Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos: Sesc 24 de Maio, São Paulo

Ocupar o centro

Inaugurado em agosto passado, o novo Sesc da capital paulista está localizado no centro da cidade. Desenhado por Paulo Mendes da Rocha e pelo MMBB Arquitetos, ele ocupa um edifício existente, ao qual se fizeram dois adendos construtivos importantes: uma piscina na cobertura e um teatro no subsolo. Uma generosa rampa percorre todos os andares

O projeto de Paulo Mendes da Rocha e do MMBB Arquitetos para a nova unidade paulistana do Sesc, conhecida como 24 de Maio, é feito de adições e subtrações construtivas. Tratando-se de uma reforma com adição de área, o projeto opera sobre um edifício em desuso na região central de São Paulo de modo a redefinir completamente a espacialidade interna da construção, sua lógica de distribuição dos fluxos e também as fachadas. Sem contar a montagem que faz de um novo aparato técnico, necessário para acomodar com segurança, eficiência e conforto o programa no local. É, portanto, uma reforma ampla, onde importa menos a quantificação entre o que se manteve e o que se inseriu, entre antigo e novo em resumo, e mais a sintonia do projeto com a sensibilidade dos moradores da cidade a favor da revalorização do centro, para o desfrute público, acentuada quando o projeto (iniciado em 2002) já se encontrava em implantação (a obra durou de 2012 a 2017).

Por isso, um aspecto relevante da arquitetura são as vistas que abre para aquele pedaço conturbado da cidade, ou seja, o contato que estabelece com a rua, e a prioridade que deram os arquitetos à criação de amplas e numerosas áreas de circulação e de livre permanência, algumas das quais descobertas. No primeiro caso, importa observar as frestas realizadas nas novas fachadas envidraçadas, sejam as do terceiro andar ou as do terraço sob a piscina (ambas sem vedação), assim como os vazios que abrigam os pátios em alguns dos pavimentos superiores. Elas ocupam o espaço antes preenchido por um adendo da construção existente, que foi demolido por determinação dos arquitetos e parcialmente reocupado por elevadores, escada e pelos tais pátios esparsos. Que são pequenos se comparados ao tamanho das lajes e, portanto, das fachadas que eles recortam, mas capazes de situar o usuário no entorno.

No segundo caso, deve-se mencionar que menos da metade dos espaços são de acesso restrito, ou seja, condicionados à inscrição prévia em atividades e serviços oferecidos pelo Sesc. Nos demais, inclusive na biblioteca (quarto piso) e na exposição (quinto piso), pode-se entrar e permanecer livre em amplas salas, mobiliadas com mesas, assentos e armários volantes desenhados pelos arquitetos. Algo notável em um projeto que lida com as restrições físicas - sejam de ordem técnica ou de programa - impostas pela reforma de uma edificação existente, em que é preciso atender a elevada densidade de instalações requeridas pelo contratante.

Assim, embora a malha irregular e densa dos pilares mantidos, dispostos com lógica alheia ao novo uso, e das salas compartimentadas requeridas, o que se tem é o oposto de uma ocupação labiríntica. A luz natural é determinante disso (todas as fachadas foram demolidas e, em seu lugar, entraram fechamentos envidraçados - inclusive nas divisas internas), mas, sobretudo, a qualidade espacial do projeto é também favorecida pela troca que os autores fizeram entre cheios e vazios. Vedaram quase que integralmente a abertura quadrada (de 14 metros) no miolo do edifício - que servia à contemplação de uma cúpula, também removida.

Em compensação, onde existiam os fossos dos elevadores, implantaram a rampa que se desenvolve continuamente do térreo à cobertura do Sesc. Ou seja, otimizaram as áreas construídas das lajes por meio da adição de piso nas suas regiões centrais e, independentemente da maior ou menor restrição de acesso a cada um dos andares, criaram a livre transposição vertical do edifício através da rampa, pela qual se pode caminhar observando as diversas atividades e espaços.

