Casas sustentáveis

A experiência em construir a própria casa

Mesmo sem ser arquiteto ou engenheiro, Lamberto Ricarte assumiu o controle da construção de sua casa sustentável em Brasília, projetada pelo arquiteto Rutherford Ocampo, a tal ponto que ele próprio participou da conferência do GBC para contar a sua experiência.

A proposta para inscrição do projeto no Referencial GBC Brasil Casa, da seção nacional do Green Building Council, veio do arquiteto Rutherford Ocampo, da Zárya Arquitetura & Engenharia, autor da proposta arquitetônico, que desde o início vinha discutindo com Lamberto Ricarte, o proprietário, a construção de uma residência onde não haveria ambientes inúteis ou ociosos e o conforto deveria estar associado ao uso racional dos recursos e ao bom aproveitamento dos espaços. Assim, o projeto arquitetônico nasceu com o objetivo de ser sustentável. Mas Ricarte decidiu ir adiante. “Se eu construísse de acordo com o projetado, poderia alcançar a pontuação mínima para a certificação. Mas minha meta é obter uma pontuação suficiente para o nível Gold [do Leed]”, afirma.

Pouco familiarizado com os meandros da construção sustentável, Ricarte, que trabalha com planejamento e gestão estratégica na Câmara dos Deputados, passou a pesquisar alternativas do mercado para atender às recomendações do referencial, visitou feiras do setor e buscou informações junto a consultores e fornecedores de materiais e equipamentos de ponta para a construção civil residencial. “Neste último ano, participei das principais feiras de construção civil que ocorreram em São Paulo. Além disso, venho recebendo o apoio do engenheiro Marcus Eduardo, proprietário da empresa MEPS, que está executando a obra”, afirma Ricarte, que assumiu a negociação com os fornecedores, decisões e riscos.

Ao ser selecionado para testar o modelo de certificação de casa sustentável do GBC, Ricarte concluiu que seu maior investimento deveria ser em um projeto bem detalhado, em que cada aspecto da casa pudesse contribuir para sua integração ao espaço urbano, oferecendo conforto aos usuários e causando o menor impacto ambiental. Diante disso, sua primeira decisão foi mudar o local de construção. Encontrou, então, um terreno em um condomínio localizado a 25 quilômetros do centro de Brasília, próximo à cachoeira do Tororó, uma queda d’água de mais de 30 metros de altura, procurada para atividades de lazer e esportes radicais.

O Reserva Santa Mônica estava em acordo com aquilo que Ricarte buscava. “É um condomínio licenciado pelos órgãos ambientais, que mantém mais da metade de sua área com vegetação nativa em reserva particular”, diz ele. Cada um dos 716 lotes que compõem o condomínio tem que preservar pelo menos 15% da vegetação existente. A parte suprimida foi compensada com o plantio de mais de 40 mil árvores nativas do cerrado em um parque que está sendo criado na cabeceira do córrego Pau de Caixeta, que dá origem à cachoeira do Tororó.

Ricarte conta que, como as linhas arquitetônicas já estavam definidas, a busca pelo terreno levou em consideração o posicionamento da casa em relação à insolação e à aplicação da carta solar. Como resultado, foi escolhido um lote de mil metros quadrados com a frente para o nordeste. A face oeste, de maior radiação solar, é a que possui menos aberturas. Nessa parte estão dispostos as áreas e o quarto de serviço e depósitos. A porção da residência com pé-direito duplo, que integra as salas de estar, jantar e varanda, conta com amplas janelas e panos de vidro, que receberão luz natural. Os quartos estão voltados para sudoeste, posição que garante boa iluminação e conforto térmico. Esses ambientes terão persianas externas automatizadas, embutidas nas esquadrias, para controle da incidência solar.

O projeto arquitetônico da casa já indicava o aço estrutural leve (light steel frame) como técnica construtiva mais adequada. Nesse sistema, a estrutura com perfis de aço galvanizado é montada sobre laje de concreto armado, chamada radier, na qual são estruturados os cômodos e pavimentos. Para o fechamento das paredes optou‑se por placa cimentícia com lã de rocha para o isolamento térmico. Por dentro, o acabamento delas será dado por painéis de gesso acartonado. “Além de ter um tempo de execução extremamente reduzido, em relação ao método tradicional, este sistema não gera desperdício nem resíduos, já que dispensa quebrar as paredes para a passagem das instalações. E também colabora para uma envoltória eficiente do ponto de vista térmico e acústico”, acrescenta Ricarte.

Em suas pesquisas, Ricarte também concluiu que os vidros e as esquadrias desempenham importante papel para o conforto ambiental da casa, uma vez que devem, ao mesmo tempo, permitir a passagem de luz e barrar o calor e ruídos excessivos. “Assim, quanto mais eficiente for a envoltória, menor o gasto energético com climatização e condicionamento do ar”, observa. Para controle de luminosidade serão utilizadas persianas horizontais externas, de alumínio ou PVC. Quando acionadas, evitarão a incidência direta do sol no período da tarde e darão privacidade e conforto durante a noite.

