PERFIL

Ruy Ohtake

Apenas anunciado o objetivo da conversa - resgatar momentos da sua trajetória profissional -, de imediato Ruy Ohtake começou a narrar a história da sua carreira como sendo um movimento iniciado com a busca pela superação dos preceitos da arquitetura moderna brasileira. Dando um passo atrás no tempo, falou sobre a produção paulista do século 19, dominada pela “monocromática”, no seu entendimento, influência da arquitetura francesa, pulando em seguida para a citação de obras paulistas da época da sua formação e primeiros trabalhos profissionais. Como o Parque Ibirapuera (1954), ao qual confessa ter grande apreço, o edifício Copan (1966) e a sede do MASP - Museu de Arte de São Paulo (1968) na avenida Paulista. Os dois primeiros concebidos por Oscar Niemeyer e o terceiro por Lina Bo Bardi, ou seja, um arquiteto carioca e uma arquiteta italiana. “Não faz sentido falar em legado paulista, é muito mais abrangente do que isso”, opinou. Quando faz o retrospecto, assim, da sua carreira, é como se Ruy Ohtake traçasse um movimento de curva ascendente em direção à conquista da liberdade criativa.


Curva do tempo

O depoimento de Ohtake prosseguiu como era de se esperar - antes mesmo que fosse feita a ele qualquer pergunta - com a menção a Oscar Niemeyer e ao grande impacto que exerceram no seu imaginário de arquiteto a inauguração da capital federal em 1960, ano da sua graduação, e obras precedentes do carioca, com quem acabou tecendo uma relação de amizade e em duas oportunidades de colaboração profissional.

“A forma denuncia o uso” foi como sintetizou a razão de admirar tanto a obra do mestre. Pontuando, por fim, Le Corbusier e feitos da arquitetura moderna no início do século 20, Ohtake disse: “Esta é a minha trajetória ao longo da arquitetura. Atravessei isso tudo procurando avançar com a arquitetura contemporânea brasileira, sem repetir os cânones paulistas dos anos 50 e 60”.

O automatismo do depoimento tem - ao menos uma - razão de ser. Estão frescas na sua memória as passagens da carreira até aqui - e o acúmulo de livros e de impressos de projetos na sala de reunião do seu escritório, em dezembro passado, são indícios disso - porque neste primeiro semestre de 2019 haverá uma sucessão de eventos relacionados à obra do arquiteto.

Por causa deles - e também da série de palestras que costuma proferir -, Ohtake vem rememorando eventos e obras marcantes da sua trajetória. Duas mostras iniciadas no final de fevereiro tratam da sua arquitetura - Ruy Ohtake: A Produção do Espaço (curadoria de Agnaldo Farias e realizada em associação com o Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba), em cartaz no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, até 19 de maio, e a de design, Ruy Ohtake: O Desenho da Forma (curadoria de Fabio Magalhães, Marili Brandão e Priscyla Gomes), aberta no Instituto Tomie Ohtake (SP), até 14 de abril; o mesmo ocorrendo com dois livros prestes a serem lançados.

Publicado pela editora Romano Guerra (pesquisa e organização de Abílio Guerra e Silvana Romano e textos de Ruth Verde Zein, Fabio Magalhães e José Tabacow), a obra Ruy Ohtake, traz análises de projetos através de três recortes conceituais: Morar na Praça, Arquitetura da Cor e Arquitetura do Território.

Já pela editora Olhares, em coedição com o Instituto Tomie Ohtake, o livro Ruy Ohtake, o design da forma reúne textos do trio de curadores da mostra de design: Fabio Magalhães (sobre a relação entre design e arquitetura), Marili Brandão (cronologia) e Priscyla Gomes (sobre a experimentação de materiais).

Mas o sentido de contramão presente no depoimento de Ohtake sobre a ruptura com a arquitetura moderna brasileira empreendida nas duas décadas iniciais da sua carreira não é um fato isolado.

