ArquiTraço Projetos: Urbanização e habitação coletiva, RJ

Integrados ao sítio, prédios mantêm relações de vizinhança

Concentrações urbanas onde, em 2010, viviam cerca de 5 mil pessoas, as favelas Chapéu Mangueira e Babilônia estão localizadas no Morro da Babilônia, na zona sul do Rio de Janeiro. Foi nessas comunidades que o escritório carioca ArquiTraço desenvolveu os projetos de urbanização e de habitações de interesse social, elaborados a partir de diretrizes do programa Morar Carioca - no caso, com um viés da sustentabilidade: o Morar Carioca Verde

No final da década passada, quando a capital fluminense se preparava para receber a Rio + 20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, realizada em 2012) e, na sequência, outros eventos internacionais, como os Jogos Olímpicos de 2016, a prefeitura elegeu as favelas Chapéu da Mangueira e Babilônia para aplicar um projeto piloto que adotasse providências para o que se conceituou como urbanização sustentável.

A escolha deveu-se ao fato de elas estarem situadas próximas a cartões postais da cidade e de grande visibilidade durante os eventos, conforme observa a arquiteta Solange Carvalho, sócia do ArquiTraço, escritório responsável pelos projetos de urbanização e habitação de interesse social lá implantados.

A seleção também levou em consideração, segundo a arquiteta, as obras de urbanização que, anos antes, a Secretaria Municipal de Habitação havia implantado em ambas as comunidades: as intervenções na Chapéu Mangueira foram concluídas, mas as da Babilônia, interrompidas ainda em sua fase inicial.

Foi no processo de escolha de ambas para receber as intervenções que precederiam a Rio +20 que o ArquiTraço foi contratado para adequar os projetos, de modo que a eles fossem incorporadas soluções sustentáveis a serem desenvolvidas no âmbito do Programa Morar Carioca. Essa vertente, estabelecida como projeto piloto, passou a ser denominada Morar Carioca Verde.

O escritório, conta a arquiteta, havia antes se envolvido com as intervenções urbanísticas interrompidas em 2004, então realizadas pelo Programa Bairrinho - lançado em 2010, o Morar Carioca é uma evolução do Programa Favela Bairro, de onde o Bairrinho derivou. Foi a construtora responsável pela retomada das obras de urbanização que contratou o ArquiTraço para aplicar aos projetos conceitos e princípios do Morar Carioca Verde.

O projeto alinhavado pelo ArquiTraço previa a qualificação de vias de serviço, escadarias e a construção de praças, mirantes e equipamentos urbanos com a especificação de materiais sustentáveis como, por exemplo, a pavimentação de becos e escadarias com pisos drenantes, a adoção de mobiliário produzido a partir de materiais recicláveis e a utilização de concreto produzido a partir de borracha reciclada nas vias de serviço.

Porém, naquilo que foi efetivamente implantado, acabaram sendo utilizados materiais convencionais. Nos anos que se seguiram à Rio + 20, o ritmo das obras arrefeceu e a construção de equipamentos urbanos, como o Posto de Orientação Urbanística e Social, sequer foi iniciado.

Embora algo frustrada com esses percalços, a equipe do ArquiTraço observa que, na parte da urbanização, houve importantes avanços em ambas as comunidades - as sócias do escritório citam como exemplo a execução das obras de rede de esgoto e drenagem autônomas com conexões adequadas, condição que contribuiu para reduzir - especialmente na época de chuvas mais intensas - a presença das chamadas “línguas negras” (manchas de esgoto no encontro com as águas do mar) na praia do Leme, que fica relativamente próxima das favelas - o Morro da Babilônia está localizado entre os bairros de Botafogo, Urca, Leme e Copacabana.

No que se refere às habitações de interesse social, o projeto do escritório se efetivou com a implantação de dois conjuntos: o HAB-2 e o HAB-3. As obras do HAB 1, previsto para a Chapéu Mangueira, não foi adiante; e o HAB-3 teve reduzido de quatro para dois o total de pavimentos.

Carvalho conta que os conjuntos foram desenhados de forma a melhor aproveitar a ventilação cruzada e a assegurar mais iluminação natural - para isso foram especificadas janelas com maior dimensão do que as tradicionalmente usadas em prédios dessa tipologia. Os apartamentos também fazem reúso de água e possuem aquecimento solar, além de medidores individuais de consumo de água.

Uma pesquisa realizada por alunos do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, comparando o consumo de energia elétrica de algumas unidades da Babilônia com o de apartamentos do Condomínio Jardim Canário, no Morro do Alemão, mostrou redução significativa no consumo das primeiras.

Para as sócias do ArquiTraço, mais que os materiais aplicados, foram as soluções projetuais aplicadas nos conjuntos que os tornaram sustentáveis. Elas avaliam que a tipologia do edifício multifamiliar de pequeno porte, bem integrado ao sítio e à favela, tornou-se mais sustentável por preservar as relações de vizinhança existentes e que, assim, poderia servir de modelo para o Programa Minha Casa, Minha Vida.

  

ArquiTraço Projetos

Fundado em 1994, o escritório ArquiTraço Projetos tem como sócias as arquitetas Daniela Engel Aduan Javoski, Solange Carvalho e Tatiana Terry, todas formadas em 1994 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O escritório atua em projetos urbanísticos, de saneamento e habitação social, sobretudo em áreas de vulnerabilidade social



Ficha Técnica

Reurbanização e habitação de interesse social nas Favelas Babilônia e Chapéu Mangueira/Programa Morar Carioca Verde
Local Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto 2011
Conclusão (parcial) da obra 2013
Área da intervenção (urbanização) Babilônia, 90.470 m²; Chapéu Mangueira, 35.230m²
Área do terreno (edifício HAB-02) 552,35 m²
Área construída (edifício HAB-02) 921,52 m²
Arquitetura e urbanismo ArquiTraço Projetos - Daniela Engel Aduan Javoski, Solange Carvalho, Tatiana Terry (autoras); Laure Marchand Santana, Amanda Arcuri, Emerson Mendes dos Santos, Paulo José da Silva Jr. (equipe); Felipe Moulin, Wallacy Coelho (estagiários)
Infraestrutura e instalações Prediais Sanetech
Sistema de aquecimento solar Cooperação Alemã para o Desenvolvimento, por meio da GeselIschaft für Internationale Entwicklung (GIZ) GmbH - Hans Rauschmayer e Mauro Lerer (consultores) e Ricardo Külheim (coordenador pela GIZ)
Estrutura e fundações JC Filizola Engenharia
Estrutura viária News Consultoria
Contenções Terra e Engenharia
Construção Dimensional Engenharia
Fotos Joana França

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 4461
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