Arquitetura em função do clima

SuperLimão Studio: Toca do Urso, Ribeirão Preto, SP

Caracterizada pela alta temperatura e topografia que desfavorece a ventilação natural, a cidade de Ribeirão Preto, São Paulo, recebeu o novo estabelecimento, em forma de caverna, da cervejaria Colorado – produção nativa do mesmo local. A Toca do Urso é resultado, portanto, de escolhas construtivas que amplificam o conforto térmico e reduzem, quase que em totalidade, o uso de técnicas ativas de condicionamento

Inaugurada ainda em 2017, em sua cidade natal, Ribeirão Preto (SP), a Cervejaria Colorado ganhou a Toca do Urso: loja física da marca que simula uma caverna não somente por remeter ao formato característico, mas também pelo conforto térmico que reproduz. Bem em frente à fábrica de cervejas, o terreno, anteriormente usado como estacionamento, passou a abrigar o estabelecimento, que se aproveitou de elementos naturais pré-existentes - como é o caso das duas grandes árvores – como colaboradores para atingir eficiência térmica do projeto.

Por estar em uma região muito quente e pouco ventilada, o projeto do SuperLimão Studio lançou mão de diversas técnicas vernaculares e passivas para recriar o microclima agradável e minimizar, quase que em totalidade, técnicas ativas de condicionamento. O conceito conseguiu diminuir 15°C na temperatura interna de maneira passiva.

A construção assumiu então forma circular semi-enterrada a 1,5 metro no solo e todo o manejo de terra resultante foi reaproveitado para criar taludes de três metros em torno do salão central. O formato também permitiu com que a estrutura dos taludes fosse suportada através de aduelas de concreto pré-fabricadas (normalmente utilizadas para canalização de corrégos) e muros de gabião valorizando, inclusive, técnicas de baixo custo que diminuíram desperdício e valorizaram mão-de-obra e matéria prima locais.

Tal técnica, somada à materialidade das paredes de gabião, foram estratégias para diminuir a inércia térmica nas vedações verticais e proporcionar o efeito “caverna” no interior dos ambientes, mesmo quando em sua lotação máxima (150 pessoas).

Já a cobertura, em formato de asa e inspirada nas construções islâmicas, recebeu claraboias para que a circulação de ar fosse conduzida em qualquer direção e renovada através de ventilação cruzada ou por convecção. Além disso, o ângulo da cobertura auxilia na reflexão do som e o direciona para a área externa, favorecendo também o conforto acústico. Sua materialidade, em telhas sanduíche de poliuretano, configurou estrutura leve feita de vigas de lâminas coladas, diminuindo a profundidade das fundações.

Para colaborar com a eficiência energética, no centro do salão foram construídos um espelho d´água, um conjunto de canais e um piso permeável, por onde todo o retorno da ventilação e ar condicionado passaram a acontecer e, assim, renovar e umidificar o ar. Esse sistema ativo é utilizado apenas em situações de extremo calor.

O projeto possui ainda mínima quantidade de fechamentos, de forma a sempre visualizar os elementos externos de qualquer ponto no interior do salão, como as próprias árvores presentes no entorno - a infraestrutura foi, inclusive, prevista no jardim para futuras expansões.

O projeto buscou incorporar recursos naturais - ventilação natural, bandeja de luz, captadores de vento, umidificação natural, captação e reuso de água, pisos permeáveis – em detrimento ao uso de recursos ativos. Com isso, combateu o desperdício e reaproveitou os materiais, como é o caso das paredes de tijolos que foram assentadas com parte da própria areia inerente do processo de filtragem da cerveja.

A maior parte dos materiais foram adquiridos, no máximo, há 20 km de distância da obra e o jardim constituído por espécies nativas - em sua maioria frutíferas -, que podem ser utilizadas na fabricação das cervejas. O espaço infantil, também reflexo da humanização projetual, é formado por uma horta em labirinto para crianças aprenderem brincando.

Outros itens da construção foram fruto de reaproveitamento. Os barris, por exemplo, assumiram-se como “dutos” do ar-condicionado, principalmente, pela grande capacidade de carga suportada por sua forma, permitindo furar o gabião sem desestabilizá-lo. Os anexos também foram construídos através da reutilização de containers e de um ônibus municipal que circulava na região.



Ficha Técnica

Toca do Urso
Local Ribeirão Preto, SP
Ano 2017
Área 2000 m²
Arquitetura SuperLimão Studio - Lula Gouveia, Thiago Rodrigues, Antonio Carlos Figueira de Mello, Júlia Regis Bittencourt 
Foto Maíra Acayaba

Publicada originalmente em ARCOweb em 27 de Fevereiro de 2019
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora