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O caso do lago Paranoá

No último século, nosso país discutiu os corpos hídricos urbanos, mas pouco foi efetivado, e grandes e emblemáticos rios viraram estigmas. O país avançou em termos legislativos e na criação de instâncias participativas, como o Comitê de Bacias Hidrográficas, mas mais dinheiro tem sido gasto com consultorias e estudos do que com a efetiva recuperação das águas urbanas.

A sociedade padece da falta de uma visão processual e seus representantes atuam açodados pelo imediatismo das demandas sociais. Mas há casos dos quais se orgulhar, como o do amplo e longo processo de recuperação e revitalização do lago Paranoá, em Brasília.

Menos de 20 anos depois de inaugurado, o lago Paranoá enfrentou uma quase morte, por conta do “regime típico” de utilização de suas águas como mero diluidor de efluentes brutos, mas a sua importância, para além de ser o maior patrimônio paisagístico da cidade que há 30 anos foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, é histórica. Remonta sua concepção à Missão Cruls, que em fins do século XIX escrutinou o território do Planalto Central em busca do melhor sítio para instalação da Nova Capital do país.

Desde o século XVII, já se registrava esse ponto central do país como divisor das águas de três bacias hidrográficas. Diversos projetos para a nova capital foram elaborados na primeira metade do século XX, seguidos do relatório da empresa americana Belcher and Associates, da criação da Novacap e do concurso público nacional para o Plano Piloto de Brasília, vencido por Lucio Costa.

A cidade nasce, então, da competência técnica e da vanguarda artística aliada aos intensos debates políticos em torno da interiorização da capital do país. O sucesso da empreitada em um país de imensas desigualdades regionais fez de Brasília um polo de atração nacional, uma metrópole com mais de 4,4 milhões de habitantes, com a maior renda per capita brasileira, conflitando com desigualdades socioeconômicas já históricas e estruturais.

É nesse contexto que o Projeto Orla Livre (concurso público de masterplan) se insere. O resultado foi anunciado no dia 21 de abril, comemorando o aniversário da cidade e resgatando o espírito de vanguarda e inovação fundadores dessa cidade. Esse projeto de futuro, abrangente e multidisciplinar, visa deixar o grande legado do século XXI no processo de despoluição e revitalização do lago Paranoá e foi reputado pelo ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães, como “o mais importante concurso depois daquele de Brasília”.

O projeto vencedor - concebido pelo Estúdio 41 Arquitetura – e demais participantes fizeram jus àquela capacidade técnica e artística que conferiram a importância urbanística e paisagística do projeto de Lucio Costa, Patrimônio Cultural da Humanidade, apontado pelo júri como de “alto nível do conjunto das propostas apresentadas frente à complexidade e amplitude do tema”.

Que sua execução possa coroar o processo que se iniciou no século XVIII, passou pelo concurso para o Plano Piloto de Brasília em 1957, e seguiu rumo à despoluição do lago Paranoá em Brasília ainda nos anos 1970.


Thiago Teixeira de Andrade é diretor da Secretaria de Gestão do Território e Habitação do Distrito Federal

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 443
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