Jaime Lerner prega o fim do ego na arquitetura

Em palestra magna de abertura na II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do CAU/BR, no Rio, o profissional apontou soluções para as cidades e o futuro da profissão



“Temos que ter a coragem de fazer coisas simples e imperfeitas. Arquitetura é o compromisso com a simplicidade e a imperfeição. Temos orgulho da nossa constelação de arquitetos-estrelas, mas precisamos mais de arquitetos preocupados com as cidades. Menos egoarquitetos, mais equoarquitetos”. Desta forma, Jaime Lerner abriu o programa da II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), no último sábado (7), em um manifesto sobre as políticas públicas e a profissão do arquiteto urbanista brasileiro.

No que chamou de prepotência da classe, Lerner - indicado em 2010 pela revista Time como um dos pensadores mais influentes do mundo - diz que o arquiteto quer ter todas as respostas antes de agir efetivamente, e que o país precisa de uma agilidade não vista em tempos atuais, reiterando sua admiração pela chamada "acupuntura urbana". “Rapidez é importante. A ideia de acupuntura urbana traz transformações rápidas, com uma atuação pontual que pode criar uma sinergia para melhorar a cidade. Queremos discutir demais, perdemos a oportunidade da mudança”, pontuou.

O enfrentamento à burocracia permeou boa parte da palestra de Lerner, que por três ocasiões foi prefeito de Curitiba e cumpriu dois mandatos como governador, além de ter presidido a União Internacional de Arquitetos (UIA). “Continuamos a postergar ações por uma falsa segurança, dando protagonismo à mediocridade e a uma agenda burocrática, no lugar de criação e conhecimento. Não existe mais ideia, mas sim a barreira que inibe a força da transformação”.



O arquiteto, que completa 80 anos em dezembro, defende três simples passos para que a mudança na vida nas cidades seja efetiva: usar menos o carro, residir perto do trabalho, separar e reciclar o lixo. Na visão do arquiteto, a conta é simples. Contra as “soluções rodoviaristas”, Lerner exemplifica que um carro ocupa aproximadamente 25 metros quadrados na residência, e mais 25 no trabalho de cada proprietário. “Em São Paulo há 5 milhões de carros, vocês podem imaginar o que poderia ser feito se conseguíssemos distribuir melhor esse espaço, para conseguir moradias mais próximas”, disse ele a uma plateia atenta e admirada com o vigor das palavras. Para os “rodoviaristas”, a solução de Jaime Lerner está sempre ao seu lado: uma bengala que passou a utilizar após uma cirurgia na coluna. “Posso bater na cabeça deles com ela”, disse, arrancando risos de todos.

Com essa equação, o ex-presidente da UIA demonstra como se deve trabalhar com moradias de interesse social, trazendo-as para o centro ou para locais com abundante oferta de empregos. Longe do que chama de “Minha Casa Minha Vida, meu fim de mundo”.

Apesar do discurso agressivo contra o automóvel, Lerner entende que este é um processo gradativo e que, eventualmente, alguns deslocamentos necessitem de carro. Por esse motivo, está projetando o menor carro do mundo, segundo ele, com metade das dimensões de um Smart - atualmente um dos menores em produção - na largura e no comprimento. “Sou contra o carro, mas estou desenvolvendo um. Feito com papel cartão, totalmente reciclável, exceto bateria e pneus. Glúten free e zero lactose”, explicou o bem-humorado arquiteto e urbanista.



Jaime Lerner não para. Acaba de finalizar, com o amigo e cineasta Carlos Deiró, o documentário intitulado “Uma história de sonhos”, no qual foram registradas algumas das ideias de Jaime no momento em que foram concebidas, e depois de implantadas. O filme conta, ainda, com cenas do arquiteto respondendo perguntas de seus netos. O filme está sendo negociado com plataformas digitais de  streaming  e deverá ser exibido em breve em algumas salas de cinema nacionais.

Ao fim, Lerner sinaliza que aposta alto nas novas gerações, que possuem “extraordinário talento”. Porém, ressalta que muitos querem mudar algo e se sentem frustrados com a incapacidade perante obstáculos burocráticos, legislativos e políticos. Diz o arquiteto que certa vez alunos o perguntaram sobre a decepção com o curso: “Mas não estão vendo que a nossa profissão é a mais linda? Com o desenho você faz antes, antecipa as coisas”, ele respondeu.

