VOA Arquitetura e Urbanismo: Retrofit Hotel Nacional, RJ

Hotel Nacional chega ao século 21

O icônico prédio de forma cilíndrica, projetado por Oscar Niemeyer na década de 1970 para abrigar o Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, reabre suas portas sob a bandeira da rede espanhola Meliá, após retrofit que atualizou suas instalações e fachadas com sistemas de melhor desempenho, para atender aos padrões atuais da hotelaria

Em sua fase áurea, o Hotel Nacional foi palco de festas memoráveis, que reunia a elite carioca, políticos, esportistas e turistas afoitos por conhecer suas dependências e, quem sabe, topar com alguma celebridade, como Liza Minnelli, B.B. King ou pilotos de Fórmula 1. Mas o sonho acabou na década de 1990, após uma série de acontecimentos que levaram o empreendimento à falência. No final do ano passado, depois de 21 anos fechado e abandonado, o edifício projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, com jardins desenhados por Burle Marx, abriu novamente suas portas com o nome de Gran Meliá Nacional Rio de Janeiro.

O projeto, que trouxe novamente à vida um dos mais emblemáticos hotéis do Rio de Janeiro, é assinado pelo escritório VOA Arquitetura e Urbanismo e inclui, além da revitalização da torre cilíndrica e do centro de convenções - que acolheu grandes eventos como o Free Jazz Festival -, a construção de duas torres residenciais. Responsável pelo projeto de retrofit, o arquiteto Marcos Leite Bastos explica que o grande conceito do prédio, conforme exposto por Niemeyer, era a utilização da forma cilíndrica como meio de preservar o visual e a escala das montanhas, em volta do bairro de São Conrado. Outro aspecto é o formato da laje principal, que cobre as áreas comuns, assemelhando-se à cauda de uma sereia, ser mitológico que também inspirou a obra feita pelo artista plástico Alfredo Ceschiatti, posicionada exatamente no centro da curva desta grande laje. A consequência é uma inegável conexão entre o mar e o prédio, criando a sensação de que a torre pertence exatamente àquele local e a nenhum outro.

Esse pertencimento se mantém na nova fase do Hotel Nacional, agora administrado pela rede espanhola Meliá. “A rede de hotéis, através da sua marca Gran Meliá, colocou uma série de requisitos a fim de equipará-lo aos outros hotéis high-end da companhia, sendo esta sua marca mais sofisticada”, detalha o arquiteto. O programa incluiu a recuperação de todos os espaços públicos originais do Hotel Nacional e alterou substancialmente a quantidade de tipologias de apartamentos a serem oferecidos. Não houve aumento de áreas, mas sim mudanças nas existentes, com novos usos ou componentes expandidos. 

Bastos conta que o principal desafio foi colocar todos os equipamentos de um novo e moderno hotel numa estrutura antiga, respeitando as qualidades do projeto existente e preservando os aspectos históricos do prédio. Uma das mudanças mais significativas foi a reconfiguração dos banheiros e quartos dos apartamentos, com características distintas dos apartamentos anteriores, num contexto moderno, mas com a geometria original.

Assim como outras obras de Niemeyer no Rio de Janeiro, o prédio do Hotel Nacional também é tombado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), o que levou a restrições que deveriam ser consideradas para a concepção do projeto de retrofit. O cilindro deveria ser preservado conforme originalmente construído. Alterações subsequentes, para atualizações, foram feitas internamente e não mudaram o espírito original do prédio. Já o jardim desenhado por Burle Marx foi atualizado pelo próprio escritório, fundado por ele na década de 1950 e hoje coordenado pela terceira geração de arquitetos paisagistas. Esculturas e peças de arte alocadas anteriormente no prédio permaneceram nos mesmos lugares.

Todas as áreas - torre, base, subsolos, centro de convenções e espaços externos - fazem parte da reforma e recuperação. Serão três etapas distintas. A primeira, já concluída, recuperou a torre do hotel, composta por 33 pavimentos, dois entrepisos, um subsolo e uma cobertura, totalizando 58 mil metros quadrados de área construída. Após o retrofit, os apartamentos foram realocados e o seu número foi reduzido para 413 unidades (antes eram cerca de 450), em função das premissas da operação hoteleira, que vem passando por profundas modificações no Brasil.

Ainda em fase de projeto, a segunda etapa fará a reforma do centro de convenções, um total de 11.500 metros quadrados distribuídos em três pavimentos. A previsão é que o espaço seja reconfigurado internamente, para receber três grandes salas de convenções, que poderão abrigar diferentes eventos de forma simultânea. Por fim, para dar dinâmica distinta ao conjunto, os planos para a terceira etapa são a construção de dois edifícios residenciais sobre a laje do Centro de Convenções. Cada um terá 13 pavimentos, mais o subsolo já existente.

