Arquitetos Urbanistas: Urbanização e conjuntos habitacionais, São Paulo

Evolução urbana em área de vulnerabilidade

A urbanização da Viela da Paz, na zona oeste de São Paulo, segue diretrizes do escritório Arquitetos Urbanistas | Planejamento e Projetos. Intervenção qualifica e conecta comunidade à cidade formal

O sábado 21 de abril de 2018 foi de solenidade na Viela da Paz, comunidade que fica no Butantã, zona oeste da capital paulista. A presença do prefeito Bruno Covas - que assumira o cargo na administração municipal duas semanas antes - no local, naquele feriado de Tiradentes, devia-se à inauguração de um edifício de apartamentos (o bloco C) com 82 unidades do total de 562 moradias que faz parte do plano de urbanização que, aos poucos, vai dando aspecto de cidade formal àquela ocupação. O projeto urbanístico e arquitetônico da Viela da Paz é do escritório Arquitetos Urbanistas | Planejamento e Projetos, dos sócios Stetson Lareu e Elisangela Canto.

Antes da inauguração, Lareu e Canto estiveram na comunidade por dezenas de vezes, desde quando foram contratados pelo Consórcio BLK Kallas para desenvolver o projeto de urbanização da comunidade. O consórcio foi vencedor da concorrência organizada para formatar a urbanização e contratou o Arquitetos Urbanistas para criar e desenvolver os projetos que se estendem por uma área de aproximadamente 40 mil metros quadrados. A urbanização começou a ser planejada ainda em 2014, quando o prefeito paulistano era Fernando Haddad.

Três anos antes, porém, durante a remoção de parte das famílias que ali residiam, ocorreu um deslizamento na área – a Viela da Paz era classificada pela prefeitura como de extrema vulnerabilidade e em iminente risco de desabamento.

No que se refere à urbanização, o projeto do escritório - que tem sede em São Caetano do Sul, na grande São Paulo – ordenou a pavimentação de vias, organização do sistema viário, abertura de ruas para melhorar o acesso à cidade formal que envolve a área, contenção de encostas, terraplenagem, canalização de um córrego e drenagem da rede de esgoto.

“O projeto de urbanização teve a missão de minimizar o número de remoções, atender o maior número de famílias nas áreas destinadas aos condomínios e contornar o embate de interesses do poder público”, explica Lareu, referindo-se às dificuldades enfrentadas no trabalho. Para o arquiteto, o projeto explora as relações entre público e privado e proporciona espaços de convivência e pequenas centralidades, além de apostar em unidades habitacionais que valorizam a qualidade de vida dos moradores.

De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), a Viela da Paz é cenário de um dos maiores empreendimentos habitacionais do Programa Urbanização de Favelas. No total, serão seis condomínios, de configurações arquitetônicas semelhantes, variando apenas o número de unidades. O bloco B (que, por decisão dos moradores, recebeu posteriormente o nome Plaza Planalto) foi o primeiro a ser concluído, em dezembro de 2016. Mais 46 unidades (o bloco E) devem ser inauguradas no segundo semestre deste ano.

Formado pela Universidade São Judas, Lareu é quase um veterano nesse tipo de projeto. Entre outros, ele participou - junto com a equipe da arquiteta Elisabete França, então na Sehab - do Programa Mananciais, na zona sul paulistana, na década passada, e do projeto de urbanização de várias comunidades carentes na zona leste da capital. Ele explica que a arquitetura dos condomínios da Viela da Paz teve a intenção de oferecer uma habitação econômica, mas que, nem por isso, deixou de oferecer ambientes de qualidade, que fossem sustentáveis e propiciassem boa iluminação e ventilação.

“A edificação tem volumetria simples e possui plantas compactas com espaços diferenciados, como a varanda, por onde se dá a circulação, tornando-se um terceiro ambiente”, descreve o arquiteto. A varanda funciona também como um local de convivência entre os moradores e de contemplação da paisagem. “Além disso, os recuos tornam-se espaços vivos em função da permeabilidade visual entre os apartamentos, apresentando equilíbrio entre altas densidades e composição de gabaritos”, avalia. Todos os blocos possibilitam a circulação e o acesso para deficientes e possuem unidades adaptadas para moradores com necessidades especiais.

