Andrade Morettin e Gusmão Otero: Retrofit, São Paulo

Sutilezas arquitetônicas na conturbada paisagem do Brás

Madeira e chapa de policarbonato foram empregadas para qualificar acesso aos andares superiores de prédio localizado na avenida Rangel Pestana, cujo projeto original é de Jorge Wilheim

Para aqueles que, desatentos, transitam pela calçada frontal ao número 2020 da avenida Rangel Pestana, no Brás, bairro próximo à região central da capital paulista, o Castelo Branco escapa ao olhar. Posicionando-se, porém, no lado oposto da via, defronte no largo da Concórdia, o edifício de 11 pavimentos revela graciosidade singular e consistente arquitetura que não se dissipa em meio ao caos urbano. Ao contrário, sobressai no conturbado cenário dominado pelo frenético movimento do comércio popular dos arredores.

É nessa construção - cuja face voltada para avenida apresenta um engenhoso sistema de brises móveis definidor de sua personalidade - que os escritórios Andrade Morettin Arquitetos e Gusmão Otero Arquitetos Associados interviram de forma a qualificá-la para nova ocupação. Vinda de um cliente do primeiro, a demanda foi compartilhada com o segundo estúdio – Ricardo Gusmão e Guido Otero trabalharam no Andrade Morettin e foram convidados a participar do projeto, atitude que tem se tornado comum no escritório de Marcelo Morettin e Vinícius Andrade.

O autor do projeto original do Castelo Branco é o arquiteto Jorge Wilheim, que o desenvolveu por encomenda da Caixa Econômica Federal – no térreo da construção funcionaria uma grande agência bancária e os dois blocos dos andares superiores seriam ocupados por escritórios, registra o portfólio do escritório de Wilheim. Na época da construção, o departamento de engenharia da Caixa tinha como chefe o engenheiro Daro Eston de Eston, profissional que assina alguns dos documentos do processo de construção, ao lado do também engenheiro Moysés Leiner.

Correspondências do período dão conta de que, anos antes de Wilheim ter sido encarregado de desenvolver o projeto, o engenheiro/arquiteto Cristiano Stockler das Neves (autor, entre outros trabalhos, da Estação Júlio Prestes, em São Paulo, e que também foi prefeito da capital) apresentou à diretoria do banco uma proposta para a edificação. A correspondência trocada entre técnicos e diretoria destaca a importância da instituição ter uma agência no local e defende que ela tenha certa imponência – talvez por isso, tenham recorrido a Neves.

Durante muitos anos foram pagos naquela agência/escritórios os bilhetes premiados das loterias da Caixa. Na década de 1980, a edificação foi ocupada pela Datamec, empresa de processamento de dados que pertenceu à Caixa, depois vendida à Unisys. Com a privatização da Datamec, o edifício passou anos desocupado e deteriorando, o que ocorreu simultaneamente à tomada do largo em frente pelas barracas do comércio ambulante não legalizado. O prédio continuou se deteriorando até que a Caixa decidiu desfazer-se do imóvel.

É nesse capítulo que o flerte do empresário Eribaldo Ximenes com o Castelo Branco - mais especificamente com a sua base - transformou-se em casamento. De origem cearense, o comerciante que fez a vida no Brás comentara algumas vezes com os filhos a oportunidade que via no térreo daquele edifício para uma nova unidade de seu supermercado – Ximenes foi proprietário de duas dessas lojas na capital. Na ocasião em que a construção foi a leilão, a empresa de Ximenes - única a manifestar interesse – a arrematou.

O plano de montar o supermercado não se consumou - o térreo foi ocupado pelo Rei das Ofertas, revenda de utilidades domésticas e, mais tarde, transformado em um shopping com lojas instaladas em boxes. Alguns dos comerciantes removidos do largo quando ele foi reurbanizado, na segunda metade dos anos 2000, ocuparam os espaços, mas os andares superiores permaneciam vagos. Até que, em 2015, um dos filhos de Ximenes (como ele, também chamado Eribaldo), que assumiu as funções de administrador da empresa depois de sua morte, quis dar ocupação à torre.