SISTEMA INTEGRADO
Desde o início, a meta de Ricarte era a construção de uma casa que dispensasse o uso de ar-condicionado. Ele pensou em instalar um telhado verde, mas depois de pesquisar optou por uma solução que integra essa cobertura a um sistema de tratamento de esgoto e armazenamento de água. Com isso se resolve também outra questão relacionada ao clima de Brasília: a falta de água para irrigação e lavagem externa no período de seca prolongada, que ocorre anualmente de maio a setembro. Além de armazenar cerca de 35 mil litros de água da chuva no telhado, o sistema integrado fará o tratamento de 100% do esgoto da residência com o uso de um vermifiltro (leia reportagem nesta edição, na seção Tecnologia). “Isso significa cerca de mil litros de água tratada por dia, que poderá ser utilizada na irrigação do jardim, lavagem das áreas externas e nos vasos sanitários”, conta Ricarte.

Para o paisagismo, o referencial orienta que sejam evitadas plantas invasoras e que se dê preferência à vegetação nativa. O projeto da empresa BSB Jardins conciliou a utilização de espécies do cerrado com uma proposta estética e de baixo consumo de água. Serão adotadas espécies nativas e plantas com floração em períodos diversos para propiciar a presença constante de insetos polinizadores. Haverá poucas áreas de gramado, que, assim como os arbustos, terão irrigação por gotejamento, por meio de tubulação enterrada, para evitar o desperdício de água por evaporação. As árvores serão irrigadas por borbulhamento nas áreas próximas aos troncos. Em locais específicos haverá aspersores escamoteáveis direcionais e microsprays. Um sensor evitará que o sistema seja ligado em períodos chuvosos.

Para facilitar o escoamento do excesso de água das chuvas, nos períodos de outubro a abril, quando é comum a ocorrência de trombas d’água, e reduzir os riscos de inundação e sobrecarga do sistema de águas pluviais do condomínio, serão instaladas trincheiras de infiltração, nas saídas de água do telhado verde. Trata-se de reservatórios temporários formados por vazios subterrâneos revestidos por mantas permeáveis que dispersam a água no solo em ritmo mais lento durante e após os períodos chuvosos.

EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
A energia elétrica será proveniente do sistema de microgeração por usina solar fotovoltaica, interligada ao sistema de distribuição da concessionária. As placas de captação solar serão posicionadas com a face voltada para o norte, potencializando a produção de energia durante o período do inverno. O aquecimento de água do chuveiro e piscina será por placas solares em circuito fechado, com o uso de trocadores de calor.

Recentemente, Ricarte contratou a empresa Sustentech para refazer a simulação de eficiência energética e avaliar se ele está no caminho certo. “A partir dos dados gerados pela Sustentech, percebi que o uso de leds era um fator importante para a pontuação no critério de Desempenho Energético Aprimorado e procurei um fornecedor para esse item. Inicialmente, o projeto de iluminação havia considerado apenas o uso de lâmpada fluorescente compacta”, explica. A primeira simulação indicou que a casa seria 28% mais eficiente que uma moradia construída para atender ao nível A de eficiência do Procel. Após algumas melhorias no projeto e uma segunda simulação, o indicador subiu para 39%. “Como minha meta é chegar a 50%, estou trabalhando para reduzir o gasto energético com iluminação interna e externa, apontada como um dos aspectos com potencial para melhoria”, diz.

GÁS RADÔNIO
Uma das surpresas que Lamberto Ricarte teve ao estudar o Referencial GBC Brasil Casa foi a exigência do controle da exposição dos moradores ao gás radônio e a outros gases contaminantes provenientes do subsolo. “Gás radônio? O que é isso? Foi a pergunta que fiz quando li esse item no referencial. Mas depois de alguma pesquisa descobri que esse gás, resultado do decaimento do urânio, é a segunda maior causa de morte por câncer de pulmão nos Estados Unidos, atrás apenas do cigarro”, explica Ricarte.

Segundo ele, o gás radônio está presente em quase metade dos estados americanos, sendo controlado e monitorado por um grande número de moradores dessas regiões. No Brasil, o tema é pouco conhecido. “Para resolver isso, vamos importar e instalar um equipamento para monitorar a presença de gás radônio na edificação e, caso seja necessário, será instalada uma torre de exaustão em área acima do telhado”, revela Ricarte.

SELO PROCEL
Ricarte acredita que o acompanhamento do desempenho da casa, ao longo dos anos, permitirá a avaliação dos resultados do projeto e a comprovação de que os investimentos realizados serão amortizados ao longo do tempo, pela redução dos gastos com manutenção e pelo aumento de satisfação dos moradores. Atendendo às recomendações do GBC, os principais eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos da casa serão trocados por produtos com o selo A do Procel. “Espero no futuro, ao ser perguntado se valeu a pena o esforço, poder relatar os benefícios de morar em uma casa sustentável. De qualquer modo, estarei com a consciência tranquila de ter contribuído para um meio ambiente melhor e um planeta mais saudável”, conclui.



Texto de Cida Paiva| Publicada originalmente em Finestra na Edição 83
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