Nesse sentido, foi também fundamental a incorporação ao projeto de um edifício anexo, que passou a abrigar dependências dos funcionários, sanitários e salas técnicas. A arquitetura preexistente era, e continua sendo, formalmente inexpressiva, e a excessiva reflexão dos vidros das novas fachadas mais atrapalha do que ajuda a fazer com que o Sesc coloque alguma ordem na paisagem. Mas, para além da qualidade dos espaços internos comentada acima e da inteligente disposição do programa, é impactante o fato da piscina ter sido acrescida no topo da construção, sustentada por quatro pilares circulares de concreto visíveis ao longo dos andares. É a mensagem dos arquitetos a favor do desfrute, do ócio na cidade, a que se dedica o projeto. (Por Evelise Grunow)


Um puro e simples pano de fundo
Nas últimas décadas, Paulo Mendes da Rocha foi autor de marcantes intervenções no centro de São Paulo, em particular a reconfiguração da Praça do Patriarca e a reforma da Pinacoteca do Estado. O recém-inaugurado Sesc 24 de Maio pertence à mesma sequência. Todas essas obras - apesar de notáveis diferenças em termos de programa, assim como de cliente - expressam uma mesma estratégia, que tem como objetivo declarado a construção da “cidade para todos”; cada uma delas, contudo, adota uma tática específica.
A primeira virtude do projeto da nova sede do Sesc, elaborado junto com o MMBB Arquitetos, está na aceitação das condições impostas pela implantação (um lote e até um volume determinados) para, todavia, desmontar sistematicamente o seu partido e sentido originais. Aprendendo com as galerias da metade do século 20 que contornam o Sesc, e ao mesmo tempo realizando um sonho desde sempre presente na obra de Mendes da Rocha, o novo prédio se torna livremente atravessável ao nível do térreo. A intriga que exerce no transeunte não é, portanto, visual, e sim física: nesse edifício, cujas fachadas tendem a desaparecer e cujo térreo simplesmente se oferece à penetração, o corpo do pedestre que caminha pelas ruas do centro é que se sente atraído pelas cavidades da edificação e, aí, convidado a prosseguir seu caminho. Também uma vez dentro, ele não encontra qualquer barreira; a presença de elevadores e rampas - em vez de escadas - tem como objetivo permitir um prolongamento do caminho da rua aos diversos andares do prédio, rápido e coletivo ou fluido e ininterrupto, respectivamente.
A sombria caixa de vidro, quase despercebida na rua, acolhe uma série de andares configurados, cada um, de forma diferente: a ausência de um externo concebido como uma imagem marcante corresponde à multiplicação de quadros oferecida no interno. O usuário sem pressa, disposto a subir pelas rampas, encontra-se de alguma forma dentro de uma promenade architecturale, construída através de uma rica sequência de etapas. Estas etapas, contudo, não são quadros estáticos a serem contemplados, já que os diferentes andares se prestam a usos variados, fortuitos e, até certo ponto, imprevisíveis. Ao longo da subida, o transeunte acaba portanto atraído por - ou envolvido em - situações inimaginadas. E é assim que um percurso que iniciara como uma ação individual, ou no máximo em grupo, se torna de repente uma experiência coletiva: o prédio é a própria cidade - é a cidade como ela poderia e deveria ser.
Isso se mostra de forma mais clara na decisão de colocar a piscina na cobertura. Na metrópole paulistana, construída longe do mar em um pais cujo imaginário é dominado pelo mito litorâneo, há aqueles (não são muitos) que podem se permitir um substituto do mar e da praia na forma de uma piscina particular. Com um gesto de rara força, Mendes da Rocha resolveu implantar no meio do antigo prédio, onde se encontrava um apertado vazio, quatro grandes pilares de concreto, que têm como principal função a sustentação da piscina na cobertura.
O que nela surpreende não é apenas a localização, mas a acessibilidade: ocorre, de fato, uma espécie de subversão das hierarquias sociais estabelecidas, uma subversão pela qual quem vai curtir o banho naquele lugar desejável e único é provável que não seja o mais abastado, e com certeza não pertence a uma classe social específica. De alguma forma, o Sesc 24 de Maio está aí para materializar uma das máximas preferidas do arquiteto, aquela da água potável que, apesar das injustiças, é a mesma para todos, para o rico e para o pobre - mesmo que a sociedade em que vivemos continue se recusando a admiti-lo.
Com um vocábulo bastante amado pelo arquiteto, poderíamos chamar este gesto - de colocar uma piscina acessível a todos, independentemente da sua renda, em posição dominante, contrariando assim as expectativas mais óbvias - de “manobra”. O que caracteriza o novo Sesc é que tal manobra não se configura como a criação de uma imagema piscinafica lá em cima, invisível; e se ela é o emblema desse Sesc é porque a tática de Mendes da Rocha consiste aqui em fazer a obra passar despercebida e ao mesmo tempo desfrutada - muito simplesmente, usada antes que elogiada. No final das contas, sua mais profunda aspiração é fazer dessa sua nova obra um puro e simples pano de fundo de uma vida urbana, pública, coletiva. (Por Daniele Pisani)