Em relação à arquitetura dos conjuntos, é possível notar cuidados em, além de oferecer abrigo, trabalhar certos elementos da composição de forma a conferir maior dignidade aos blocos – e isso se torna evidente ao compará-los, por exemplo, com a insignificância da arquitetura de empreendimentos privados vizinhos. Lareu explica também que o estudo cromático acompanha a articulação entre horizontalidade e verticalidade e as cores fortes propostas contrastam na paisagem e têm maior durabilidade, mantendo-se vivas mesmo após anos de uso.

Os conjuntos adotam o sistema estrutural exigido pelo poder público, que estabelece a alvenaria em blocos estruturais. Embora a considere determinante para a arquitetura, Lareu pondera que a boa prática aplicada em outros conjuntos, aliada à experiência dos consultores de estrutura e de instalações, possibilitou um pouco mais de ousadia na proposta arquitetônica. No acabamento dos conjuntos o projeto especificou o sistema de monocapa. “O material apresenta como principais vantagens a produtividade e a possibilidade de ser empregado sem a aplicação de outro acabamento”, assegura o autor.

O arquiteto observa, porém, que a monocapa possui espessura de apenas 15 mm, o que requer um controle muito mais efetivo na execução da estrutura e das alvenarias. A caixilharia dos prédios é de alumínio com pintura eletrostática. “Além do design, aparência, longevidade, durabilidade, isolamento térmico e acústico, os sistemas em alumínio oferecem opções para personalização dos projetos. Para o projeto do Viela da Paz, utilizamos duas cores: a preta para os pavimentos-tipo e a branca para o nível inferior (área de contemplação), evidenciando o volume superior”, detalha o sócio do Arquitetos Urbanistas.



Ficha Técnica

Comunidade Viela da Paz

Local São Paulo, SP
Início do projeto 2014 
Conclusão da obra 2016 (Condomínio B); 2018 (Condomínio C)
Área do terreno 2528,80 m2 (Condomínio B); 1956,54 m² (Condomínio C)
Área construída 5434,57 m2 (Condomínio B); 3996,16 m² (Condomínio C) 
Número de unidades 96 (Condomínio B); 82 (Condomínio C)
Total de unidades 562 (Condomínios A1, A2, B, C, D e E)

Arquitetura e urbanização
Arquitetos Urbanistas | Planejamento e Projetos – Stetson Lareu e Elisangela Canto (autores); Débora Onishi, Jorge Abade, Sergio Faraulo, Gabriela Smania, Daniela Ghiachini e Bruno Botter (equipe)
Paisagismo Isabella Ventura (Condomínio B); Consórcio BLK Kallas (Condomínio C)
Estudo Cromático Arquitetos Urbanistas | Planejamento e Projetos e equipe técnica Sehab 
Estrutura RF Engenharia 
Fundações Geobrax Engenharia e RF Engenharia
Elétrica DMA Engenharia Projetos e Instalações Elétricas
Hidráulica HProj Planejamento e Projetos
Contenções Geobrax 
Gerenciamento de projetos e obras Consórcio Domus; TUV-SUD Bureau de Projetos
Gerenciamento social Diagonal Transformação de Territórios
Construção Consórcio BLK Kallas
Fotos Daniel Ducci

Secretaria Municipal de Habitação
Fernando Chucre (secretário); Rubens Migliori Liberatti (coordenador de projetos e obras); Silas Faria de Souza (diretor de gestão de obras); Amanda Morelli Rodrigues (diretora do departamento de gestão de projetos); Claudio Shigueyassu Tanoue (gestão e fiscalização de obras); Isabella Ventura, José Fernando Conte e Kátia Beatriz Laurett Pereira (equipe técnica)

Fornecedores

Grupo Arcobox (cobertura)
Concreserv (concreto)
Metalcasty (equipamentos de segurança)
Trial (esquadrias)
Quartzolit (Monocapa fachadas)
Osram (lâmpadas)
Taschibra (luminárias)
Atos Brinquedos e Caio Cesar Bercelli (mobiliário)
Intertravi (pavimentação)
GP de Oliveira Acabamentos (pedras, mármores e granitos)
Cerâmica Incefra (pisos e revestimentos)
Sincol (portas)
Coral (tintas)
Fechoglass (vidros)

Publicada originalmente em ARCOweb em 30 de Julho de 2018
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