Messina Rivas: Casa Angatuba, São Paulo

De tijolo em tijolo

O sobrado dos anos 1940, muito compartimentado e com áreas separadas conforme a funcionalidade, não atendia às necessidades da nova família de proprietários. A reforma empreendida pelo Messina Rivas estabeleceu usos mais flexíveis e circulações fluidas unindo a moradia de dois volumes. Com passagem pelo escritório do paraguaio Solano Benitez, a dupla de autores ainda fez do tijolo a grande estrela do endereço

Erguida nos anos 1940, momento áureo dos projetos de urbanização do tipo bairro-jardim, a construção no Pacaembu, em São Paulo, reunia inúmeros atrativos para famílias da época: uma tipologia algo inglesa, amplo salão para a escada, closet enorme, edícula - e até galinheiro. Sendo assim, quando os arquitetos do escritório Messina Rivas foram chamados a intervir, prontamente constataram a necessidade de não só atualizar todas as infraestruturas, já bastante comprometidas, como repensar as funcionalidades e mudar a distribuição dos ambientes.

Os dois volumes edificados (bloco principal e anexo) não restavam intactos. E, após três reformas prévias, havia sido eliminada qualquer vegetação da área externa, totalmente impermeabilizada. Para além da necessidade de refazer as instalações de água, esgoto, elétrica - e inserir outras como ar condicionado, por exemplo - Rodrigo Messina e Francisco Rivas consideraram especialmente importante estabelecer uma continuidade - também visual - entre os espaços, capaz de garantir que se enxergasse de um extremo ao outro do terreno comprido. "Pensamos em reforçar o aspecto longitudinal da edificação implantada em um lote estreito e longo de modo que alguém na entrada da casa avistasse os fundos, o olhar atravessando inúmeros ambientes. E isso teria de ocorrer também no andar superior", explica Rodrigo, que cita ainda como importante nesse contexto rebaixar os muros a fim de avistar o lado de fora, onde desponta a paisagem do bairro com suas colinas íngremes e vegetação densa.

A solução projetual sobre a qual se debruçaram a partir de então (ilustrada no diagrama no fim desta reportagem) propunha uma nova "mobilidade". Concebia erguer duas estruturas nucleares, cada uma em um dos blocos - principal e edícula -, para articular vertical e horizontalmente a circulação e a disposição dos espaços. Ou seja: um corpo contendo as escadas, em torno do qual os ambientes seriam organizados; corredores e passarela interligando os volumes da residência.

Essa ideia ajustou-se ao programa de necessidades dos futuros moradores - um casal mais três pessoas, com intenção expressa de reunir a família numerosa no novo endereço - e determinou a manutenção da edícula à parte, pronta para funcionar no futuro como o apartamento separado de algum integrante. "Quisemos estabelecer uma certa ambiguidade, que aparece no jogo entre unir e separar as partes do sobrado, como se lançássemos a seguinte pergunta: aqui há uma casa apenas ou são duas?", diz Rodrigo. A ambiguidade também orientou as escolhas que imprimiram identidade ao projeto, calculadas para que não fosse possível distinguir claramente entre o que é antigo e novo, nem localizar o imóvel, uma vez renovado, no tempo ou quanto ao estilo. "A casa envelheceu bem, não fazia sentido alterá-la completamente. Ainda mais porque a intervenção cautelosa que planejávamos estava de acordo com os desejos dos clientes", continua o arquiteto.

O passo seguinte, alinhado com o caminho trilhado, foi experimentar no campo das materialidades. Um exame preliminar no canteiro de obras havia revelado que a edificação original era inteiramente feita de tijolos de barro - o que impunha reforçar as estruturas quando chegada a hora de derrubar as paredes internas. Mas também possibilitava aproveitar as peças obtidas durante a demolição para compor as divisórias que subiriam. Assim aconteceu: com exemplares quebrados, fizeram-se os armários/divisórias que envolvem os pilares de cada núcleo central, nos dois volumes da casa. No andar superior, tijolos recuperados inteiros compuseram as alvenarias. Na mesma lógica, também optou-se por descascar o acabamento externo existente, deixando à mostra os blocos cerâmicos que, com o passar do tempo, ganharão coloração variada - reforçando a ambiguidade quanto à idade do imóvel.

A opção por aplicar o tijolo de barro de várias maneiras requereu dos arquitetos a parceria do engenheiro e do mestre de obras, que trabalharam juntos em busca das melhores respostas e técnicas. O olhar atento para esse material, no entanto, deve muito à passagem dos arquitetos pelo escritório de Solano Benitez, reconhecido pela genialidade no projeto com esse material tradicional e popular. Francisco esteve com o mestre no Paraguai por um ano e meio e Rodrigo por seis meses - o suficiente para desenvolverem no Brasil um pensamento semelhante ao que aprenderam por lá. "A escolha não foi arbitrária. Lá, escolhe-se construir com tijolo por ser algo típico, familiar, econômico e que dispõe de mão-de-obra capacitada. Aqui, neste projeto, também haveria muito material disponível após a demolição. Assim foi tudo se encadeando", explica Francisco.



Ficha Técnica

Casa Angatuba 
Local
 São Paulo (SP) 
Área do terreno 540 m2 
Área construída 340 m2 
Início do projeto 2016
Conclusão da obra 2018

Arquitetura Messina Rivas - Rodrigo Messina e Francisco Rivas (autores) e Guadalupe Sappia (colaboradora)
Equipe Civil Claudia Napchan e Ernensto Freier (Sendo Arquitetura); Eduardo Napchan (Pentágono) 
Mestre de obras Gildo Luiz da Silva
Paisagismo André André Paoliello e Paula Paoliello 
Fotos André Scarpa André Scarpa e Federico Cairoli

Publicada originalmente em ARCOweb em 08 de Maio de 2019
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