‑arquitetônica com a estética peculiar do autor, os trabalhos empurram a comunidade na direção de torná‑la, de fato, um bairro integrado à cidade.

A piscina vai ser redonda ou quadrada? Mal acabara de conhecer o arquiteto Ruy Ohtake, a adolescente disparou a pergunta. “O que você prefere?”, ele devolveu. “Quadrada”, retrucou a garota. “Porque é maior.” Na clara manhã de uma segunda-feira do final de novembro, o arquiteto estava mais uma vez em Heliópolis, que já foi a maior favela de São Paulo e que, graças a intervenções do poder público nas quais Ohtake é também personagem, caminha para se integrar à cidade formal.

Embora não tão distante do escritório (e da moradia) de Ohtake, na região dos Jardins, Heliópolis escancara as contradições da cidade: opulência e miséria, solidariedade e indiferença.

Existe um caminho em que essas oposições se aproximam e, com a habilidade de seu ofício, Ohtake se propôs a trilhá-lo, ainda que o trajeto, assim como a conformação do aglomerado urbano, nem sempre seja claro e muitas vezes desemboque em desvios e becos.

No térreo em meio piloti existem apenas dois apartamentos, para pessoas com dificuldade de mobilidade
No térreo em meio piloti existem apenas dois apartamentos, para pessoas com dificuldade de mobilidade
Batizados de redondinhos, os edifícios do condomínio não têm apartamentos de frente e de fundo
Batizados de redondinhos, os edifícios do condomínio não têm apartamentos de frente e de fundo
Edifícios cilíndricos são inovação na paisagem de Heliópolis. Comunidade caminha para integrar-se à cidade como bairro formal
Edifícios cilíndricos são inovação na paisagem de Heliópolis. Comunidade caminha para integrar-se à cidade como bairro formal

A conversa da adolescente com o arquiteto não foi numa sala de aulas, mas ao ar livre, na alameda do polo cultural e educativo de Heliópolis, que, além da piscina, vai ganhar quadra esportiva, biblioteca comunitária e a torre da Cidadania.

Ela começou depois que a gestora do braço cultural do complexo, Arlete Persoli, identificou Ohtake e apresentou-o às estudantes, informando que ele era o autor da escola técnica e do centro cultural que fazem parte do conjunto.

Ohtake definiu também as áreas onde deveriam ser implantadas as creches e deu ao local antes ocupado por depósito da subprefeitura a configuração de um parque urbano que, para o arquiteto, não encontra similar na cidade e, de certa forma, concretiza a retórica do trabalho que vem fazendo junto à comunidade.

A implantação do complexo é um desdobramento da imersão do profissional nas questões urbanísticas, arquitetônicas e culturais - e até mesmo políticas - de Heliópolis, a qual começou de forma quase involuntária.

Em 2003, entrevistado por uma revista, Ohtake ouviu do repórter o pedido para que mencionasse o que considerava mais feio na cidade. Ele respondeu que era o contraste entre as áreas ricas e pobres.

“Pediram que fosse mais específico e então citei como exemplo Morumbi e Heliópolis”, recorda o arquiteto. A publicação registrou: para o arquiteto, Heliópolis era o que de mais feio existia em São Paulo.

Passados alguns dias, João Miranda, então presidente da União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco (Unas), ligou para Ohtake e perguntou como o arquiteto poderia colaborar para mudar essa situação. Marcaram, para começar, uma reunião in loco, na qual Ohtake foi guiado por Miranda em um passeio pelas vielas da comunidade.

Nessa incursão, um ato de solidariedade surpreendeu o arquiteto. Uma moradora disse ao líder da entidade que não pudera ir trabalhar porque não tinha onde deixar o filho.

Em minutos, Miranda conseguiu uma pessoa para cuidar da criança. Essa teia de cooperação, opina o arquiteto, não se repete noutras faixas da população. “Mal conheço meu vizinho de apartamento”, revela.

No residencial, a sala é o ambiente que se estende pela maior parte da curva
No residencial, a sala é o ambiente que se estende pela maior parte da curva
Área interna de uma das unidades. Antes da ocupação, um apartamento foi montado com móveis adquiridos em loja de comércio popular
Área interna de uma das unidades. Antes da ocupação, um apartamento foi montado com móveis adquiridos em loja de comércio popular
Área interna de uma das unidades. Antes da ocupação, um apartamento foi montado com móveis adquiridos em loja de comércio popular
Vista do polo educativo-cultural: à esquerda, a torre da caixa-d’água do centro cultural; ao fundo, o edifício da escola técnica

O passeio foi o primeiro passo da intervenção à qual Ohtake daria o nome de Identidade Cultural de Heliópolis, cujo resultado mais perceptível foi a pintura das fachadas de centenas de casas com cores escolhidas pelos moradores e, depois, compiladas num projeto cromático do escritório.

