PERFIL

Moradia de religiosos

Biselli & Katchborian Arquitetos Associados: Residência S, Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, em 2008, o escritório Biselli & Katchborian foi incumbido de ampliar a sede de uma congregação católica, provendo dormitórios, escritórios individuais, dependências de serviço e áreas de convívio, um programa que extrapolava a capacidade do sobrado existente no local.

A situação era de todo privilegiada e ao mesmo tempo delicada, tendo em vista que não se tratava de uma casa ou de um lote qualquer (pertencente a Zona de Proteção Ambiental) e sequer de um programa ordinário - isolamento absoluto entre setores era prioridade na encomenda.

Situada na parte alta do Humaitá, na zona sul do Rio de Janeiro, em Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC), a casa existente no terreno foi conhecida como a Mansão dos Nabuco, denominação referente ao fato de nela terem habitado os já falecidos Maria do Carmo Nabuco e José Thomaz Nabuco de Araújo, filho de Joaquim Nabuco.

O histórico de visitantes ilustres como Carlos Lacerda e Fidel Castro, Alberto Guignard, Cândido Portinari e Cícero Dias, da presença de um acervo valioso de mobiliário e objetos de arte (reunidos em leilão em 2003), assim como da participação de arquitetos importantes no desenvolvimento do local - o sobrado foi projetado pelo austríaco Anton Floderer, a capela, de 1958, por Alcides Rocha Miranda em colaboração com Elvin Dubugras e Fernando Cabral Pinto, e os jardins por Roberto Burle Marx - começou a vir à tona quando a casa foi esvaziada e teve início a sua reconfiguração física e de uso.

Frente a tantas particularidades, a primeira estratégia imaginada por Biselli e Katchborian foi concentrar em uma única construção a nova área edificada, partido abandonado, porém, por infringir a legislação: a altura máxima permitida é uma reta inclinada que acompanha o perfil do lote.

O projeto, então, evoluiu para a criação de duas novas construções que gravitam em torno do sobrado existente: uma delas de concreto, à frente (descendo o terreno), e a outra metálica, ao lado, constituindo-se um pátio entre as duas edificações, que preserva e estende até a borda do platô o piso externo feito com blocos de pedra. Para a expansão, assim, uma vez rechaçado o partido inicial, “sobraram as áreas de maior inclinação – que em alguns locais atinge 33%, com uma queda de cerca de 20 metros. Mas o que inicialmente parecia um problema, foi o cerne da solução de usos e fluxos”, assinalam os arquitetos no memorial do projeto, porque o posicionamento disperso das novas construções e em pontos extremos do lote assegura o isolamento entre elas.

A edificação de concreto é destinada sobretudo às dependências de serviço, com exceção do térreo que abriga a cozinha e o ambiente de refeições (voltado para o pátio). Ela tem três pisos que afloram do terreno e se projetam sobre o vazio com balanços, desencontros entre lajes e terraços abertos, além de um quarto piso mais abaixo, por onde ocorre o (novo) acesso secundário ao terreno, existindo ainda um túnel de ligação com a edificação metálica.

Esta, por sua vez, é composta por dormitórios no pavimento superior e por escritórios individuais nos dois andares, estando delimitada, atrás, por uma parte em aclive do terreno - que desemboca no platô da entrada social - e, na frente, pela divisa com outros edifícios do bairro.

Para preservar a piscina existente, os arquitetos restringiram o pavimento térreo à metade da projeção da nova construção e elevaram, sobre a água, o piso por meio da inserção de uma treliça metálica, evidenciando esse esforço construtivo com trechos de piso de vidro.

O projeto, em síntese, opera no sentido de interligar as novas construções com o sobrado - através de um corredor ladeado por elementos vazados no acesso à sala de refeições e de uma passarela metálica que serve de ponte entre as áreas íntimas - mas, em termos compositivos, não existe solução de continuidade.

As novas edificações possuem materialidades distintas e expressam lógicas diversas de projeto, como a suspensão do térreo da edificação residencial por meio de estrutura metálica e a adoção de lajes nervuradas de concreto no bloco de serviços.



Ficha Técnica

Residência S 
Local Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto 2008
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 8.482,20 m2
Área construída 2.983,29 m2
Arquitetura  Biselli & Katchborian Arquitetos Associados - Mario Biselli e Artur Katchborian (autores); Ana Carolina Ferreira Mendes (coordenadora); Cassio Oba Osanai, Fernanda Oliveira Andrade, Luiza Monserrat, Flávia Prata, Andre Biselli Sauaia, Gabriel Cesar e Santos, Amanda Castro, Luciana Conti, Carla Gotardello, Cassia Lopes Moral, Ana Carolina Martins, Hugo Rossini, Camila Grecco, Alexandre Biselli, Fernanda Clua, Paulo Roberto dos Santos Barbosa, Diego Magri (colaboradores)
Construção Baggio e Carvalho Construtora
Fotos Rafael Salim

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 445
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