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Ao vencedor, as dúvidas

Que os concursos de arquitetura no Brasil estão em crise sabemos todos. A novidade é a forma como o ciclo de debates Perspectivas da Arquitetura, que ocorreu no Instituto de Arquitetos do Brasil - São Paulo (IAB‑SP) até 8 de maio, procurou explorar as forças disciplinares que contribuem para essa crise.

Analisando os componentes dos concursos - editais e termos de referência, júri, crítica e a produção dos escritórios -, pretendeu focalizar o que é intrínseco à profissão. Afinal, se tivéssemos um ambiente de plena valorização do arquiteto com editais perfeitamente redigidos, garantiríamos bons resultados? Ou melhor, teríamos como certa a perspectiva da diversidade, criatividade e inovação que tanto clamam os editais? Pois é notável como todos parecem acreditar que a simples multiplicação do número de concursos seria suficiente para estimular bons resultados e boa arquitetura na cidade.

O ponto que as mesas pretenderam levantar foi exatamente o de que o concurso não é uma questão prioritariamente quantitativa e que, em termos de qualidade, não estamos indo muito melhor. O que é palpável é que a crise da arquitetura é ampla, e que o marasmo que vemos nas soluções premiadas (leia-se, o da caixa de concreto com brise móvel e piloti redondo) apenas indica como uma insistência em soluções formais deriva de um ethos moderno desnutrido e fragiliza nossa capacidade de enfrentar os problemas colocados pelo novo século.

Se no primeiro dia de debate pudemos notar certa resistência do público em aceitar a inovação como valor positivo, no segundo, a incompreensão permaneceu e foi aprofundada, mas dessa vez pela mesa. Ao fim e ao cabo, quando o tema era de fato aquele a ser debatido – o do peso da tradição, pela última mesa – pouco foi dito sobre isso. Cabe destacar uma colocação muito feliz de Héctor Vigliecca, que diferenciou tradição de modus operandi, acreditando que no Brasil o que temos não passa do segundo caso.

No geral, foi possível identificar dois medos: o do retorno à ideia de genialidade, ao focarmos na inovação como virtude almejada; e o do concurso estar sendo colocado em risco pela própria disciplina, quando foi dito que é sempre melhor um projeto de concurso do que nada.

Em um cenário de recrudescimento das forças conservadoras, não é tempo de triplicar as apostas em soluções dadas, como se a culpa de nossa crise fosse apenas motivada por um Estado falido ou por uma sociedade culturalmente insensível às nossas questões.

Cabe-nos perguntar se é sábio insistir nas mesmas respostas procurando resultados diferentes. Talvez o caminho seja fomentar uma crise disciplinar no melhor sentido do termo, quer seja o da crítica, e, nesse cenário de instabilidade, fazer florescer novos caminhos.


Jaime Solares Carmona é arquiteto e urbanista, mestrando em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU/USP. Participa do GT sobre concurso de arquitetura no Brasil, abrigado pelo IAB-SP, e escreve sobre arquitetura em seu site ensaioscriticos.net.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 443
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