FINESTRA: Dávila Arquitetura, Concórdia Corporate Tower, Nova Lima, MG

Prisma entre a cidade e o vale

A cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, ganhou uma nova referência arquitetônica. É o edifício Concórdia Corporate Tower, com projeto assinado pelo escritório Dávila Arquitetura e desenvolvido em parceria pelas empresas Tishman Speyer e Construtora Caparaó, responsáveis pelo empreendimento. A torre corporativa triple A, com 59.217 metros quadrados de área construída, é um prisma envidraçado com 172 metros de altura que reúne o melhor do design e da tecnologia em localização privilegiada: às margens da alameda Oscar Niemeyer e com vista para o Vale do Sereno

As características do terreno de 7.631,67 metros quadrados com um desnível de 25 metros possibilitaram a implantação diagonal em relação à alameda Oscar Niemeyer, onde se encontra a entrada principal do edifício e a via de fundos voltada para o vale.

De acordo com o arquiteto Afonso Walace de Oliveira, diretor do Dávila Arquitetura, a solução possibilitou descortinar a vista das montanhas a partir dos pavimentos, criou no nível da rua uma relação positiva com o entorno, oferecendo ambiências favoráveis e uma generosa praça de acesso com lojas, assim como promoveu segurança e qualidade do fluxo de veículos no entorno, na entrada e saída do empreendimento.

Instalado na crista de um morro, na borda de um vale e somado à sua altura, o edifício está relativamente exposto como um objeto isolado. Com isso, a aerodinâmica da torre era um fator muito importante e foi favorecida pela implantação.

“A arquitetura considerou que a relação em diagonal com a rua na frente do lote e, consequentemente, com o Vale do Sereno ao fundo, facilitaria a aerodinâmica da torre, em benefício do sistema de contraventamento do núcleo rígido. O posicionamento em diagonal em relação ao Vale do Sereno, que pode gerar ventos ascendentes, facilita a passagem do vento beneficiando o contraventamento do edifício, adotado para resistir aos ventos dominantes na região”, explica Oliveira.

Em função das características de relevo e ventos específicos que se mostram acima da média da região, conforme recomendação constante no item 1.2 da ABNT NBR 6123, a incidência dos ventos na estrutura foi estudada no túnel de vento do Laboratório de Aerodinâmica das Construções - LAC, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Também foi considerada no ensaio a localização do edifício - implantado no limite entre uma região urbana (no lado voltado para Belo Horizonte) e um vale verde (no lado voltado para Nova Lima) -, cujas características das obstruções se enquadram nas categorias IV e III respectivamente. O modelo reduzido do edifício na escala 1/400 foi instrumentado com um total de 382 tomadas de pressão.

Estas por sua vez foram medidas a cada 15 graus de incidência do vento, girando-se o modelo em 360 graus, além de quatro ângulos adicionais aos 28 ângulos de incidência do vento, o que resultou em 10.696 registros de pressões. A torre de estrutura mista - concreto e metálica - possui um núcleo de rigidez responsável pela estabilidade do edifício e pela resistência à ação do vento.

Embasamento

O desnível de 25 metros entre as vias principal e posterior promoveu uma implantação em encosta, e a diferença de nível foi absorvida pelo embasamento.

De acordo com o arquiteto, “apesar dos muitos níveis de garagem da torre, o volume de estacionamento parcialmente aflorado aproveitando o desnível para os fundos do terreno foi vantajoso em termos de custo e de solução espacial e funcional do projeto. Os volumes do embasamento, em seu topo, permitiram criar as praças/terraços, que estendem significativamente o espaço público da rua, e visualizar o Vale do Sereno ao fundo. Caso fosse outra a solução, a vista a partir da alameda Oscar Niemeyer poderia ficar bloqueada por um volume, e o espaço público ficaria limitado”.

Partindo de diretrizes do Dávila Arquitetura, o projeto de paisagismo foi desenvolvido pelo escritório Burle Marx e caracteriza-se pela criação de três diferentes praças instaladas no nível térreo. Elas ocupam o terraço de cobertura dos volumes que formam o embasamento, destinados às garagens, aos serviços e à área de lofts residenciais.

Apesar do desnível, a criação das praças resultou um terreno plano para organizar a chegada ao edifício e eventual permanência de pedestres, dando continuidade ao espaço público da rua e servindo de desafogo para o lobby.

Na face voltada para a rotatória, a praça Verde tem atributos que marcam com imponência o acesso à torre e conduzem à Praça das águas. Com área específica para pedestres, parte dela é protegida por um porte-cochère que dá acesso ao restaurante em um bloco.

Os pórticos das praças possuem uma estrutura metálica revestida com painéis de alumínio composto branco. O pórtico da praça das águas, a sudeste, tem 10,60 metros de altura em relação ao nível do térreo, 36 metros de comprimento e 7,8 metros de largura. O pórtico na entrada da praça do mirante, a noroeste, tem 11,6 metros de altura, em relação ao nível do térreo, 44 metros de comprimento e 7 metros de largura.

Volumetria

A torre tem um formato quadrado com uma fenda em cada face. Produzidas a partir do formato de cada pavimento tipo, as fendas com largura entre 82 centímetros na parte inferior e 128 centímetros na parte superior da torre dividem as faces em duas partes, gerando uma lacuna na fachada. Os planos de fachada possuem inclinação negativa que convergem para as fendas.

“É como se metade da face estivesse em um ângulo perpendicular ao vértice da torre, enquanto a outra metade está angulada negativamente para dentro da torre. Esse efeito conforma o gap entre as duas metades de cada face. O mesmo ângulo de 84 graus define tanto o recorte inclinado da fachada gerado pelo gap quanto define a angulação dos planos de fachada”, detalha o arquiteto Afonso Walace de Oliveira.

A ruptura em determinado trecho da fachada faz com que as duas metades das faces do quadrado se desencontrem, formando um ângulo entre si. Com a diferenciação do ponto de ruptura do quadrado básico em cada pavimento, uma das metades vai avançando sobre a outra, produzindo uma inclinação na fenda. A partir de determinado pavimento tipo, a ruptura permanece no mesmo ponto em relação ao pavimento de baixo, e as fendas seguem na vertical.

Uma curiosidade em relação aos pilares periféricos: quatro dos 12 pilares são inclinados entre o 8º e o 14º pavimentos para atender a inclinação das fachadas produzida pela angulação de cada metade das faces no pavimento tipo.

“A estrutura com os pilares inclinados seguiu a definição plástica e funcional da arquitetura. Por outro lado, sem a inclinação dos pilares esse efeito na fachada seria inviável. Se um pilar estivesse definido em determinada posição alguns pavimentos acima ele irromperia a fachada. A inclinação dos pilares foi necessária para mantê-los sempre periféricos em cada pavimento tipo, favorecendo os layouts de cada sala. Tal solução fez surgir forças horizontais significativas nos níveis dessas lajes, no entanto, esses esforços são conduzidos das fachadas até o núcleo de concreto através do conjunto viga metálica/laje”, detalha Oliveira.

Segundo o arquiteto, “essa solução visou acompanhar a variação nos planos das fachadas - uma característica marcante que define a personalidade volumétrica do edifício de maneira a manter os pilares na projeção de cada pavimento em uma posição relativa similar. Durante o dia, esses movimentos na fachada, a lacuna e o posicionamento do edifício no terreno conferem ao Concórdia a característica de um prisma. À noite, o espaçamento, iluminado em cada uma das faces, cria um efeito diferente, destacando suas linhas verticais”.

A fenda que se repete nas quatro faces tem um propósito técnico. Vedada com venezianas de alumínio, realiza a ventilação dos pavimentos e serve como ponto de tomada de ar para o sistema de condicionamento.

Segundo o consultor de fachadas Délcio Eustáquio Braga, da BM Consultoria em Esquadria, a união entre as duas partes da fenda é feita por um sistema de brise que, além de fornecer ventilação aos shafts, compensa a variação de distância entre as duas metades. Revestidos com painéis de alumínio composto, os brises metálicos possuem inclinação negativa em relação ao plano horizontal e variação de largura em função da altura.

Sistemas de fachadas

A angulação da torre em relação à rua favoreceu a proteção contra os raios solares. Na face noroeste, onde a incidência solar é maior, a torre recebe os raios solares em diagonal.

Na fachada oeste, a parte inferior da pele de vidro é protegida pelo morro que barra boa parte da incidência solar no fim de tarde. Por outro lado, como a torre é um prisma envidraçado, foram feitos estudos para definir os vidros de controle solar e adequar a torre às demandas da Certificação LEED Gold.

Sem ser totalmente transparente, o vidro especificado resulta da laminação de vidro azul cool lite KBT de 6milímetros de espessura + PVB incolor + vidro float incolor de 8 milímetros. De acordo com Maria Beatriz Mundim, gerente de Projeto e Obras da Tishman Speyer, “os vidros com alta eficiência de controle solar apresentam fator solar de 32,6 %, coeficiente de sombreamento de 0,374 e transmissão luminosa de 27,6%”.

Em função das características da torre foram escolhidos três sistemas de fachadas para vedação do edifício: unitizado, stick e spider. Segundo o consultor de fachadas, “a diferenciação do sistema da torre e do lobby se fez necessária devido à dificuldade de fixação do sistema unitizado onde o pé direito é muito alto. Assim, a escolha do sistema stick e spider para o lobby se justificou pela flexibilidade de montagem e ancoragem que esses sistemas possuem, além das exigências arquitetônicas”.

