Architectus: campus científico, Eusébio, CE

À margem da lagoa, campus Fiocruz é âncora de polo de saúde

As instalações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Eusébio, CE, foram projetadas pelo Architectus, responsável também pela urbanização do terreno. O escritório cearense atua sobretudo em projetos públicos e tem trabalhos em diversos estados

Foi durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República, entre os anos 2007 e 2008, que começaram a ser articuladas ações para dotar o Ceará de um polo industrial e tecnológico especializado na área de saúde. A implantação de um campus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no estado foi, desde o início, considerado elemento âncora para o empreendimento. Para receber o referido polo, o governo do Ceará, na gestão de Cid Gomes, adquiriu um terreno de 70 hectares, próximo da lagoa Precabura, em Eusébio, município que integra a região metropolitana da capital cearense.

A presença de uma das mais respeitadas instituições científicas do país no futuro polo tecnológico tinha como justificativa e objetivo o fortalecimento e qualificação da Estratégia da Saúde da Família - programa capitaneado pelo Ministério da Saúde – e o estímulo ao desenvolvimento industrial no segmento. Uma parte considerável do lote de Eusébio foi doada à Fiocruz para que a instituição – que é vinculada ao Ministério da Saúde – lá instalasse seu campus. A incursão do Architectus na iniciativa começou em 2011, quando o escritório venceu a licitação para desenvolver o projeto.

De acordo com informações do Architectus, o campus possui 18.550 metros quadrados de área edificada e 43.147 metros quadrados de área urbanizada. O projeto é constituído pelos blocos de Gestão e Ensino; Pesquisa e Laboratórios; Infraestrutura, Serviços, Auditório, Quiosques de Serviços, Guaritas, Anfiteatro, Bicicletário, Praça Central e Estacionamentos. No memorial da proposta, o escritório explica que as edificações foram implantadas no sentido longitudinal do terreno, porque essa disposição é a melhor em relação à orientação solar, à captação de ventilação natural e à hierarquização de acessos e fluxos.

Ainda de acordo com o escritório, o projeto e a obra receberam da Fundação Vanzolini, de São Paulo, a certificação Aqua-HQE, que foi conferida ao complexo por sua alta qualidade ambiental – o certificado assegura que o processo de gestão de projetos seguiu regras adequadas à qualidade ambiental. “O Campus da Fiocruz Ceará é um dos primeiros complexos de caráter institucional no país com esse tipo de certificação, tendo sido realizadas diversas simulações energéticas das edificações para obtenção do certificado”, pontua a equipe do Architectus.

Com térreo e quatro andares, o bloco de Gestão e Ensino abriga atividades administrativas e educacionais. O escritório informa que seu projeto procurou favorecer a ventilação e iluminação naturais nas áreas de circulação. Com relação à sustentabilidade, os autores detalham que as salas têm controle de temperatura e iluminação automatizadas. Na cobertura, o prédio dispõe de estrutura para painéis fotovoltaicos, laje jardim e sistema de aproveitamento das águas para uso em sanitários. O controle da insolação das fachadas, além de brises, recorreu a vidros de alto desempenho térmico.

A configuração plástica externa do bloco de Pesquisa e Laboratórios é semelhante à de seu vizinho. Materiais biológicos são manipulados nesses laboratórios - são 26 unidades com diversos níveis de biossegurança, além de módulos de apoio. “O edifício foi planejado para garantir a máxima segurança dos agentes manipulados e de seus manipuladores através de um sistema automatizado de controle de pressão e de acessos”, informa o escritório no memorial do projeto.

Assim como a edificação de Gestão e Ensino, o bloco de Pesquisas e Laboratórios foi desenhado de forma a favorecer a ventilação e iluminação naturais em áreas de circulação comum para reduzir custos energéticos. Os ambientes possuem controle automatizado de temperatura e iluminação, sendo algumas áreas dotadas de sistema de renovação do ar com filtragem absoluta, seguindo normas de biossegurança. No térreo do bloco fica o restaurante do campus – são servidas até 600 refeições por turno, com fluxos, manipulação de alimentos, tratamento acústico e renovação de ar projetados dentro de padrões normativos.

