Pimont Arquitetura: Casa Cacupé, Florianópolis

Sobreposição de volumes nas margens da baía

O bairro Cacupé, em Florianópolis, atrai novos moradores por oferecer paisagem ímpar: de um lado, as encostas dos morros de matas preservadas; do outro, a orla da baía Norte. Residências passaram a formar conglomerados de construções em busca de vistas privilegiadas e o resultado foi um desenho urbano carente de passeios públicos agradáveis e diminuição constante de áreas permeáveis. Com o propósito de aliar cenário local, boa arquitetura e cuidado com o traçado urbano, o escritório Pimont Arquitetura concebeu a Casa Cacupé de maneira singular

A região do Cacupé – bairro que margeia a baía Norte de Florianópolis, em Santa Catarina – nasceu na superfície íngreme da cidade, aos pés das montanhas que configuram o relevo local. Como um subúrbio residencial de baixa densidade, o bairro apresenta uma concentração de condomínios unifamiliares que foram, inicialmente, construídos nas beiras da principal via de acesso ao bairro, a estrada Haroldo Soares Glavan.

Hoje, ao subir as encostas, casas parecem sobrepor-se umas às outras por ocuparem quase a totalidade dos lotes e se implantarem com mínimos recuos, tanto entre si mesmas, quanto em relação à rua. Em busca de belas vistas privativas da baía, cada uma delas teve suas alturas aumentadas e, ao final, o conjunto da obra resultou em passeios públicos áridos e estreitos, com pouco contato entre os próprios vizinhos.

Essa leitura de sítio foi justamente o que norteou a concepção da casa Cacupé, situada no condomínio Villa Marinero, do bairro homônimo à casa. Pouco antes do início da obra, o terreno - adquirido há algum tempo – quase foi vendido pelo casal de clientes após uma construção ser erguida no lote vizinho e passar a obstruir grande parte da vista para a baía.

O projeto do escritório catarinense Pimont Arquitetura decidiu, justamente, incorporar a natureza local e se abrir às calçadas da parte frontal do terreno, sem necessitar de grandes alterações da topografia natural da área. Para tanto, utilizou-se de um volume horizontalizado e de uma simples inversão dos setores da residência.

Para a estrutura, foi escolhida uma mistura de concreto armado e aço, sendo que o segundo material está presente apenas nos pilares de sustentação do bloco suspenso. Em todo o restante do projeto a estrutura é de concreto armado e utiliza-se de tábuas de pinos e painéis lisos de compensado plastificado para áreas onde o concreto aparente assume aspecto rústico.

A implantação se faz de maneira assimétrica no lote e o volume principal ocupa a parcela de menor inclinação. A vantagem foi garantir máxima preservação do terreno e proporcionar mínima área de ocupação, oferencendo grandes porções ajardinadas e permeáveis.

No nível da rua estão os acessos à casa e seu próprio subsolo - isso porque ela foi elevada justamente para garantir vista privilegiada às paisagens ao redor. Para conter os cortes no terreno, o escritório optou por executar cortinas de concreto em todo o contorno do subsolo, que só foi possível graças ao solo firme que permitiu escavação sem contenções provisórias. Algumas rochas foram previamente removidas com a utilização de argamassa expansiva. Além disso, a elevação do volume do casa garantiu uma janela em fita na parte superior da garagem para promover a circulação de ar natural e permanente.

Ao subir as escadas de acesso ao térreo, os moradores (ou visitantes) encontram uma das salas de estar do programa, que segue o conceito de integração à natureza: além da vista direta para a baía, o recorte da sala acompanha o perímetro das pedras naturais do terreno. Nesta área também está o acesso à varanda e área de lazer – composta pela piscina de borda infinita e pelo generoso deque seco. O mesmo pavimento, completamente revestido de madeira Cumaru, também é composto por duas suítes.

Já o pavimento seguinte – um grande bloco de concreto aparente - é resultante do conceito contemporâneo de integração entre os ambientes. A planta livre abriga a segunda sala de estar – que desta vez é acompanhada pelo ambiente de jantar -, cozinha e a suíte do casal. Os espaços de serviço (banheiros, closet, lavanderia e despensa) configuram-se em ambientes mais privativos e ocupam a face leste, visando o aproveitamento da insolação da manhã. Também são complementados por "sheds" voltados ao norte para garantir ventilação permanente e natural.

A mesma fachada recebeu um conjunto de aberturas verticais que proporcionam vista para os morros e possibilitam a ventilação cruzada no pavimento, por se aproveitar da direção dos ventos predominantes na região. Para complementar as técnicas que promovem conforto ambiental no interior da casa, a fachada oeste recebeu um conjunto de telas solares retráteis que sombreiam os ambientes em horários de maior insolação, sem prejudicar a visão para a baía.

Para maximizar a incorporação de recursos naturais ao projeto, na cobertura foram previstos painéis fotovoltaicos que produzem até 80% da energia elétrica consumida pela casa, sendo essa compartilhada com a rede (sistema on-grid) através de um medidor bidirecional. Além disso, coletores solares abastecem o sistema de aquecimento de água e a laje plana é responsável por captar água pluvial que será filtrada, tratada com ozônio e estocada no subsolo para, posteriormente, ser utilizada em toda a casa, exceto no consumo da área da cozinha.



Ficha Técnica

Casa Cacupé
Local Florianópolis, SC
Início do projeto 2016
Conclusão da obra 2018
Área do terreno 542 m²
Área construída total 340 m² (Área do subsolo 67 m², Térreo 118 m², Superior 155 m²
e Piscina 20 m²)

Arquitetura Pimont Arquitetura - Henrique Pimont, Alejandro Ottiz, Fabíola Pinheiro Guimarães Berndt, Mirela Moser, Gabriela Hall Banki, Pedro Borges Osorio (equipe)
Fotos Pedro Caetano e Rafael Bridi

Publicada originalmente em ARCOweb em 04 de Junho de 2018
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