Composição volumétrica

“O corpo da torre recebeu fachada cortina em sistema unitizado nas quatro faces, que se estende do 3° andar até o ultimo pavimento. O pé direito de 3.960 milímetros dos pavimentos foi dividido em duas partes desiguais: 2.582 milímetros no vão luz e 1.378 milímetros na frente de viga e compartimentação. A envoltória da torre possui inclinação lateral que proporciona um aumento do comprimento da fachada a cada pavimento. Essa característica cria um efeito visual de giro da face”, explica o consultor de fachadas Délcio Eustáquio Braga.

“Para garantir a estanqueidade da fachada, no corpo da torre, foi adotado um sistema de guarnição composto de três barreiras para água. A primeira dá acesso à câmara interna do perfil, reduzindo a pressão e permitindo que a água escorra e saia nas laterais. Caso a água passe pela primeira barreira, existem mais duas barreiras, garantindo a estanqueidade do sistema. Nas reentrâncias, o encontro dos vidros foi vedado com perfil cantoneira com apoio e junta de silicone contínua”, afirma Maria Beatriz Mundim.

Seguindo as normas ABNT NBRA 10821-3:2011, as fachadas da torre foram submetidas a ensaios de penetração de ar, de estanqueidade à água e de comportamento sob cargas uniformemente distribuídas.

“Os ensaios realizados na câmara azul do Instituto Tecnológico da Construção Civil (ITEC) tiveram resultados positivos, sem ocorrências. Para o teste foi adotado um protótipo com seis painéis de quadro fixo, com dimensões totais de 4.785 milímetro de largura e 7.972 milímetros de altura”, completa a gerente de projeto e obras. No térreo, a fachada com vãos de 7 a 12 metros de altura e espaçamento entre montantes de aproximadamente 1.600 milímetros se alterna entre o sistema stick e sistema spider. 

“As fachadas do lobby possuem inclinações laterais que exigiram modificações sutis na modulação para que a torre e o lobby ficassem visualmente no mesmo alinhamento. Devido à altura e à alta pressão de vento (aproximadamente 12 metros de altura no ponto mais alto e 2.500Pa de pressão de ensaio) e aos cronogramas de execução da laje, não foram contemplados os esforços de tração dos cabos na laje. Assim, optou-se, juntamente com a arquitetura, por uso de estrutura de aço revestida com painéis de alumínio composto”, lembra o consultor de fachadas.

Parte dos vidros é inteiramente transparente, refletindo a preocupação dos arquitetos em franquear a imponente vista do lobby com pé-direito duplo para quem chega, bem como promover uma transição mais interativa e amena com o ambiente externo para aqueles que saem do edifício.

A fachada do embasamento recebeu vidros temperados e laminados Neutral - N41 de 8 milímetros + 3 camadas de PVB INCOLOR + vidro incolor de 8 milímetros. No sistema spider, os vidros maiores de 2.582 milímetros de altura possuem seis pontos de fixação, enquanto os vidros menores possuem apenas quatro pontos.

Para o arquiteto, “a utilização do sistema spider sem montante com vidros incolor contribuiu para reforçar o conceito de transparência e fluidez, fazendo um contraste com a estrutura da pele de vidro reflexivo do corpo da torre”.



Ficha Técnica

Concórdia Corporate
Local Nova Lima (MG)
Cliente Tishman Speyer
Construtora Caparaó Codeme Engenharia
Área do terreno 7.631,67 m²
Área construída 59.217 m²
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2018
Arquitetura Dávila Arquitetura
Paisagismo Escritório Burle Marx
Cálculo estrutural Codeme Engenharia e Bedê Consultoria e Projetos
Projeto geotécnico Consultrix Engenheiros Associados e GEOMEC Engenheiros Consultores
Estrutura metálica Codeme
Consultoria de estrutura e projetos Bedê Engenharia de Estruturas
Consultoria e projeto de fachada B&M Consultoria em Esquadrias e Crescêncio Petrucci Engenharia
Consultoria Leed CTE - Centro de Tecnologia de Edificações
Construção Construtora Caparaó

Fornecedores

Codeme Engenharia (estrutura metálica, laje em steel deck)
Acquasolis Soluções Construtivas (núcleo rígido em concreto)
Proativa Esquadrias e Alumni Esquadrias de Alumínio (esquadrias de alumínio, respectivamente do embasamento e da torre)
Hydro (sistema de alumínio das fachadas)
Itamaracá Design (sistema Spider)
Guardian Glass e Cebrace (vidros, respectivamente do lobby/ lojas e da torre/ embasamento)
ThyssenKrupp (elevadores)
Portobello e Rocca (revestimentos de porcelanato)
Thor Granitos (revestimento de pedras naturais)
Qualieng Engenharia (instalações)
Jam Engenharia
Deca (louças e metais)

Texto de Gilmara Gelinski | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 447
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