FGMF Arquitetos: Casa Marquise, São Paulo

Suavidade no convívio

A marquise que, quase sem tocá-los, conecta os dois blocos onde se acomodam o programa da moradia desenhada pelo escritório FGMF Arquitetos, no bairro de Perdizes, também dá nome ao projeto. O trio de arquitetos que lidera o estúdio contrapõe a suavidade e a transparência do pavimento de convívio, na parte mais elevada do terreno, à densidade do andar inferior, onde se encontra a área íntima.

Um escritório de arquitetura projetar duas casas lindeiras não é tão incomum quando se trata, por um exemplo, de trabalhos para um mesmo proprietário ou encomendas de um único empreendedor. Mais raro, no entanto, é que um profissional contratado para projetar uma moradia seja incumbido, pouco tempo depois e ainda sem as obras da primeira terem sido iniciadas, para desenhar a residência de outra família (com a qual aquela não tem relação de parentesco, nem sequer de conhecimento) não só na mesma rua, mas no lote adjacente.

A coincidência se deu com a equipe do FGMF Arquitetos, talentoso escritório paulistano, em casas edificadas em Perdizes, bairro da zona oeste paulistana, na rua Guaçu, cujo traçado assemelha‑ se ao desenho de uma ferradura com terrenos caracterizados pelo relevo em desnível. A primeira residência foi a casa Marquise, seguida pela casa Matos (também recém-concluída). O que fica evidente nas intervenções é a sensibilidade dos autores ao interpretar de forma distinta e inventiva tanto o perfil das famílias (com filhos já crescidos, na casa Marquise) como a sutileza das variações das vistas posteriores.

Composto por dois lotes, o terreno original permaneceu longo tempo em posse de um empreendedor, que não conseguiu viabilizar uma construção (comenta-se que seria um edifício, cuja implantação foi dificultada pela reação dos vizinhos) e depois negociou-o com os atuais proprietários. A casa Marquise, conforme relata Lourenço Gimenes (o G do nome do estúdio), foi desenhada para um casal mais maduro, que possui, portanto, expectativas de vida e de realizações distintas das do vizinho. Para aquele, teoriza o arquiteto, a residência também representa a oportunidade de, mesmo ocasionalmente, reagrupar a família, e isso foi considerado na definição do desenho.

“A casa é simples, sintética”, define Gimenes. Sua implantação é discreta: da rua de acesso, pouco se nota da totalidade da edificação, enxergando-se praticamente apenas a leve marquise/cobertura. Distribuída em um terreno de conformação trapezoidal, com acentuado desnível ao fundo, a residência teve seu programa acomodado em dois blocos na forma de pequenos e leves pavilhões, dispostos nas laterais de um pátio/ uintal/piscina. O  primeiro deles, próximo do acesso (feito por rampa e escada), recebeu a função chamada gourmet, ambiente que reforça no partido a intenção de agrupar. 

Já o segundo bloco, posicionado na fração intermediária do terreno, tem dimensão maior e possui dois pavimentos. Em metade de seu piso superior estão as áreas sociais e de convívio; no restante ficam cozinha e serviços. Nesse patamar, a leveza e a transparência prevalecem na linguagem não como se o interior se prolongasse em direção ao meio externo, mas como se a ambiência interna fosse o exterior coberto. A  parte posterior abre-se para a copa das árvores. No térreo, onde se alinham os dormitórios, a composição é densa e as aberturas parecem escavadas num monólito; o jardim externo não pode ser acessado diretamente a partir dos quartos.

A conexão entre os dois pavilhões se faz pela cobertura na forma de uma extensa e suave marquise, constituída por colunas metálicas e coberta com painel estrutural de madeira revestido por manta termoplástica que também tem função impermeabilizadora. Essa marquise percorre uma das laterais do lote, e, tocando levemente os pontos de apoio, reforça a sensação de leveza do projeto.

  
FGMF Arquitetos

Constituído em 1999, FGMF Arquitetos tem como sócios Fernando Forte (FAU/USP, 2002), Lourenço Gimenes (FAU/USP, 2001) e Rodrigo Marcondes Ferraz (FAU/USP, 2001). Um dos mais laureados escritórios de arquitetura do país, nessa década e meia de existência sua coleção de prêmios, por projetos de diferentes escalas, aproxima-se da primeira centena



Ficha Técnica

Casa Marquise
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2013
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 812 m2
Área construída 473 m2
Arquitetura FGMF Arquitetos  - Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, (autores); Ana Paula Barbosa, Gabriel Mota, Luciana Bacin, Marília Caetano e Sônia Gouveia (coordenadores); Carmem Procópio, Caroline Endo, Mariana Schmidt, Talita Gomes e Thyene Schmidt (colaboradores); Fernanda Silva, Gabriela Santoro, Henrique Abduch, Luiz Henrique Falavigna, Patrícia Gonsalves e Rodrigo de Moura (estagiários)
Estrutura Stec do Brasil
Hidráulica e elétrica Ramoska e  Castellani
Painel de ladrilho hidráulico Fábio  Flaks
Painel de revestimento em madeira Marcenaria PJ
Paisagismo Rodrigo Oliveira  Paisagismo
Construção Foz
Fotos Rafaela Netto

Fornecedores

Deca, Decor Banho (louças e metais)
Reka, Lumini, Arquitetura da Luz (luminárias)
PedraCor (pedras)
Lehe (box e espelhos)
Construflama (lareira)
Inox Grill (churrasqueira)
Maná Eletro, AABB (acabamentos elétricos)
Asistec (ar-condicionado)
Inovar, Solar Lux (caixilhos e esquadrias)
Bricolagem Brasil (revestimento cimentício)
Serralheria Pompeia, Forchela (serralheria)
Gasômetro Muller (deque e piso de madeira)
Cubos Carlisle (impermeabilização da cobertura)
Portobello (porcelanatos)
Aquece Shop (sistemas de aquecimento e hidráulicos)
Regatec (sistema de irrigação)
Mr. Cryll Bricolagem Brasil (pintura cimentícia)
Sial Telecom (automação, áudio e vídeo)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 427
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora