JT Arquitetura e Jean Dubus: Liceu Francês François Mitterrand, Brasília

Vazios, brises e coberturas em balanço

O projeto das novas instalações do Liceu Francês em Brasília foi desenvolvido em parceria por um escritório brasileiro e outro francês. A composição que se ajusta às condições climáticas da capital federal resulta de elementos construídos entremeados por vazios. Sombreamentos verticais e horizontais alternam-se nos edifícios destinados às salas de aula

Uma ligação de François Genouvrier ao colega José Luiz Tabith Júnior, no primeiro semestre de 2009, deu início ao projeto que se consolidaria como a nova sede do Liceu Francês François Miterrand, em Brasília.

Francês, Genouvrier conhecera Tabith no Brasil quando cogitou cursar mestrado na Universidade de São Paulo e o brasileiro se dispôs a ajudá-lo. No retorno à Europa, o arquiteto foi trabalhar no escritório do compatriota Jean Dubus, em Paris. Quando a embaixada da França em Brasília começou a estruturar o concurso para escolher o projeto da futura edificação, Genouvrier retomou o contato com Tabith.

O estúdio de Dubus - e mais uma série de outros profissionais daquele país - fora convidado para participar da competição, a qual previa que os escritórios europeus trabalhassem em conjunto com arquitetos baseados no Brasil.

“Precisamos entregar o material para a qualificação até amanhã”, informou Genouvrier durante o telefonema. Nessa etapa, a apresentação era apenas do acervo e da qualificação técnica e, assim, não houve maior dificuldade em atender o prazo. Baseado nesses dois itens, a embaixada e o Liceu selecionariam quatro duplas para desenvolver propostas para a nova sede da escola.

Passado algum tempo da pré-qualificação, numa tarde em que estava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU/Mackenzie) - escola onde é professor -, Tabith foi parabenizado pela arquiteta Anne Marie Summer, também professora do Mackenzie - antes dele, ela soube que a dobradinha Tabith/Dubus fora escolhida para prosseguir no certame.

Em seguida, acompanhado de Genouvrier, Dubus viajou para o Brasil e juntou-se com Tabith (e com os outros selecionados) para a reunião com representantes da embaixada e da escola em Brasília sobre o programa e as condições do projeto. Ainda na capital federal, a dupla esboçou os croquis da escola, relata Tabith. O titular do escritório francês retornou à Europa. Genouvrier, porém, permaneceu na capital paulista para acompanhar o desenvolvimento da ideia que, no início do primeiro semestre de 2009, venceria a competição (veja os outros projetos na PROJETO, edição 356, outubro 2009).

O Liceu Francês François Miterrand está localizado na região do Lago Sul, na QI 21, em uma área onde existem outras escolas. Suas instalações distribuem‑se por um terreno de quase 15 mil metros quadrados, cuja frente é de aproximadamente 200 metros.

O conceito do projeto, explica Tabith, consolidou‑se em um partido que decompõe a edificação no território, estabelecendo diálogo entre espaços fechados e espaços abertos. “Volumetrias construídas e ausência de volumetrias. É como se, na escola, existisse um diálogo permanente entre espaços fechados e espaços abertos”, ele argumenta.

O conjunto é composto por vários elementos que se articulam tanto pelas circulações externas avarandadas como pelos vazios dos pátios internos. De frente para a via pública, um extenso pavilhão (que observado do exterior aparenta ser uma edificação única) é constituído por quatro blocos de dois pavimentos, onde estão as áreas administrativas e setores de apoio ao programa, como biblioteca e auditório.

O pavilhão encontra-se recuado do alinhamento - entremeada de vegetação, a alça de acesso de veículos proporciona interação entre os espaços públicos e privados, assumindo também a função de praça. Somados ao pavilhão frontal, outros quatro blocos de dimensões diversas posicionados no sentido norte-sul do lote, perpendiculares ao pavilhão, abrigam as salas de aulas, agrupadas por faixas etárias. Os espaços entre os blocos para atividades didáticas (a ausência de volumetrias citada por Tabith) são ocupados por pátios jardins sombreados.

Completam as instalações a área para práticas esportivas e o restaurante implantado na porção mais ao norte do lote. Na cobertura, um jardim conecta todos os elementos e contribui para diluir a massa construída no terreno. Os blocos de salas de aula são protegidos por brises de madeira (de reflorestamento) tratada. Os vazios entre esses blocos são parcialmente protegidos pelos generosos balanços das coberturas, que geram agradáveis sombreados, sem impedir, porém, a entrada do sol e a vista do céu de Brasília - trata-se de uma solução interessante e adequada, sobretudo por se tratar de uma cidade onde, em determinadas épocas do ano, a umidade do ar é quase nula. Para Tabith, trata-se de adequar o edifício ao meio onde ele está implantado. 

 

JT Arquitetura e Jean Dubus
José Luiz Tabith Júnior formou-se em 1983 pela Faculdade de Arquitetura Brás Cubas, em Mogi das Cruzes. Seu escritório, o JT Arquitetura, foi fundado em 1985 e acumula mais de 300 projetos no currículo e mais de duas dezenas de trabalhos premiados. Jean Dubus formou-se em 1972 pela École Nationale Supérieure des Beaux‑Arts de Paris, cidade onde constituiu seu escritório. Além da França, Dubus tem projetos desenvolvidos em Genebra, na Suíça, e em Phnom Penh, no Camboja.



Ficha Técnica

Liceu Francês François Mitterrand
Local
Brasília (DF)
Início do projeto 2009
Conclusão da obra 2016
Área do terreno 14.922,71 m²
Área construída 12.199,54 m²

Arquitetura e interiores JT Arquitetura - José Luiz Tabith Jr. e Jean Dubus (autores); François Genouvrier e Ricardo Takashi Minami (coordenadores); Nathally Costa Crisostomo, André Tabith Costa, Joyce Santos Alves, Luciana Kimura, Priscila Chu, Markus Thomas Munoz Kampf, Lucas Rigotto, Camila Tannous, Samuel Robinne, Victor Kuhni, Ana Lúcia Rodrigues, Edvaldo Luiz de Jesus
Estrutura Alberto Luppi, ACS Engenharia de Estruturas
Paisagismo Fábio Camargo Paisagismo
Luminotécnica Alexandre Giovannetti
Acústica Lúcia Pirró - Green Consulting Arquitetura e Engenharia Acústica
Elétrica e hidráulica NV Engenharia
Ar condicionado JMT Projetos
Comunicação Visual Nathally Costa Crisótomo e José Luiz Tabith
Painel artístico da piscina José Luiz Tabith e Lucas Rigotto
Construção Grupo Attos
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Gail (revestimentos)
Madepar Laminados (portas)
Recoma, Tarkett, Haiah (pisos)
Viapol (impermeabilização)
Thyssenkrupp (elevadores, plataforma e cadeiras elevatórias)
Alfambra (monta-cargas)
Deca, Jofel (metais)
Master Frio (bebedouros)
Luxaflex (persianas)
A. Pelucio (pedras para pisos e revestimentos)
Tetti (telhados e sistemas construtivos de madeira plantada)
Ares Line (mobiliário auditório)
Belmetal (esquadrias)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 445
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