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Boldarini Arquitetura e Urbanismo: Parque
Cantinho do Céu

Intervenção na orla da represa abre vista para a paisagem

Desenhado pelo escritório Boldarini Arquitetura e Urbanismo, o parque Cantinho do Céu, no Grajaú, no extremo sul de São Paulo, vai se estender por sete quilômetros na margem da represa Billings, um dos reservatórios que abastece a capital paulista. O equipamento é parte do projeto de urbanização da região, uma forma de desencorajar a reocupação da orla e conscientizar a comunidade da paisagem que a envolve.

Fichas técnicas
Fornecedores

A carência de espaços de lazer nas proximidades fez com que a população rapidamente se apropriasse do espaço
A carência de espaços de lazer nas proximidades fez com que a população rapidamente se apropriasse do espaço
Intervenção na orla da represa abre vista para a paisagem
Desenhado pelo escritório Boldarini Arquitetura e Urbanismo, o parque Cantinho do Céu, no Grajaú, no extremo sul de São Paulo, vai se estender por sete quilômetros na margem da represa Billings, um dos reservatórios que abastece a capital paulista. O equipamento é parte do projeto de urbanização da região, uma forma de desencorajar a reocupação da orla e conscientizar a comunidade da paisagem que a envolve.

Na cinzenta manhã da última terçafeira do mês de setembro [de 2010], dois garotos, vestindo apenas cuecas, banhavam-se nas águas esverdeadas da represa Billings, num de seus braços localizados no Grajaú, onde se implantou a primeira fase do parque Cantinho do Céu, projetado pelos arquitetos Marcos Boldarini e Melissa Matsunaga como parte de um programa municipal para recuperar e conservar a qualidade do reservatório e melhorar as condições de vida da comunidade que ocupa o local.

O parque não estimula o uso da represa para a natação. O odor da água e a camada verde que se deslocava na superfície a cada movimento dos meninos também não.

À sua moda, eles se apropriavam do primeiro trecho concluído daquele equipamento. O mesmo fazia outro grupo de crianças, divertindo-se sobre o deque flutuante que avança alguns metros sobre as águas - este sim um elemento oficialmente incentivador de uso do parque, que está redesenhando aquele trecho da margem da Billings e revelando aos próprios moradores da comunidade Cantinho do Céu os atrativos da paisagem local.

Antes, essa área era ocupada por moradias precárias, que despejavam no reservatório - que abastece parte da capital paulista e cidades do ABC - o esgoto doméstico.

O projeto do parque não traz inovações formais, mas é uma abordagem pouco usual para tratar o problema das ocupações. Seu mérito está, sobretudo, em apostar numa solução alternativa para a situação consolidada e praticamente irreversível das habitações nas áreas de mananciais na capital paulista. Boldarini explica que a estratégia foi voltar as moradias para o reservatório e revelar a natureza à sua frente, valorizando paisagem e comunidade.

Em seu primeiro trecho, cujo acesso se dá pela rua das Andorinhas Brasileiras, o parque possui quadra de futebol com gramado sintético (quase um requinte), pista de skate, praça de equipamentos para exercícios físicos e passarelas para caminhadas, com mirantes que permitem apreciar a vista.

A implantação do projeto se torna ainda mais complexa por causa dos vários tipos de interferência, desde ajustar o desenho de uma passarela para evitar a remoção de uma árvore até contornar a tampa da boca de lobo da rede de esgoto.

Nas peças instaladas no parque (bancos, lixeiras, corrimãos etc.), a preocupação foi além do desenho e buscou produzi-las com materiais mais robustos e duráveis, para dificultar o vandalismo.

O parque Cantinho do Céu é um dos elementos de uma série de intervenções que, de forma genérica, pretendem implantar redes de água e de coleta de esgoto, eliminar áreas de riscos, fazer a drenagem de águas pluviais e estender a coleta de lixo até as comunidades - enfim, transformar locais degradados e de ocupações irregulares em bairros estruturados.

Essas iniciativas fazem parte do programa Mananciais, mantido pela Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) e que conta com a colaboração do governo do estado de São Paulo. O programa, que teve início na metade da década passada, foi retomado em 2005, quando passou a abranger a represa Billings, além da represa do Guarapiranga.

Para a implantação completa do parque, 1,5 mil famílias serão removidas das áreas de risco e da margem, e reassentadas na mesma região, informa a Sehab.

O Cantinho do Céu fica às margens da represa Billings, na região do Grajaú
O Cantinho do Céu fica às margens da represa Billings, na região do Grajaú
O objetivo da intervenção é preservar as áreas de mananciais com soluções que evitem remoções
O objetivo da intervenção é preservar as áreas de mananciais com soluções que evitem remoções
Vista a partir da margem onde foi implantado o parque. As faces cegas das casas voltadas para a represa ganharam painéis coloridos do artista plástico Maurício Adinolfi
Vista a partir da margem onde foi implantado o parque. As faces cegas das casas voltadas para a represa ganharam painéis coloridos do artista plástico Maurício Adinolfi
Acesso ao deque de madeira, com painel de Adinolfi ao fundo
Acesso ao deque de madeira, com painel de Adinolfi ao fundo
O deque de madeira flutua de acordo com o volume de água do reservatório
O deque de madeira flutua de acordo com o volume de água do reservatório
A implantação do parque linear foi possível com a remoção de moradias que estavam muito próximas da margem da represa, em posição que não permitia ligações com a rede de esgoto
A implantação do parque linear foi possível com a remoção de moradias que estavam muito próximas da margem da represa, em posição que não permitia ligações com a rede de esgoto
De acordo com a secretaria, a comunidade ali instalada começou a se estabelecer na década de 1980. Hoje, reúne quase 10 mil famílias em uma área de cerca de 1,5 milhão de metros quadrados.

Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 369 Novembro de 2010

Marcos Boldarini Melissa Matsunaga Marcos Boldarini formou-se pela FAU/Universidade Brás Cubas em 1998. As atividades do escritório que leva seu sobrenome concentram-se em projetos de interesse social.

Melissa Matsunaga formou-se pela Escola de Engenharia da USP/São Carlos e colabora no escritório de Boldarini desde 2008. O projeto do parque Cantinho do Céu é um dos representantes brasileiros na atual edição da Bienal de Arquitetura de Veneza
Campo de futebol com gramado sintético. Quando o parque for concluído, terá sete quilômetros de extensão
Campo de futebol com gramado sintético. Quando o parque for concluído, terá sete quilômetros de extensão
O parque inibe com sutileza a reocupação das margens do reservatório
O parque inibe com sutileza a reocupação das margens do reservatório
Ampliação
Corte
Corte
Corte
Corte

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 369

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