Paulo Mendes: Somos arquitetos desde que saímos das cavernas

Em conversa descontraída na II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do CAU/BR, o premiado arquiteto falou sobre variados assuntos, com humor raro e eventual acidez nas críticas ao status quo

Paulo Mendes da Rocha em palestra magna da II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo

“É uma alegria imensa estar na frente de tantos queridos amigos. E um momento extraordinário da cidade do Rio de Janeiro e da vida dos arquitetos”. Assim, Paulo Mendes da Rocha iniciou a segunda palestra magna da II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo, promovida pelo CAU/BR na cidade do Rio de Janeiro.

O premiado arquiteto destacou a importância extraordinária da UIA, que congrega mais de 3 milhões de arquitetos e urbanistas ao redor do globo, e do Congresso Mundial UIA.2020.RIO, que será realizado na cidade carioca dentro de aproximadamente três anos, sob o tema “Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21”. “Foi uma grande conquista nossa ter conseguido trazer o evento”, declarou.

Falando por pouco mais de 15 minutos na abertura de sua apresentação, antes de responder a perguntas, Paulo Mendes fez seu manifesto baseado na educação e na política - dois pilares fundamentais para a evolução da humanidade e das cidades, segundo suas palavras.

“Somos arquitetos desde que decidimos sair das cavernas”, foi a frase que antecedeu uma série de lições proferidas perante o público de mais de 400 arquitetos e urbanistas e estudantes presentes no local. Destacou a importância da educação como forma de conhecimento, desde a primeira infância: “Arquitetos podem influir na educação das crianças nas escolas, usando brinquedos, como uma pipa ou um pião, para estimulá-las a conhecer princípios básicos da física”, exemplificou.

“A política colonial é responsável pelos grandes desastres do mundo. É uma questão mundial e de todos que se consideram humanos. A nossa questão fundamental é ligada à educação e à política”, disse, acrescentando que até hoje os países europeus não sabem o que fazer com suas colônias africanas e americanas. Mendes da Rocha comemorou a independência da classe com a criação do CAU, um poderoso instrumento para levar a palavra dos arquitetos e urbanistas à sociedade, e obter vitórias junto aos governantes.
“Os futuros ministros da cidade deverão ser indicados pelo CAU”, disse ele, complementando o debate visto logo antes de sua palestra, em que foi questionado qual o próximo passo da classe em relação às políticas públicas. “Se a conclusão deste encontro for a revisão crítica da política, já será uma vitória”, acrescentou.

Em seguida ao seu discurso inicial, Paulo Mendes da Rocha respondeu perguntas de Raul Juste Lores, jornalista da Folha de S. Paulo especializado em arquitetura e cidades e autor do livro “São Paulo nas alturas”, que também leu perguntas de internautas e mediou as que foram feitas pelo público presente.

Com o gancho sobre o Ministério das Cidades, Juste Lores questionou Mendes da Rocha sobre os 14 anos de existência da pasta, o que melhorou e quais atribuições o ministério deveria ter. “Criar a pasta não resolve coisa nenhuma. Não foi feito nada até agora. Nem se assumiu responsabilidade alguma. O instrumento é bem-vindo, falta colocar para funcionar”, disse.

Paulo Mendes da Rocha em conversa com o público, mediada pelo jornalista Raul Juste Lores 

Monumentalidade

O prefeito de São Paulo, João Dória, declarou recentemente que faltam ícones arquitetônicos na cidade. Na visão de Paulo Mendes, “a forma mais prática de desmoralizar a arquitetura é produzir edifícios isolados como ícones. As cidades eram feitas como monumentos em 1400. Eis que surge a monumentalidade da cidade. A cidade em si é o monumento. A arquitetura é para ser vivida e não vista”, declarou, em mais uma oportunidade em que arrancou calorosos aplausos da plateia.

“Ganhar prêmios é um inferno”
 
A pergunta clássica, que permeia todas as entrevistas de Paulo há mais de uma década, refere-se aos prêmios obtidos pelo arquiteto nos últimos anos - Prêmio Pritzker em 2006, Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza em 2016, e a Medalha de Ouro do Instituto Britânico de Arquitetos (RIBA). Juste Lores acrescentou um ingrediente importante ao tema: “Ser um arquiteto tão premiado e internacionalmente reconhecido, ajuda na interlocução com governos, mídia e sociedade? Governantes sentem-se pressionados a não parar obras de um Pritzker, ficam mais apreensivos? Ou não estão nem aí?”, perguntou o jornalista.
 
Para supresa geral, a resposta foi rápida e direta: “É um inferno ganhar prêmios. Não serve para nada politicamente, nem na relação com a sociedade e governos. As entidades têm que dar prêmios a cada ano, então eles ficam procurando e acham alguém”, declarou para a plateia que ria da óbvia piada, mas com algum espanto.

Ainda sobre a relação com governos, após perguntas sobre as obras em ritmo lento no Cais das Artes, em Vitória, Espírito Santo, declarou que “a verba existe, e está até sobrando, só está ‘mal empregada’”, fazendo alusão à corrupção, nas entrelinhas de sua fala. Porém, ressaltou que o governador local, contratante da obra, “é um dos poucos estadistas de verdade em nosso país”, lançando um pouco provável nome na disputa presidencial do próximo ano, Paulo Hartung, do PMDB.

Bienal de Arquitetura

“Não faz sentido apenas mostrar projetos e fotos, de dois em dois anos. Mas vale como encontro internacional e troca de informações”, disse Paulo sobre as bienais, alvo de discussão acalorada entre os profissionais e estudantes de arquitetura e urbanismo. “Mas o que as bienais deveriam mostrar à sociedade?”, questionou Raul Juste Lores. Paulo foi sucinto: “Projetos, estudos… as bienais tem curadores, eles é que devem responder a essa questão”. Insistindo no tema, o jornalista questionou o que Mendes da Rocha faria, caso fosse convidado a ser curador da próxima bienal: “Faria uma carta muito gentil, dizendo que não aceito”, finalizou o premiado arquiteto.

