Andrade Morettin Arquitetos: Edifício residencial POP Madalena, São Paulo

Cromatismo em movimento

A efusiva composição cromática expressa nos brises do POP Madalena é um dos detalhes arquitetônicos interessantes no edifício de apartamentos projetado pelo escritório Andrade Morettin, na zona oeste paulistana. O programa, que concilia áreas comerciais nos térreos e moradia nos pisos superiores, antecipou, de certa maneira, diretrizes que seriam incorporadas ao Plano Diretor da capital.

Um recorte da variação topográfica que caracteriza São Paulo está presente na Vila Madalena e no seu entorno imediato, na zona oeste da capital. Desníveis que chegam a 20 metros entre vias próximas são condições com as quais os arquitetos têm que lidar ao desenvolver projetos para aquela região. É nesse bairro - notório especialmente a partir da década de 1970, quando universitários ali fixaram residência em razão da proximidade com os campi da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica - que foi construída a maior parte dos edifícios da Idea!Zarvos, desde a época em que ela se chamava Movimento 1. A incorporadora se destacou ao ocupar um segmento do mercado imobiliário no qual a arquitetura é tratada de forma zelosa e considerada elemento que soma valor ao empreendimento.

Uma das mais recentes realizações que a empresa concluiu no perímetro da Vila é o POP Madalena. Trata-se de um edifício de apartamentos com unidades que medem de aproximadamente 50 a pouco mais de 250 metros quadrados (na cobertura), contando ainda com áreas comuns e comerciais em suas duas faces térreas. A Idea!Zarvos menciona entre os diferenciais do empreendimento a piscina com 25 metros de raia, a academia e a sauna, e assegura ser ele o primeiro de seus produtos a incluir espaço compartilhado para trabalho e reuniões.

O escritório Andrade Morettin Arquitetos é o autor da original arquitetura da edificação, que tem acesso pela rua Madalena, mas também possui frente para a rua Simpatia, numa cota mais baixa destinada a espaços comerciais. O POP Madalena é o quarto edifício - e o terceiro residencial - desenhado pela equipe de Marcelo Morettin, Vinícius Andrade, Marcelo Maia Rosa e Renata Andrulis para a Idea!Zarvos. Assim como seus antecessores - os prédios de apartamentos da rua Aimberê (leia PROJETOdesign 353, julho de 2009) e Fidalga 772, além conjunto comercial Box 298 (PROJETOdesign 360, fevereiro de 2010) -, é uma obra de exceção, na qual se percebe uma reflexão mais aprofundada sobre o projeto e suas repercussões no entorno, o que também distingue a trajetória do escritório em programas distintos. No POP Madalena ela é visível tanto pela implantação, que se amolda a uma topografia com 16 metros de desnível entre as ruas Madalena (a cota mais alta) e Simpatia (em trecho mais estreito), como pela plasticidade provocativa e invulgar também do ponto de vista cromático.

O projeto teve início em 2011 e foi, de certa maneira, precursor de diretrizes que seriam adotadas pelo Plano Diretor da capital paulista aprovado em 2014, observa Vinícius Andrade.

O PD estimula a ocupação dos pavimentos térreos dos edifícios de apartamentos com espaços comerciais ou de serviços e incentiva a criação das chamadas fachadas ativas - ironicamente, porém, pondera o arquiteto, no caso da Vila Madalena, se o projeto fosse submetido às atuais regras do plano, as soluções não teriam sido liberadas. O fato de o terreno possuir frentes para duas vias definiu a implantação na forma aproximada de um J, ajustada à conformação dos lotes vizinhos.

A composição parte de um embasamento mais estreito, voltado para a rua Simpatia e reservado a espaços comerciais, acima do qual há um piso vazado e sobre este a academia e a piscina, já junto à cota do térreo na rua Madalena.

Uma segunda base, mais larga porém menos extensa, é ocupada pelas garagens. Sobre essa base bipartida, o arranjo do pavimento térreo de pé-direito duplo é um dos itens mais interessantes do projeto: ao deixá-lo o mais permeável possível, praticamente em pilotis, o desenho amplia a vista da vizinhança a partir da rua Madalena, configurando nesse patamar uma espécie de mirante. Ele revela ainda parte da solução estrutural: ao lado da raia, sobre a qual há uma escultura em forma de baleia, do artista plástico João Nitsche, estão visíveis três pares de pilares de concreto que sustentam essa ala. Na outra fração do térreo foram alocados o espaço de uso comum e, à sua direita, um segundo ponto comercial.

Desse pavimento incomum, erguem-se as torres de apartamentos na forma de duas lâminas que se tangenciam pela circulação vertical. A vedação é predominantemente em vidro, intercalada com chapas metálicas onduladas de tom prateado. A horizontalidade dos tetos/pisos dos andares é sutilmente demarcada pelo concreto aparente de suas estruturas, que se projetam nas áreas das varandas com guarda-corpos de telas alambradas. Elemento plástico marcante nessa volumetria são os brises móveis, de chapas metálicas onduladas e perfuradas, que podem ser deslocados pelo morador para obter mais ou menos luz nas áreas sociais internas (os autores já haviam utilizado esse recurso no Box 298). A combinação de cores dos brises, definida por Nitsche, traz identidade única à edificação e pode ser considerada uma faceta da arte urbana. É também o componente que faz com que, a cada momento, a partir da movimentação, o POP Madalena tenha um rosto mutante.

 

 

Andrade Morettin Arquitetos

Constituído a partir da bem-sucedida participação em concursos de arquitetura, por Vinícius Andrade (FAU/USP, 1992) e Marcelo Morettin (FAU/USP, 1991), o escritório Andrade Morettin Arquitetos, que completará 20 anos em 2017, incorporou à sua estrutura societária em anos mais recentes Marcelo Maia Rosa (FAU/Mackenzie, 2005) e Renata Andrulis (FAU/USP, 2004)



Ficha Técnica

POP Madalena
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 1.532 m²
Área construída 7.682 m²
Arquitetura Andrade Morettin Arquitetos - Vinícius Andrade, Marcelo Morettin, Marcelo Maia Rosa e Renata Andrulis (autores); Guido Otero (coordenador)
Paisagismo André Paoliello
Luminotécnica Estúdio Carlos Fortes Luz + Design
Estrutura Gama Z
Fundações Apoio
Elétrica Ramoska Castellani
Hidráulica Criarq
Aquecimento Chaguri Consult
Ar condicionado Contractors
Construção R. Yazbek - Diego Angelim (gerente de obra)
Comunicação visual Nitsche Arquitetos
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Viva Vista (brises, esquadrias e janelas)
Supermix (concreto)
Atlas Schindler (elevadores)
Trato (estruturas)
Axial (fachadas)
Apoio (forros)
Geofix (fundações)
Coberplan (impermeabilização)
Lumini, Alloy, PJ Elétrica (lâmpadas e luminárias)
Cimino (mármores e granitos)
Kits Aero (portas)
Suvinil (tintas)
Ecotherm (ventilação e ar‑condicionado)
Glassec (vidros)
Perfilor (telhas)
Concresteel (piso externo e circulação)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 429
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