 
 
Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos
Paulo Mendes da Rocha, formado pela FAU/Mackenzie em 1954, é um dos mais renomados arquitetos brasileiros. Entre os prêmios que conquistou, destacam-se o Pritzker (2006), o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza (2016), a Medalha de Ouro do RIBA (2017) e Prêmio Imperial do Japão (2016). Formados pela FAU/USP, Fernando Mello Franco, Milton Braga (1986) e Marta Moreira (1987) são sócios no escritório MMBB desde 1996. Receberam, entre outros, o prêmio da 4ª BIA pelo projeto da garagem do Trianon, em São Paulo.



Ficha Técnica

Sesc 24 de Maio
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2002
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 2.203 m²
Área construída 27.865m²

Arquitetura Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos (Fernando Mello Franco, Marta Moreira, Milton Braga); Adriano Bergemann, Ana Carina Costa, Ana Carolina Mamede, Cecília Góes, Eduardo Ferroni, Giovanni Meirelles, Gleuson Pinheiro, Guilherme Pianca, Jacques Rordorf, Lucas Vieira, Márcia Terazaki, Maria João Figueiredo, Marina Acayaba, Marina Sabino, Martin Benavidez, Vito Macchione, João Yamamoto, Rafael Monteiro, Rodrigo Brancher, Thiago Rolemberg (equipe)
Mobiliário Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos; Ana Carolina Mamede, Gleuson Pinheiro, Julia Marques, Lucas Vieira, Maria João Figueiredo (equipe); Marcelo Bianco (calculista); Miguel Pisaturo (consultoria pintura); S.Moreno Metalúrgica (execução assentos); Glafcon Indústria e Comércio de Artefatos de Metais (execução dos armários volantes); Ponto Decore Móveis e Artigos de Decoração (execução das mesas)
Estrutura Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros Associados
Fundações MAG Projesolos Engenheiros Associados
Instalações PHE Projetos Hidráulicos e Elétricos
Ar condicionado JMT Projetos
Acústica Nepomuceno Acústica e Sônica
Cenotécnica J.C. Serroni
Sonorização Alexandre Sresnewsky
Luminotécnica Rosane Haron (Espaço Luz) e Altimar Cypriano Conforto Daltrini e Granado Arquitetura e Conforto Ambiental
Lógica Marciano Engenharia
Supervisão predial SI2 - Soluções Inteligentes
Transporte vertical EMPRO Engenharia de Produção
Odontologia Terra Arquitetura
Cozinha Núcleora
Impermeabilização PROASSP Acessória e Projetos
Piso de concreto e drenagem LPE Engenharia e Consultoria
Esquadrias AEC Consultores
Engenharia do SESC Amilcar João Gay Filho, Humberto Bigaton, Alberto Costa Souza Neto
Promotor SESC
Construção Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Tecnogran (piso de concreto)
Gail (pisos e revestimentos cerâmicos)
Glafcon (fechamento metálico e esquadrias)
Lumini (luminárias)
Rissi (esquadrias)
Forbo (pisos)
thyssenkrupp (elevadores)

Texto de Evelise Grunow | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 440
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