Perguntas do público

Na rodada de perguntas do público que acompanhava a palestra online, e também dos profissionais e estudantes presentes, Mendes da Rocha manteve bom humor ao responder de forma descontraída a questões diversas sobre espaços públicos, transporte, as chamadas "casas inteligentes", entre outros assuntos.

O que dizer sobre a ênfase dada a projetos de revalorização de espaços públicos? Pode-se dizer que esta é uma linguagem brasileira? “Em meu ponto de vista não existe espaço privado. Se chama espaço, é público”, declarou.
 
Sobre uma de suas frases famosas, “Tudo é projeto”, que se tornou nome do documentário realizado por sua filha, Paulo disse que esta frase resume a sua formação. “Impossível falar qualquer coisa que não tenha sido projetada, em sua mente, antes. Não há nada que não venha da projeção”, disse, acrescentando que mesmo aquilo que parece não ter projeto, como grande parte das edificações e projetos urbanos brasileiros, também surge de ideias, independente das qualidades das mesmas.

Um internauta, estudante de arquitetura, quis saber o que Mendes da Rocha pensa sobre casas inteligentes”. A resposta veio rápida, como de praxe ao longo da apresentação: “Casa inteligente deve ser um inferno. Prefiro uma casa burra. Casa inteligente, na minha visão, seria uma casa para todos. A contemporânea já é inteligente, tem sistema de esgoto, luz elétrica, não é possível que não seja inteligente. Mas ela que não se meta a besta”, disse, em meio a mais risos do público.
 
E quanto à inovação na arquitetura e urbanismo? Trata-se da arte de criar algo novo, inédito, ou vai além disso, transcende?. Para essas perguntas a resposta foi: “Inovar é tudo o que ainda temos a fazer, nada que está previsto. Muito mais que criar algo novo, inovar é estruturar antigos sonhos da sociedade”.


Mobilidade

Em meio ao debate atual sobre a escolha entre o carro, transporte público ou bicicleta, enquanto continuamos a construir pontes, túneis e condomínios fechados, Mendes da Rocha foi perguntado se a sociedade já se tocou que o preço a pagar é muito alto, ou se apenas os investidores e construtores, bem como o poder público, ainda não entenderam a questão. “O transtorno do carro todos conhecem. O que pouco se comenta é a desmoralização do próprio indivíduo humano, cretino, falando no celular, sozinho, parado no trânsito, carregando um motor à explosão e 800kg de lataria. É uma estupidez tão grande, que o maior mal é a desmoralização do indivíduo, que se torna um idiota. O camarada que utiliza o transporte público tem uma imensa liberdade, um gozo da vida na cidade. Sai do trabalho às seis da tarde, pega o metrô a cada dez minutos, sem nenhuma preocupação. Vai até a esquina, senta para tomar uma cerveja, encontra amigos”, disse.

Questionado sobre quais arquitetos ou obras o inspiram, Mendes da Rocha foi lacônico ao dar apenas um exemplo: a Casa da Música, projetada por Rem Koolhaas para a cidade do Porto, em Portugal. Já sobre as alterações e reformas realizadas em obras de sua autoria, Paulo surpreendeu: “Admito a transformação das cidades e da arquitetura. As cidades e as edificações são mutáveis, inclusive as minhas”.

Sesc 24 de maio

Sua obra mais recente, projetada em conjunto com o escritório MMBB, de Marta Moreira e Milton Braga, também foi abordada durante o bate-papo. O arquiteto reiterou aquilo que já havia sido dito por ele em entrevista concedida à Evelise Grunow, editora executiva da revista PROJETO (leia edição 435, Janeiro/Fevereiro de 2017).

“Para mim, a piscina na cobertura tem uma graça particular. Que são os moleques, office-boys, espirrando água para todos os lados, enquanto os executivos trabalham”, disse em tom sarcástico. “Não era de se esperar uma piscina no centro da cidade. A proposta foi minha, pensei que eles não iam topar, uma carga enorme lá em cima, custo alto. Mas toparam”.

Para encerrar a noite, após quase duas horas na presença do mestre, Haroldo Pinheiro, presidente do CAU/BR, entregou-lhe uma placa metálica em reconhecimento à sua obra e sua força para inspirar diferentes gerações de arquitetos. “Como arquiteto, como professor, como ator importante nas nossas organizações, você é uma referência da nossa profissão e um dos responsáveis pela criação de nosso Conselho. Esta placa é apenas um breve registro do respeito, amizade, carinho e admiração que temos por você”, afirmou.

O primeiro dia de programação completa da Conferência contou ainda com debates entre o jornalista Raul Juste Lores e o físico e cosmólogo Luiz Alberto Oliveira, atual curador do Museu do Amanhã (mantido pela Fundação Roberto Marinho na cidade do Rio de Janeiro), e entre Jorge Abrahão, diretor-geral da Rede Nossa São Paulo e do programa Cidades Sustentáveis e Elisabete França, diretora de Planejamento e Projetos na Companhia de Habitação e Desenvolvimento Urbano do Estado de São Paulo, em substituição ao rapper MV Bill, que não pôde comparecer.

Com programação até 10 de outubro, a Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo conta com transmissão ao vivo, via streaming, pelo site do CAU/BR. Assista e acompanhe todas as notícias do encontro em www.caubr.gov.br.



Publicada originalmente em ARCOweb em 09 de Outubro de 2017
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