A partir daí, o relacionamento de Ohtake com Heliópolis foi se estreitando, com visitas à comunidade cada vez mais frequentes e a criação de vínculos afetivos com os moradores, fortalecido sobretudo com aqueles que militam na Unas.

Uma biblioteca comunitária na rua da Mina deu sequência aos projetos do arquiteto no local. Para ele, é o embrião do polo cultural que está sendo erguido no terreno próximo do largo São João Clímaco, ocupado por um galpão da subprefeitura.

Tempos depois, já com a administração municipal sob outro comando, a Secretaria da Educação consultou a Unas sobre o local onde deveriam ser construídas creches para atender uma das demandas da comunidade. Os integrantes da associação não titubearam: era preciso falar com o Ruy, decidiram.

Os equipamentos foram implantados no mesmo lote do polo cultural por indicação do arquiteto, que considera fundamental essa proximidade, para permitir melhor interação com os usuários.

Posteriormente, a comunidade de Heliópolis - que é extremamente atuante e politizada - mobilizou-se pela construção de uma escola técnica estadual (Etec).

O edifício, que assim como o centro cultural foi desenhado por Ohtake, é uma espécie de praça coberta dentro do parque, compartilhando o terreno com as três creches e duas escolas existentes (estas ocupavam um local contíguo, mas com a retirada dos muros o lote foi remembrado e elas incorporadas ao parque).

O polo educativo-cultural é cercado por gradis, mas, por decisão do arquiteto, os prédios que o integram são abertos e se comunicam sem barreiras, transita-se livremente por seus pavimentos térreos - no caso da escola técnica, por exemplo, o refeitório abre-se para o parque. Arquitetura e urbanismo podem (e devem) contribuir para uma cidade mais igualitária, pondera Ohtake.

No centro cultural, a proposta inicial de aproveitar a estrutura existente foi abandonada quando se constatou que o custo da reforma seria praticamente igual ao de uma nova construção.

Ocupando praticamente a mesma área da anterior, a edificação traz, nos detalhes do desenho, a marca da arquitetura de Ohtake, sobretudo nos dois volumes dispostos na praça de eventos que antecede o principal bloco construído - uma construção triangular (destinado a uma galeria de arte) que dialoga com a caixa-d’água circular (a parte de baixo, atualmente espaço de exposições, será um teatro infantil).

Completa o centro cultural um pequeno teatro ao ar livre, cujo palco está colado ao edifício da caixa-d’água/sala de exposições. Visíveis a distância na topografia quase plana de Heliópolis, os dois volumes coloridos (um roxo, outro azul) se destacam na impessoalidade cinza/marrom que prevalece nas imediações.

Formas inesperadas, às vezes escultóricas (Ohtake sempre afirmou que a estética é fundamental na sua arquitetura), aparecem no desenho da escola técnica, que, grosso modo, é um pavilhão com extremidades distintas: uma parte é ortogonal; a outra curvilínea.

A construção recebeu pintura externa em cores vibrantes, outro traço característico da obra do arquiteto. As aberturas nas laterais são protegidas por telas metálicas perfuradas que permitem a passagem da luz e atenuam a entrada de calor, além de se tornarem elementos de composição plástica.

Na organização interna, o térreo permeável abriga os setores de caráter mais público, como auditório, biblioteca e refeitório. Nos dois pavimentos superiores estão distribuídas as salas de aulas.

A circulação se dá pelo centro do prédio, mas a sinuosidade desses espaços (que não se sobrepõem) os torna mais amigáveis, como pequenas áreas de convívio, e amplia o aproveitamento da luz natural que adentra pela porção transparente da cobertura, de modo que, durante o dia, as luzes não precisam ficar acesas.

Se a pintura das casas e a biblioteca foram a cabeça de ponte (pacífica) de Ohtake na comunidade, o polo cultural consolidou a presença de sua arquitetura em Heliópolis.

