PERFIL: Dal Pian Arquitetos

Arquitetura para longa permanência

Vencedores de concurso fechado promovido pela Natura em 2011, os arquitetos Lilian e Renato Dal Pian são os autores do projeto do NASP - Sede Natura São Paulo, inaugurada em agosto deste ano. Vizinho a um dos Centros de Distribuição da empresa, no bairro Vila Anastácio (predominantemente industrial), o edifício tira partido da localização na borda leste do terreno, onde há rara reminiscência de mata atlântica

O CD, concluído em 2014, ocupa grande parte do lote, a mais plana e distanciada da face voltada para a rodovia. Por ocasião do concurso, já se sabia da sua magnitude e posicionamento. Para a nova edificação, objeto do certame, a intenção da empresa era abrigar os funcionários que trabalhavam em escritórios dispersos por São Paulo, inclusive na fábrica projetada em 2001 por Roberto Loeb.

O edital considerava cerca de 2 mil pessoas, número ajustado para os aproximadamente 1,6 mil abrigados atualmente no NASP. Há dois acessos ao complexo, um de carga (na cota rebaixada, ou seja, a mesma do CD) e outro de veículos, este posicionado próximo à rodovia. O desnível entre eles é de 10 metros, aos quais se somam os 15 metros de gabarito permitido para o lote, segundo a legislação urbanística (ZPI 03).

Tem-se, então, da somatória de ambos, a altura da edificação, cujo térreo (elevado) coincide com a cota da entrada social e funciona como meio de conexão entre duas zonas setorizadas verticalmente: os três pavimentos superiores e os dois inferiores. Na primeira delas, há o núcleo corporativo principal, enquanto que, na segunda, os escritórios dividem espaço com programa variado: auditório, cozinha industrial, restaurante. O térreo, nesse sentido, é uma grande praça de recepção e estar, cercada por espelho d’água e jardins, em meio aos quais há salas expositivas sobre a história e valores institucionais da Natura, bem como dos produtos que a empresa produz e comercializa.

Se a altura resulta de uma condicionante legal, a largura da edificação corresponde ao princípio de a arquitetura se adequar à geografia do lote e preservar a vegetação, quase toda ela distribuída ao longo dos taludes existentes entre a zona elevada e o platô do CD. Assim, embora próximo das árvores, o edifício as deixa intactas, criando uma relação de proximidade e acolhimento que é definidora do projeto.

A partir da área de implantação, definiu-se a malha estrutural - pilares circulares de concreto e lajes do tipo cubeta - com vãos de 12,5 metros, correspondentes a dez vezes o módulo que os arquitetos costumam utilizar em seus projetos (1,25 metros), que, segundo eles, se ajusta convenientemente às dimensões de caixilhos, vidros, forros, entre outros componentes dos interiores.

A única exceção é o vão maior no eixo transversal, totalizando 16,25 metros. Essa zona central do edifício acomoda, assim, um vazio que perpassa todos os andares, tendo como pano de fundo o espelho d’água do pavimento inferior - coplanar ao piso do CD - e o teto de vidro. Nos dois últimos pavimentos, o vazio cresce em comprimento, de modo a configurar um vão escalonado e ladeado por jardins que, aflorando do piso, acomodam bancos de concreto.

Os grandes vãos estruturais e a sobrecarga dos jardins demandaram a protensão das lajes cubetas que, por incorporarem as vigas em sua espessura, garantiram o pé-direito confortável para os espaços de trabalho (o gabarito era um dos pontos críticos do projeto). Destaca-se ainda nesse miolo da construção o par de elevadores panorâmicos e a escada, aberta, a eles associada, revestida externamente com chapa metálica colorida.

Essa é a alma da arquitetura, ou seja, foi através da generosa iluminação natural e conexão visual entre os andares que os arquitetos traduziram espacialmente a demanda para que se valorizasse a cultura de trabalho da empresa: dinâmica e não hierarquizada. A arquitetura, em outros termos, é adequada ao padrão open space, pontuado por zonas de estar e trabalho colaborativo.

Por detrás da aparente simplicidade espacial, contudo, há um rigoroso entrosamento entre arquitetura e complementares, sobretudo no que diz respeito ao conforto ambiental. Sabia-se que o edifício teria fachadas e cobertura de vidro, a fim de promover a vista do entorno e otimizar a luminosidade interna, mas como minimizar o aquecimento causado pela insolação e como diminuir a intensidade da luz natural incidente?

