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Mauro Munhoz: Residência, Gonçalves, MG

Apoiado em oito pilares, pavilhão enfrenta o abismo

O projeto dá continuidade à pesquisa residencial realizada pelo arquiteto Mauro Munhoz com a colaboração do engenheiro Hélio Olga, que calcula as estruturas de madeira e se responsabiliza por sua execução

Situada no sul de Minas Gerais, próximo da divisa com São Paulo, a casa de veraneio parece flutuar sobre o mar de morros da serra da Mantiqueira.

O desejo do casal de clientes era escolher, dentro da gleba, um local em que a vista fosse o elemento de maior atração. Logo o encontraram: uma diminuta planície junto a duas nascentes. Diante de inclinações para todos os lados, aquele pequeno sítio plano era bem-vindo para a ocupação humana. Havia um problema: dentro de um raio de 50 metros das nascentes, a legislação ambiental não permite construções.

A ousada solução encontrada por Mauro Munhoz foi implantar a casa fora da planície mas na mesma cota, como se a estivesse ampliando de forma artificial. Por isso, a residência se projeta para o abismo, apoiada em oito pilares de madeira, com vãos de cinco metros. Diante de tal apuro técnico, “o proprietário me perguntava: ‘Não podemos apoiá-la em apenas um pilar?’, conta Munhoz. 

A disposição interna do pequeno pavilhão, coberto por telhado de duas águas, é muito simples. A planta é simétrica: a porção central destina-se ao estar/cozinha e em cada uma das duas extremidades há uma suíte. A simetria, a organização da planta e a transparência do ambiente central lembram projetos que contaram com a participação de Hélio Olga, como a casa em Carapicuíba, do escritório Una Arquitetos. Já a estrutura, a cobertura e os pormenores da casa de Gonçalves são completamente distintos.

A diferença das duas extremidades, o estar/cozinha possui balanço de cinco metros em direção ao abismo. Para essa interessante solução, a estrutura de cumaru conta, no piso, com o auxílio de mãos francesas (que parecem replicar de forma espelhada a inclinação das tesouras) e, na cobertura, com tirantes metálicos. Além disso, possui no sentido transversal uma espécie de treliça japonesa, que ajuda a configurar o balanço. “É uma viga armada que nunca tínhamos usado”, relata Hélio. O resultado desse esforço: ambas as quinas do espaço de estar ficam livres de pilares, potencializando a vista para os montes.

Mauro Munhoz é daqueles arquitetos contemporâneos que não têm medo de telhados de duas águas. Pelo contrário, sua pesquisa arquitetônica não se limita a coberturas com uma água ou planas - dois elementos clássicos entre os modernos. A exemplo de Wright e do velho Bratke, duas de suas referências, ele se aventura em soluções diversas. Em Gonçalves, o arquiteto usou telhas de vidro e um grande beiral para separar os dois telhados e, ao mesmo tempo, criar um desenho interessante e captar luz zenital para o interior do maior ambiente da casa.

A madeira da estrutura é totalmente advinda de áreas de manejo sustentável. “Para ser certificada, há necessidade de uma empresa certificadora, e estamos nesse caminho”, relata Hélio Olga. Atualmente, Munhoz está desenhando um edifício de escritórios sustentável em São Paulo. “Se bem aplicado, o conceito de sustentabilidade dará condição e visibilidade necessárias para o arquiteto retomar o domínio do projeto”, ele avalia. “Não podemos perder essa oportunidade.”


Mauro Munhoz
Mauro Munhoz formou-se em arquitetura e urbanismo pela FAU/USP em 1982; pela mesma instituição se tornou, em 2003, mestre na área de estruturas ambientais urbanas. Possui escritório próprio em São Paulo desde 1989



Ficha Técnica

Residência unifamiliar
Local Gonçalves, MG
Início do projeto 2004
Conclusão da obra 2005
Área construída 195 m2
Arquitetura Mauro Munhoz (autor); Eduardo Lopes (coordenador); Thiago Lima e Alexandre Effori (colaboradores)
Luminotécnica Lumini
Estrutura de madeira Ita
Estrutura de concreto e fundações Stec do Brasil
Elétrica e hidráulica SPHE
Construção AUM
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Oficina de Marcenaria (esquadrias)
Lumini (luminárias)
Comercial Zanchet (pisos de madeira)

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 332
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