E, ao pensar no desenho, logo veio a lembrança de seu mestre: Oscar Niemeyer. “Venho ao Rio de Janeiro e logo sinto uma saudade imensa de Niemeyer. Fiz arquitetura por influência dele. Nunca esquecerei as lições”. E finalizou com uma frase emprestada de seu inspirador: "A terra é uma poeira no cosmos e nós somos poeira da poeira. Não entendo como tem gente que se acha grandes coisas”.


Palestra marcou abertura oficial da conferência



A palestra de Jaime Lerner foi precedida pela abertura oficial dos trabalhos na II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do CAU/BR. Ao iniciar o programa, o jornalista Paulo Markun, mestre de cerimônias do evento, chamou ao palco o presidente do Conselho, Haroldo Pinheiro, o vice-presidente da UIA para as Américas, Roberto Simon, e o ouvidor-geral do CAU/BR, Sérgio Magalhães, o presidente da Comissão Organizadora do Congresso UIA.2020.RIO, que será sediado na cidade carioca, Augusto Cesar Alves, vice-presidente do CAU/RJ, e representando os CAU/UF, e Cícero Alvarez, presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) e do Colegiado das Entidades de Arquitetura e Urbanismo (Ceau). 

Primeiramente, Sérgio Magalhães saudou o grupo de arquitetos e declarou que a Conferência é um estímulo importante para a realização do Congresso UIA.2020.RIO - "Todos os mundos. Um só mundo. Arquitetura 21", do qual é evento preparatório. Para a realização do encontro internacional, pediu união: “Todas as entidades compartilham a ideia de construir esse caminho até 2020”. “Com a possibilidade de aumentar o diálogo com a sociedade”, acrescentou.

Ideia compartilhada por Cícero Alvarez, que declarou o evento como fundamental para os arquitetos, enquanto profissionais, e para a sociedade. “Nossas ações devem ter compromisso público para termos um congresso melhor e um país melhor para todos. É um momento de união das entidades”.
Por sua vez, Roberto Simon diz que vivemos na quarta revolução industrial, a era digital, e que a realização do Congresso permitirá a entrada em campos novos, buscando soluções sociais, de habitação e desigualdade, via revolução digital. “Esses eventos-teste encontrarão um caminho para a realização do Congresso. Não é sem preocupação com as Américas do Norte, Central e do Sul. Mas temos coisas importantes a solucionar por aqui”, acrescentou, ressaltando que seu trabalho à frente da UIA não se direciona apenas ao Brasil.

Representando a sede da Conferência, o vice-presidente do CAU/RJ, Augusto Cesar Alves, declarou ser “uma honra muito grande sediar essa conferência no Rio”. Na visão dele, os arquitetos e urbanistas devem indicar caminhos para a construção de cidades mais democráticas e sustentáveis.

“É um alegria enorme realizar esse evento no Rio de Janeiro. Vamos debater tecnologia, conhecimento e cultura. Não estamos aqui para discutir entre nós mesmos, discutiremos com a sociedade para resolver os problemas reais”, declarou por último Haroldo Pinheiro. “Essa é a missão do Conselho, o esforço de levar arquitetura e urbanismo para todos. Estamos aqui para discutir arquitetura para a pobreza, sem nenhum outro neologismo, para quem precisa. Quanto mais grave o problema, mais conhecimento e talento são necessários para resolvê-lo”, acrescentou.

Durante seu discurso, Pinheiro rememorou a luta pela criação do CAU, citando também como marcos a Conferência e o Congresso Mundial. “Foi a luta de todos os arquitetos, tendo à frente pessoas ilustres como Jaime Lerner, Oscar Niemeyer, Lelé, Paulo Mendes da Rocha e Ruy Ohtake. Colegas ilustres que se colocaram à frente dos arquitetos e estudantes, demonstrando que já era hora de termos nosso caminho próprio”, lembrando que Lerner, presente na plateia, participou com ele da primeira audiência pública para criação do Conselho, independente e autônomo. Disse ainda acreditar que termina o segundo mandato - após seis anos de gestão - com a certeza de que a classe obteve mais vitórias que derrotas.

Com programação até 10 de outubro, a Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo conta com transmissão ao vivo via streaming, pelo site do CAU/BR.

Publicada originalmente em ARCOweb em 09 de Outubro de 2017
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