Implantado na mesma lateral do bloco Gestão e Ensino, o auditório conta com 300 lugares e foi idealizado para receber grandes conferências e poder funcionar de forma independente. O escritório relata que buscou um desenho funcional e priorizou níveis de isolamento acústico inerente a esse tipo de edificação. Os autores asseguram que a geometria da sala, com plateia escalonada, acessos em diversos níveis e a escolha de acabamentos garantiram acessibilidade plena, atendimento às normas de audiovisual e correta propagação dos sons - é possível realizar palestras sem o uso de amplificadores elétricos.

Posicionada entre os prédios de Pesquisa/Laboratórios e de Gestão/Ensino, a praça possui um eixo central que conduz o visitante da guarita principal ao auditório e se ramifica em caminhos diagonais que conectam os prédios e equipamentos complementares, quiosques de serviços, anfiteatro e estacionamento interno. Na composição paisagística do campus foram adotadas espécies nativas adaptadas à região – o projeto de irrigação automatizada assegura que haja pouco consumo de água e facilidade na manutenção das áreas verdes.

O Architectus também destaca o fato de o campus ser dotado da chamada infraestrutura verde (IEV) – o termo é empregado em referência às práticas de manejo de águas pluviais que simulam processos ecológicos naturais. A solução IEV funciona de forma oposta à das técnicas de engenharia chamadas de infraestruturas cinzas. A equipe explica que a IEV promove a retenção das águas pluviais reduzindo os efeitos das enxurradas, retendo a poluição difusa e promovendo a infiltração no solo, contribuindo para a recarga das águas subterrâneas.

“A proposta para o Campus da Fiocruz Ceará fundamenta-se na retenção das águas superficiais com aplicação de pisos-drenantes na área externa e criação de jardins filtrantes, de biovaletas e de uma lagoa pluvial para receber e amortecer o destino final das águas. Outra solução adotada foi a laje jardim para o armazenamento das águas de chuva no topo das edificações, diminuindo o volume de escoamento superficial e aliviando a demanda sobre o sistema de drenagem”, detalha, em texto, o escritório.

Além de autor dos projetos de arquitetura e urbanização, o escritório foi responsável pelo gerenciamento das obras. De acordo com a equipe do Architectus, a Fiocruz tem como diretriz contratar empresa para acompanhamento, fiscalização e gerenciamento de suas obras. O processo consistiu em acompanhar e administrar prazos de obra, atender aos custos previstos, garantir padrões de qualidade e desempenho desejados, fazer atender as orientações da certificação ambiental, além de fiscalizar a execução de todos os projetos conforme especificações dos projetistas.



Ficha Técnica

Campus da Fiocruz Ceará
Local Eusébio, CE
Início do projeto 2012
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 103.683 m2
Área construída 18.550,00 m² (edificada) e 43.147,00 m² (urbanizada)


Arquitetura
Architectus - Elton Timbó, Alexandre Landim, Ricardo Saboia, Mariana Furlani (autores); Bruno Lobo, Kathia Roman, Gerson Amaral, Romulo Santos (apoio técnico); Leonardo de Lacerda (arquiteto da Fiocruz/apoio técnico)
Certificação ambiental Fundação Vanzolini / CTE
Construção CG Construções
Fotos Joana França

 

Fornecedores

Refax (brises)
Solatube (duto cilíndrico com sistema de reflexão de luz solar)
Ecotelhado (teto jardim)
Cebrace (vidros)
Alcoa (esquadrias)
Jotadois (pisos drenantes)
Trane, Daikin, Carrier, Primare (ar-condicionado)
Atlas (revestimentos cerâmicos)
DNZ (instalações elétricas e hidráulicas)
Sherwin Williams (tintas)
Knauf (forros e sistemas drywall)
Deca (louças sanitárias)
Docol (metais sanitários)
Isoeste (telhas)

Publicada originalmente em ARCOweb em 30 de Julho de 2018
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