Cogitava ocupá-la com escritórios. Foi com essa proposta que conversou com escritórios de arquitetura para avaliar como isso seria possível. Segundo o empresário, foi a proposta “pé-no-chão” de Vinícius Andrade e sua preocupação em atender ao pretendido - “sem tratar o trabalho como se fosse um projeto só seu", destaca Ximenes Filho - os motivos que o levou a confiar o projeto ao estúdio, ao qual se juntaria o escritório Gusmão Otero. Ximenes conta que, enquanto outros escritórios sugeriram retirar os brises, Andrade disse que, se esta fosse a escolha, estaria fora.

Embora o Castelo Branco estivesse com os andares superiores desocupados há anos e deteriorados, os brises preservavam o vigor e a autenticidade arquitetônica do prédio, acumulando, porém, crostas de sujeira. O escurecimento fazia supor que fossem de madeira, mas tratava-se de peças em alumínio que foram recuperadas, com alguns componentes repostos. Os escritórios identificaram que, para a ocupação pretendida, era fundamental melhorar a acessibilidade à torre, até então feita por uma estreita escada no térreo que levava ao subsolo.

Aparentemente simples, o programa apresentava, porém, duas condicionantes mais complexas: o intenso movimento de veículos e pedestres na região e a impossibilidade de interditar o térreo para as obras. Pelo grande afluxo de pessoas, os pontos comerciais são disputados – por isso, interromper atividades só em caso de extrema necessidade. A solução estava no próprio prédio e o projeto propôs converter a rampa lateral de acesso ao estacionamento - que encontrava desativada, mas ocupada por quiosques – no novo acesso, sem implicar no fechamento do térreo.

“O projeto buscou conciliar as duas demandas: criar acesso confortável e atrativo para os potenciais inquilinos das lajes e manter o acesso direto ao espaço de varejo localizado no térreo”, escrevem Gusmão e Otero em texto sobre o projeto. “Uma entrada direta e generosa que busca captar a atenção do pedestre para o interior do prédio”, argumentam os autores, referindo-se ao novo acesso. Nos andares, as intervenções foram mínimas, provendo-os da estrutura necessária a ocupação pretendida e recuperando os acabamentos existentes.

De acordo com os titulares do Gusmão Otero, o piso de granilite na circulação foi mantido e os caixilhos e brises recuperados para facilitar o uso. A entrada é feita pela rampa com piso em granilite – as laterais desse acesso receberam uma gaiola de madeira, estrutura sobre a qual foram aplicadas telhas onduladas de policarbonato leitoso – uma intervenção sutil e elegante. Na avaliação da dupla, são materiais de baixo custo e que mantém identidade com a região – especialmente a madeira, que tem na vizinha rua do Gasômetro um polo de comercialização.

A estrutura de madeira é visível apenas para quem está na loja - os que se dirigem aos andares notam apenas a telha ondulada. Também em chapa de policarbonato, a marquise que protege a entrada é outra contribuição do projeto. No topo do prédio, a proposta previa a construção de um pavilhão com estrutura de madeira para abrigar um espaço para eventos e restaurante não executado. “Esse equipamento permite o acesso público à vista panorâmica e cria um espaço de contemplação no topo da metrópole paulistana”, afirmam os autores.

O plano do contratante do projeto de alugar os andares para escritórios foi, no entanto, alterado, uma vez que, ainda no decorrer das obras de reforma, ele recebeu proposta de aluguel de toda a construção por comerciantes atacadistas de roupas e artesanato originários da Índia – o Shopping Indiano, como é chamado.



Ficha Técnica

Retrofit do Edifício Castelo Branco
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2016
Área do terreno 1.061,00 m²
Área construída 5.000,00 m²


Arquitetura Andrade Morettin Arquitetos Associados e Gusmão Otero Arquitetos Associados; Joana Mitre, Marina Novaes, Marina Pereira (colaboradores)
Fotos Pedro Vannucchi

Publicada originalmente em ARCOweb em 10 de Abril de 2018
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