As reuniões com os moradores de Heliópolis tornaram-se rotina para Ruy Ohtake
As reuniões com os moradores de Heliópolis tornaram-se rotina para Ruy Ohtake
Pintura das fachadas das casas foi o primeiro trabalho do arquiteto na comunidade
Pintura das fachadas das casas foi o primeiro trabalho do arquiteto na comunidade
Exterior e interior da biblioteca comunitária na rua da Mina
Exterior e interior da biblioteca comunitária na rua da Mina
Exterior e interior da biblioteca comunitária na rua da Mina
Os volumes circular e triangular que antecedem o bloco do centro cultural são referências visuais
Os volumes circular e triangular que antecedem o bloco do centro cultural são referências visuais
Vista do polo educativo-cultural: à esquerda, a torre da caixa-d’água do centro cultural; ao fundo, o edifício da escola técnica
Vista do polo educativo-cultural: à esquerda, a torre da caixa-d’água do centro cultural; ao fundo, o edifício da escola técnica

Mais recentemente, ela se expandiu para a habitação social: no início de novembro passado, foram inaugurados os primeiros 162 apartamentos que ele projetou para o bairro.

A distinção do autor pela obra começa pelo nome, para enfatizar que não se trata de um conjunto habitacional, mas de um condomínio residencial: o de número 2 do Residencial Heliópolis 1 (construído antes do condomínio 1).

Implantado em um terreno que fazia parte das instalações da Sabesp, a companhia de água e esgotos do estado de São Paulo, o condomínio chama a atenção pela forma cilíndrica dos edifícios, apelidados pela mídia e pelos moradores de redondinhos - os redondinhos do Ruy, para ser mais exato.

A nova biblioteca será um dos equipamentos que farão parte do polo educativo-cultural
A nova biblioteca será um dos equipamentos que farão parte do polo educativo-cultural
O prédio da Etec foi tratado como uma praça coberta. As aberturas laterais têm telas perfuradas que amenizam a entrada de calor mas deixam passar a luz natural
O prédio da Etec foi tratado como uma praça coberta. As aberturas laterais têm telas perfuradas que amenizam a entrada de calor mas deixam passar a luz natural

São nove edifícios de quatro pisos mais o térreo, totalizando 18 apartamentos por prédio - quatro unidades por andar nos pavimentos superiores e duas no térreo, destinadas a pessoas com dificuldades de locomoção.

Com área de 50 metros quadrados, as unidades possuem dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área de serviço, e são providas de gás encanado e aquecimento de água.

Ocupando o térreo com apenas dois apartamentos, o projeto criou uma espécie de meio piloti que acrescenta à composição uma graciosidade que o cromatismo das fachadas torna ainda mais interessante, com as cores alternando-se tanto nas fachadas como nos pilares estruturais visíveis.

A forma cilíndrica dos edifícios não é gratuita, assegura Ohtake. Além de esquivar- se da hierarquia em geral existente entre unidades de frente e de fundo, a implantação (com os blocos distanciados) não privilegia a vista de uns em detrimento da de outros. Os prédios estão posicionados na periferia do lote; no centro ficam playground, quadra esportiva e um espaço de uso comunitário.

Numa palestra feita recentemente para um público sobretudo de estudantes, Ohtake falou sobre o projeto do condomínio.

Contam alguns dos participantes que, ao final, na hora das perguntas, alguém questionou o arquiteto: se a solução era tão interessante, por que não espalhá-la pela cidade?

Estava presente, na mesa de trabalhos do evento, a superintendente de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), Elisabete França. Hábil, Ohtake ponderou que a pergunta poderia ser melhor respondida pela arquiteta.


Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 383 Janeiro de 2012

Ruy Ohtake Formado pela FAU/USP em 1960, Ruy Ohtake é autor de mais de 300 obras - algumas delas construídas fora do Brasil - e, embora rejeite o título, parece ter se tornado o arquiteto oficial de Heliópolis. Além de novos condomínios para a comunidade, é autor do futuro Heliópolis Olímpico
Extremidade curva do edifício da escola técnica. Cores vibrantes fazem parte do repertório de Ohtake
Extremidade curva do edifício da escola técnica. Cores vibrantes fazem parte do repertório de Ohtake
Os espaços de circulação da escola técnica são sinuosos, irregulares e não se sobrepõem
Os espaços de circulação da escola técnica são sinuosos, irregulares e não se sobrepõem
A luz entra pela cobertura translúcida
A luz entra pela cobertura translúcida
 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 383

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