Marcos Franchini, Gabriel Castro e Pedro Haruf: Escola Casa Fundamental, Belo Horizonte

Na escola/galpão, praça integra processo de aprendizagem

Intervenção transformou galpão do bairro Castelo em espaço de aprendizagem. Projeto arquitetônico reflete proposta pedagógica diferenciada

Para os fundadores da Casa Fundamental, instituição de ensino infantil e fundamental de Belo Horizonte, a escola deve ser um espaço de “ensino e aprendizagem, do convívio, do debate educacional, do rigor acadêmico, da experimentação pedagógica, das relações mais cuidadosas e gentis”. A sede da escola que os irmãos/educadores Maria Carolina, Thiago e Marina Gabriela Mariano - filhos de uma família que, há quase três décadas, fundou o Instituto Gabriela Leopoldina - constituíram em 2016 deveria, portanto, espelhar tais conceitos.

Coube aos arquitetos Marcos Franchini, Gabriel Castro e Pedro Haruf traduzi-los. O projeto foi elaborado simultâneo à pesquisa educacional que trata a edificação como elemento ativo do processo de ensino/ aprendizagem, conta Franchini, acrescentando ter sido a sede da Casa Fundamental o primeiro projeto institucional que o trio realizou de forma autônoma, embora já tivesse trabalhado em programas semelhantes com profissionais mais experientes. Segundo Franchini, mesmo quando eles informaram aos educadores esse “noviciado”, estes não vacilaram em confiar-lhes o projeto.

O imóvel destinado à sede da Casa Fundamental era originalmente um galpão industrial do Castelo, bairro que fica próximo da Pampulha. Franchini reconhece tratar-se de escolha pouco convencional para receber esse tipo de programa. Observa, no entanto, que o imóvel apresentava características interessantes e convenientes à transformação, como, por exemplo, espaçoso vão-livre, pé-direito significativo e pouca compartimentação. Se possuía atrativos, também apesentava deficiências como condições de temperatura, iluminação e acústica.

A intervenção manteve a aparência externa de galpão industrial. Porém, alterações significativas foram realizadas na estrutura interna do imóvel da rua Castelo de Lisboa, de modo que pudesse receber as instalações da Casa Fundamental – no ano passado, o projeto foi vencedor na premiação de arquitetura do Departamento de Minas Gerais do Instituto de Arquitetos do Brasil, na categoria Edifícios para Fins Religiosos, Atividades Sociais, Institucionais, Culturais e Educativas.

Materiais de vedação foram substituídos por telhas perfuradas e blocos do tipo cobogó, criando aberturas, aumentando áreas de iluminação zenital e realizando jateamento termoacústico por cima do telhado. Perfis laminados de aço como elemento estrutural, painéis compostos de madeira e placas cimentícias no sistema de lajes, paredes em drywall e soluções de marcenaria e serralheria para divisórias e fechamentos verticais foram alguns dos materiais aos quais os arquitetos recorreram para dar forma à escola.

Os fundadores da instituição de ensino também consideram fundamental a integração da escola com o bairro. Nesse sentido, a praça Manoel de Barros - nas proximidades da Casa Fundamental - se presta às atividades externas com os alunos. Mas, além da praça próxima, os alunos contam, no interior do edifício, com uma praça idealizada como continuidade da rua. “A praça interna é o espaço articulador, ambiente de vivência coletiva, socialização, brincadeiras e eventos diversos para a comunidade escolar, assim como vizinhos e habitantes do bairro”, explica Franchini.

A proposta é também diferenciada no sentido de propor elementos inusitados no interior do espaço, como é o caso da circulação vertical - além das convencionais escadas e elevador acessível, um escorregador é um divertido atalho para descer do mezanino ao térreo. Outra dessas “invenções” é a arquibancada, que serve também como palco para reuniões, apresentações artísticas, brincadeiras e atividades de apoio pedagógico.

Já o corredor de acesso às salas do mezanino foi pensado como um balcão de teatro – existe apoio para os pés das crianças que sentam com as pernas entre as barras do guarda-corpo. As salas (para até 20 alunos) são abertas e tem espaço amplo de 70 metros quadrados. “As portas de correr, com lousa branca na face interna, correm por um mesmo trilho variando as formas de acesso à sala ou abrindo completamente”, conta o arquiteto.

Como as peças de mobiliário possuem rodízios, estas podem ser organizadas para várias modalidades de ensino, maneiras variadas de postura e aprendizado. Há tanto os dispositivos que incentivam o trabalho em grupo, as mini arquibancadas, como outras que possibilitam o eventual recolhimento da criança – é o caso do nicho. “Cada sala apresenta sua própria biblioteca, provador de fantasias, pufes, tapete, mesas, espelhos, bancada e pia”, detalha Franchini.

O projeto também se preocupou com os materiais e cores, importantes à percepção sensorial do espaço e da investigação com o uso do corpo. A nova infraestrutura é construída com variedade de materiais e texturas: madeira, cimento, ferro, azulejo serigrafado, fibra de vidro e uma paleta de cores que deixa o espaço convidativo sem estimular com exagero.

Optou-se por deixar as instalações aparentes, assim como aspectos originais do galpão – é caso da textura das paredes em bloco de concreto que foram apenas pintadas. “O piso industrial de marmorite foi recuperado com a raspagem da tinta que o cobria”, informa o autor.

A escolha dos elementos vazados também se deu por seu efeito perceptivo, pois filtra a luz e a projeta de maneiras diferenciadas no ambiente no passar do dia. “A partir da noção pedagógica de pele psíquica, o projeto também se pautou em disponibilizar amplas superfícies e dispositivos que vão receber novas camadas de informação, novas narrativas didáticas construídas com o funcionamento da escola, tanto de resultados e, sobretudo, de processos de aprendizagem”, argumenta o arquiteto.

Embora trabalhando com limites físicos, o projeto conseguiu incluir no galpão/escola uma pequena horta que proporciona às crianças uma experiência pouco comum. “Pra colocar a mão na terra, acompanhar o crescimento das plantas, estabelecer uma relação direta com o alimento”, afirma Franchini. Também por isso, a cozinha possui divisória transparente e bancada acessível para permitir a participação das crianças.



Ficha Técnica

Escola Casa Fundamental
Local Belo Horizonte, MG
Início projeto 2016
Conclusão da obra Setembro 2017
Área do terreno 550 m²
Área construída 865 m²

Arquitetura e interiores Gabriel Castro (Mobio Arquitetura), Marcos Franchini e Pedro Haruf (autores); Gabriel Nardelli (colaborador)
Projeto gráfico Gustavo Magno e Marcelo Dante – Alpendre
Estrutura Antonio Mariano, Mendes Estrutura Metálica
Construção Antonio Mariano
Fotos Gabriel Castro

Fornecedores

Agnaldo Martins (azulejos)
Artemoldados (cobogós de concreto)
Gerdau, Mendes Estrutura (estrutura e pisowall)
Marchi Elevadores (elevador/plataforma)
Knauf, Decorar Divisórias e Forros (forros) 
Therm-Jet (isolamento termoacústico, cobertura em policarbonato)
Loja Elétrica (lâmpadas e luminárias)
Pontual House (mobiliário)
LG (pisos vinílicos) 
Santa Cruz Acabamentos (revestimentos) 
Varejão das Tintas (tintas)
WG Vidros e Box (vidros)

Publicada originalmente em ARCOweb em 02 de Março de 2018
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