Em ambos os casos, a resposta foi o uso da dupla pele. Nas fachadas, assim, há por vezes anteparos de vidro paralelos às vedações internas, também transparentes (nas faces leste e oeste, maiores), e, por outras (nas faces norte e sul, menores), brises metálicos horizontais. No teto, por sua vez, a caixilharia é recoberta por placas metálicas perfuradas, que amenizam a incidência da luz criando a agradável luminosidade dos interiores.

Os vidros externos recobrem apenas os três pavimentos superiores - tanto no térreo quanto nos dois andares inferiores, a edificação é recuada e cercada por beirais generosos, cuja área sombreada gera conforto térmico -, o que faz com que a volumetria pareça mais horizontal do que realmente é. O que se vê em destaque, afinal, é o bloco alongado e suspenso do chão, apoiado em pilares redondos que, em certas zonas, se estendem livres das lajes, por quase 14 metros de altura. Esta é de fato uma imagem marcante da arquitetura, ou seja, a do edifício que flutua em meio à vegetação.

Para atender os índices de transmitância e carga térmica desejados, de modo a se preservar o frescor dos interiores, a chapa externa de vidro é serigrafada (o padrão gráfico é pontilhado). Além disso, a chapa apresenta dupla camada - duas lâminas de vidro temperado de 10 milímetros, unidos por película - totalizando 20 milímetros de espessura, medida suficiente para garantir a estabilidade da peça, que conta apenas com quatro pontos de fixação para suas grandes dimensões: 3,60 metros de altura por 1,10 de largura.

O vidro externo está distanciado 1,10 metro dos caixilhos da edificação, conformando uma zona acessível por passadiço metálico (este também atuando como componente do sistema de conforto ambiental) por onde circula o ar quente em direção à cobertura. Tal movimento do ar é ainda favorecido pelas frestas, tanto horizontais quanto verticais, existentes entre as chapas.

Há dois modos de o pedestre acessar a edificação: pelas passarelas que partem dos taludes em direção ao térreo elevado ou, então, coplanar com o piso do CD - cujo mezanino, contudo, tem ligação auxiliar com o NASP, suspensa do chão. O fluxo de acesso prioritário é o primeiro, conformando-se terraços, espelhos d’água e solário para recepcionar o transeunte, enquanto que, para o segundo, há uma rampa aberta, mas coberta, conectando o piso rebaixado com o térreo.

A passarela do solário servirá de acesso às edificações existentes que serão requalificadas para abrigar programa de apoio, como creche e ambulatório, criando-se um núcleo auxiliar junto ao bloco do restaurante, rotacionado em relação ao corpo principal do edifício. Trata-se de uma arquitetura simples na expressividade dos materiais (sobretudo concreto e vidro), mas qualificada pela grande presença de espaços ajardinados, luz natural e vazios, que corroboram a conveniência de se trabalhar em meio à natureza, contrabalançando, assim, o entorno insípido.



Ficha Técnica

Sede Natura São Paulo (NASP)
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2011
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 111.736,00 m²
Área construída 29.700,00 m²

Arquitetura Dal Pian Arquitetos Associados - Lilian Dal Pian, Renato Dal Pian (autores); Carolina Freire (coordenação); Amanda Higuti, Bruno Pimenta, Carolina Fukumoto, Carolina Tobias, Cristiane Sbruzzi, Filomena Piscoletta, Giovana Giosa, Júlio Costa, Lidia Martello, Luis Taboada, Marina Risse, Natalie Tchilian, Paola Meneghetti, Paulo Noguer, Ricardo Rossin, Sabrina Aron, Yuri Chamon (equipe)
Arquitetura de Interiores Athié Wohnrath
Projeto de interiores da recepção Estúdio Penha
Luminotécnica Franco Associados
Paisagismo Sérgio Santanna Paisagismo
Conforto ambiental Chapman (BDSP)
Acústica Harmonia Acústica
Consultoria de esquadrias Crescêncio Consultoria
Certificação LEED CTE
Estrutura Modus Engenharia
Instalações prediais Tesis Engenharia, Interativa
Ar condicionado TR Thérmica
Gerenciamento ARC Controle de Investimentos
Construtora HTB
Fotos Nelson Kon e Pedro Mascaro (drone)

Texto de Adilson Melendez e Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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