Maria Alice Junqueira Bastos e Ruth Verde Zein apontam no livro Brasil: arquiteturas após 1950 (Editora Perspectiva, São Paulo, 2010), a existência, em São Paulo, de exemplos - acentuados nos anos 1980 - da diversificação da arquitetura brasileira a partir de 1955, inicialmente pela “primeira geração de arquitetos, que vai conformar o brutalismo na sua versão paulista. (…). Pode-se incluir nessa geração os arquitetos Paulo Mendes da Rocha, João Eduardo De Gennaro, Pedro Paulo de Melo Saraiva, Carlos Millan, Fábio Penteado, Ruy Ohtake e João Walter Toscano, entre outros”.

Complementarmente, no que diz respeito à relação da obra com o contexto, ou seja, a visão de cidade que Ohtake salienta haver na sua arquitetura, Julio Katinsky - seu colega na FAU e colaborador em alguns projetos - defende, no livro Ruy Ohtake, arquitetura e cidade (organização de Ricardo Ohtake, Cristina Fino, Rodrigo Ohtake, publicação do Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, 2009), tratar-se de um raciocínio presente já na época de formação do arquiteto.

“A inserção de um edifício no âmbito de seu entorno foi defendida pela FAUUSP - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - desde sua fundação, em 1948: a arquitetura implica a Cidade de Todos.

Nas décadas de 1950 e 1960, anos em que Ruy Ohtake frequentou essa escola, a continuada defesa dessa postura ultrapassou o âmbito do exercício profissional e passou a se comprometer com a hora presente: optar pelas soluções arquiteturais dos arquitetos Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso E. Reidy e Vilanova Artigas, entre outros, também abraça um ideário de compromisso social igualitário e libertador, ferozmente combatido por grupos desejosos de conservar privilégios injustos e restritivos.”

“Estou cada vez mais convicto de que a arquitetura deve servir para todos”, declarou Ohtake em um dos nossos encontros, citando por exemplo o caso dos “redondinhos”, ou seja, o conjunto habitacional de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Ele defende que a forma redonda dos edifícios favorece a insolação dos apartamentos e destaca ainda o fato de o térreo tratar-se de um parque.

Na análise de Katinsky, foi o Hotel Unique o primeiro a explicitar essa qualidade urbana dos projetos de Ohtake, por causa da abertura empreendida, através da praça do térreo, de “um claro no ‘paredão’ da avenida Brigadeiro Luis Antônio (…)”. Um pouco adiante no mesmo texto, Katinsky continua: “Essa visão da cidade complementa-se com o Parque Ecológico do Tietê e seu corolário, o Parque de Indaiatuba - primeiro parque construído sobre área morta do rio -, idealizado para favorecer uma vasta zona da cidade carente de serviços.

Na esteira desse pensamento, pode-se considerar também toda a intervenção na favela de Heliópolis, que não representa tão somente uma ‘maquilagem’ demagógica, como poderia parecer, pois, além de alertar para a autoestima dos moradores, completa-se com a biblioteca local e os outros equipamentos organizados com a mesma disposição que orienta muitas obras do arquiteto.”

Cronologia

Habitual na produção de jovens arquitetos, os primeiros trabalhos de Ohtake foram reformas e pequenas intervenções - “a ampliação da garagem de um tio e a reforma da casa de um amigo do pai”, ele relembra - evoluindo para o projeto de casas unifamiliares, como a Residência Rosa Okubo (1964-1965), São Paulo, 200 m2 de área construída), Residência Chiyo Hama (1967-1968, 280 m2 de área construída) e a Residência/ Ateliê Tomie Ohtake, também na capital paulista, projetada em fases consecutivas, de 1968 a 1995.

Chama atenção o rápido ciclo de projeto e construção desses projetos, bem como o imediato reconhecimento que tiveram no meio profissional, tendo a Residência Rosa Okubo recebido prêmio na Exposição Internacional de Arquitetura da 8ª Bienal de São Paulo (1965); a Chiyo Hama, prêmio na Mostra Internacional de Arquitetura da 10ª Bienal de São Paulo (1969), e o ateliê de Tomie Ohtake ter rendido ao arquiteto, juntamente com os projetos das residências José Roberto Filipeli, Julio Menoncello e Nadir Zacharias, o prêmio Carlos Millan - Melhor Conjunto de Projetos, do Instituto de Arquitetos do Brasil, em 1971.

Sobre esses projetos, e aqueles que se seguiram nos anos 1970, Júlio Katinsky confirma a hipótese da influência maior na formação de Ruy Ohtake ter sido a dupla Artigas e Niemeyer, notadamente no que diz respeito à espacialidade generosa e inclusiva das áreas de convívio dos projetos.

E aponta o âmbito das artes como motivação de primeira ordem para a criatividade do arquiteto em formação, nos anos 1950, dentro de casa e fora dela. Aqui, claramente se fala do convívio com a mãe, a artista plástica Tomie Ohtake, que, emigrada do Japão em 1936, em 1957 ganhava mostra sobre o seu trabalho no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Das memórias da infância e juventude junto a Tomie, Ohtake cita as manchas de tintas no seu ateliê e a periódica organização do ambiente quando se começava a terminar um quadro, de modo a abrir espaço para vê-lo em toda a sua abrangência. “O quadro é a referência para o artista”, recorda-se o arquiteto ouvir falar a mãe.

Ele se recorda igualmente da frequência das casas da Mooca e Campo Belo - projeto de Ruy Ohtake -, escutando à distância as conversas entre artistas, críticos de arte etc. Para Katinsky, a esse respeito, “as bienais [de arte], desde a primeira, em 1951, também foram um foro privilegiado de nossa formação, especialmente a de 1953. Esse clima exaltado foi compartilhado pelo então aluno Ruy”.

Rapidamente, então, veio o salto de escala dos trabalhos, com Ohtake ingressando no universo de projetos institucionais - como os das Centrais Telefônicas de Campos de Jordão (1963-1974) e de Ibiúna (1974-1975), ambas em São Paulo; os das agências bancárias do extinto Banespa, primeiro no bairro Butantã, em São Paulo, inaugurada em 1978, e depois em Goiânia, aberta no ano seguinte; assim como a sede da Cetesb em São Paulo, inaugurada em 1978 - e também no mercado imobiliário.

Entre 1972 e 1975, ele concebeu edifícios residenciais e de escritórios em São Paulo para a Companhia City de Desenvolvimento. Desse período, não poderíamos deixar de mencionar também o projeto do Laboratório Aché, em Guarulhos (SP), cuja primeira fase foi inaugurada em 1971. O passo seguinte foi em direção à seara dos projetos públicos.

Em 1977, Ruy Ohtake começou a idealizar - acompanhado por equipe multidisciplinar que incluía, entre tantos outros, o irmão Ricardo Ohtake, no setor de urbanismo; Aziz Nacib Ab’Saber, em ecologia e geomorfologia; Aracy Amaral, Fernando Novaes e Ruth Escobar na programação cultural - o Parque Ecológico do Tietê, inscrito em conjunto de ações estatais a favor do combate contra inundações na Região Metropolitana da Grande São Paulo.

O parque de lazer e recreação - associado à área de preservação ambiental - foi parcialmente inaugurado em 1982, um ano antes da finalização da primeira obra internacional de Ruy Ohtake: a Embaixada do Brasil em Tóquio (1981-1983), no Japão, país com o qual mantinha relações familiares - tios e primos, de Kyoto, estiveram presentes na inauguração - e onde já havia estado profissionalmente antes, cuidando da implantação do pavilhão brasileiro na Expo 70, em Osaka, projeto de Paulo Mendes da Rocha e de cuja equipe ele fez parte.

Também em 1990, Ohtake voltou a implantar um trabalho no Japão, dessa vez o pavilhão de São Paulo na Feira de Osaka. Entre 1979 e 1982, foi presidente do Condephaat - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico de São Paulo. FAU-USP e MASP são dois exemplos de obras arquitetônicas tombadas pelo órgão estatal naquele período.

Em paralelo, sua carreira seguiu conquistando novas áreas, como projetos públicos de habitação social, equipamentos culturais e de ensino, até que a partir dos anos 1990, nas suas palavras, sua arquitetura conquistou a almejada liberdade criativa: “Nos anos 70, a curva e a cor entraram nos meus projetos, mas a liberdade mesmo veio nos anos 90”.

