Ecoeficiência

Bagaço de cana vira areia para construção civil

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram um estudo que poderá mudar a destinação da areia de cinzas do bagaço de cana-de-açúcar no descarte, que provoca grandes danos ao meio ambiente, para o uso na construção civil. Os estudos têm duas importantes inovações: a simplificação do processo de transformação do bagaço em areia de cinzas, e seu uso para substituir parcialmente a areia retirada do meio ambiente para a produção de concreto.

O bagaço é um dos principais resíduos do processamento da cana-de-açúcar e torna-se poluente ambiental, quando descartado de modo inadequado na terra ou próximo a rios. Uma das maneiras mais comuns de reúso deste material é a queima em caldeiras, gerando energia para a própria usina. Porém, essa queima gera outro resíduo, conhecido como areia de cinzas do bagaço de cana-de-açúcar (ACBC). Por não possuir nutrientes, esse resíduo também configura um sério problema ambiental. A estimativa é que cerca de 4 milhões de toneladas de ACBC sejam descartadas anualmente pelas usinas no Brasil.

Um dos reúsos pesquisados atualmente é a transformação deste material em cimento. Porém, o processo implica em longos períodos de moagem e altas temperaturas para queima (calcinação), o que o torna demorado e de alto custo. Na pesquisa da UFSCar, foi utilizado um processo simples e de menor custo. Nele, a ACBC passa por uma etapa de peneiramento, que pode ser manual, e uma moagem de apenas três minutos, visando a padronização granulométrica das partículas, ou seja, para que elas fiquem com tamanho próximo ao da areia natural. Esse processo transforma a ACBC em areia, de uma forma que possa ser utilizada na construção civil, especificamente na composição de concretos. A areia resultante deste processo pode substituir em até 30% a areia retirada da natureza. 

Outras vantagens em relação à areia natural estão na composição química e na granulometria (tamanho dos grãos de areia). Por ser mais fina, a nova areia permite “fechar” os pequenos poros (abaixo de 150 micrômetros), o que diminui a porosidade do concreto, quando comparado ao material convencional. “Com menos poros e menos vazios, menor é a possibilidade de degradação do material”, explica Fernando do Couto Rosa Almeida, mestre em Estruturas e Construção Civil pela UFSCar e responsável pelos estudos. Testes também mostraram maior resistência do concreto em “ataques” de cloretos em ferros de construção.

O trabalho foi o vencedor do Prêmio Capes-Natura Campus de Excelência em Pesquisa 2015, no tema Sustentabilidade: novos materiais e tecnologias. A pesquisa de mestrado foi orientada por Almir Sales, docente do Departamento de Engenharia Civil (DECiv) da UFSCar, e realizada no âmbito do Grupo de Estudos em Sustentabilidade e Ecoeficiência em Construção Civil e Urbana (GESEC), liderado por Sales, que estuda o tema há 10 anos.

Fernando do Couto Rosa Almeida, mestre em estruturas e construção civil pela UFSCAR e responsável pelos estudos (à esquerda), e professor Almir Sales (à direita)

Texto de | Publicada originalmente em Finestra na Edição 104
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