São dessa época, por exemplo, os projetos do Hotel Renaissance (1992-1995), do complexo Ohtake Cultural (1995-2001), do edifício de escritórios Santa Catarina (1998-2008), do Hotel Unique (1999-2002), todos em São Paulo, e do Hotel Alvorada Park (2000-2006), em Brasília.

O Expresso Tiradentes, uma linha rápida de ônibus (BRT) que interliga bairros da região central de São Paulo, começou a ser projetado por Ohtake em 1997, sendo que as duas estações terminais, Mercado e Sacomã, foram inauguradas em 2007. Um tipo de intervenção em que o caráter de Ohtake se expressa na sua totalidade, cuidando ele de questões macro e micro, tecnológicas e sociais, como o diálogo que costuma manter com os usuários de suas obras.

Sempre que se visita uma obra na companhia do arquiteto, vivencia-se essa sua característica, de aproximar-se de atores e tempos diversos dos projetos, com controle total do fazer arquitetônico. E era esse o espírito do seu escritório em dezembro passado, com todos os projetos empilhados na mesa e um grande mapa colado na lousa verde, com trechos da cidade de São Paulo, pontuando o Expresso Tietê, o Parque Ecológico do Tietê, o hotel Unique e outros projetos. Quase uma cronologia georreferenciada da sua carreira, que ele, divertidamente, chamou - em vez de linha do tempo - de curva do tempo.


ENTREVISTA


O senhor afirma que a arquitetura deve olhar para frente. O  que quer dizer com isso?
Que é sempre preciso avançar com uma arquitetura contemporânea, que faça a diferença no lugar e no tempo. Me lembro da fotografia aérea do hotel Renaissance, era o único edifício com cor em toda a redondeza.

Mas, o quanto a forma  pode durar no tempo?
Não sei, esse é o desafio de todos os arquitetos.

Impressionante a sua capacidade de se recordar de detalhes construtivos de obras já há tanto finalizadas.
Para mim, arquitetura é obra construída. Eu, felizmente, sou um arquiteto com alto índice de projetos construídos e estou sempre presente na obra, antes e depois dela estar pronta. No Unique, por exemplo, quando a construção estava já para começar, chamei o Mário Franco [calculista da estrutura] e disse que precisávamos mudar o detalhe do encontro do cobre com a parede de concreto. A pessoa que olha do chão, no térreo, deveria ver um ponto no lugar desse encontro. Quando dois materiais se tocam, deve haver uma conversa.

O seu desejo é feito à mão livre. Como conduz o desenvolvimento dos projetos no seu escritório e qual o tamanho da sua equipe atualmente?
Vou ajustando o projeto, à mão, até que tudo esteja funcionando bem. Depois entrego o desenho aos arquitetos e dou a eles alguma referência de medida para que passem para o computador. Eu sou centralizador, não consigo ter mais do que dez arquitetos trabalhando comigo ao mesmo tempo porque acompanho tudo, todo o tempo. Também não preciso de perspectiva, essas coisas. Sou capaz de ajustar inclinações, espessuras, larguras, etc, vendo as plantas, cortes e elevações no computador. Sigo o projeto até que esteja pronto o desenho executivo.

Como está cuidando da catalogação do seu acervo?
Cada vez que fazemos uma exposição, ou um livro, eu arrumo a casa.

Na sua análise, de que forma o ambiente familiar influenciou a sua escolha profissional e também a sua criatividade?
A Tomie jamais interferiu na minha escolha pela arquitetura, mas é claro que teve consequências conviver com a arte dela, com as marcas de tintas pela casa e todo o ambiente de conversas sobre artes plásticas, teatro, cinema, música. Mário Pedrosa, por exemplo, era figura constante na nossa casa. Já na minha vida adulta, então, em certo momento fui morar sozinho e escolhi um apartamento sem cozinha. Passei a levar as crianças [seus dois filhos, Elisa e Rodrigo Ohtake, este arquiteto como o pai] para almoçar na casa da Tomie, no Campo Belo, todos os domingos. Se tornou uma tradição, algo que se repetiu por 30 anos, até a morte dela. Nos reuníamos em grupos grandes, em almoços que duravam até a noite.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 447
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