Na opinião de Bastos, o grande benefício da reforma foi reestabelecer uma tendência de melhora no bairro de São Conrado e reverter a deterioração, que passou a ocorrer a partir do fechamento do hotel, em 1995. Sem contar a revalorização do espaço, com ocupação semelhante ao uso original, mas totalmente atualizado conforme a demanda dos hotéis modernos. Novas áreas foram introduzidas no prédio, porém incorporadas aos espaços existentes e dimensionadas de acordo com os requisitos da marca hoteleira. Entre elas estão o espaço fitness e o spa, instalados em áreas abertas, anteriormente vazias, no terceiro pavimento.

Para atender às normas do corpo de bombeiros e segurança predial foi construída uma nova escada de emergência. Isto tomou toda uma prumada de módulos originais do prédio, imperceptível pelo lado externo. Não houve mudanças significativas na estrutura, exceto no subsolo, que recebeu uma nova área para abrigar a grande cozinha de preparo, que passou a ser centralizada. Tal solução facilitou a eficiência das circulações de serviços. Pontualmente, a estrutura do prédio em concreto armado foi recuperada em locais mais expostos à intempérie e onde a ferrugem havia avançado sobre o recobrimento de concreto. A laje em forma de cauda de sereia, que não tinha qualquer tipo de proteção, recebeu guarda-corpos com vidros transparentes, que interferem o menos possível no visual, em atendimento às normas de segurança predial atualmente existentes.

TORRE DE OBSERVAÇÃO
O objetivo de Niemeyer, ao conceber a torre cilíndrica revestida com painéis de vidro, com vistas em 360 graus, foi criar uma torre de observação. “A posição do salão do lounge, no térreo, é tal que a linha do horizonte no mar está localizada exatamente no centro da altura da sala. O mar vai subindo, junto com o observador, quando este sobe pelas rampas até o ponto em que a linha do horizonte se assenta no meio do espaço”, diz Marcos Leite Bastos. 

O lobby do hotel, com pé direito simples, é vedado com vidro do piso ao forro, permitindo total transparência do espaço com as áreas externas. Na lateral esquerda de quem entra no prédio, a vedação é feita por um mural do artista Hector Julio Paride Carybe em alto relevo, que dá a impressão não só de fechamento, mas também de sustentação. “Desta forma, a grande cobertura do térreo parece ser sustentada por somente seis colunas. Na base do prédio, os fechamentos são em concreto aparente em toda a volta, exceto no trecho do deck da piscina, onde a vista para o mar demandou fechamento de vidro”, explica o arquiteto. 

Com a estética das fachadas preservada, novos sistemas de melhor desempenho tecnológico foram aplicados à envoltória, em substituição à antiga caixilharia. Originalmente, cada apartamento era composto por cinco módulos de vidro, sendo dois de abrir. Na nova configuração, de acordo com as exigências de segurança atuais, os caixilhos são todos módulos fixos, na mesma posição e dimensões dos originais, tornando imperceptível a substituição. De acordo com Bastos, o espaçamento de cerca de um metro entre montantes permitiu a utilização de 100 módulos em todo o perímetro, seguindo modulação da pele de vidro original. Como o prédio é tombado, todo material retirado foi descartado através de uma licença de operação da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA).

A definição dos novos vidros para a fachada foi guiada por duas premissas: manter a estética original do prédio e atender aos requisitos do projeto de ar condicionado. Além de não existirem mais para reposição, os caixilhos originais tinham sistemas distintos de fixação e os vidros não possuíam a mesma capacidade de reflexão de calor necessária atualmente. A nova fachada é composta de modelos unificados, que proporcionaram montagem rápida, segura e que resultaram em um produto final extremamente estanque, porém com as características estéticas preservadas. É composta por módulos unitizados, produzidos com perfis de alumínio da linha Offset 100 milímetros, da Belmetal, com acabamento anodizado natural fosco, classe A 18. 

"A análise de insolação na edificação, aliada aos dados fotoenergéticos dos vidros, mais a preservação das características originais, foram fatores determinantes para a escolha dos vidros, realizada após inúmeros testes e estudos em protótipos feitos na obra. Para atender à norma NBR 7199 foram feitos cálculos no SJ-MEPLA, software específico para a determinação correta das espessuras das chapas”, explica o consultor Igor Alvim, da QMD Consultoria, responsável pelo projeto da nova fachada. Para preservar as características da fachada, a cor do vidro deveria se manter o mais próximo possível da tonalidade bronze do projeto original. O vidro escolhido foi o laminado de proteção solar de 11 milímetros de espessura, composto por uma chapa Cool Lite ST 136 de seis milímetros de espessura + uma chapa float bronze de cinco milímetros. “Tal composição oferece um fator de proteção solar de 0,35, coeficiente de sombreamento de 0,40 e transmissão luminosa de 22%. As placas utilizadas barram 65% da entrada do calor no ambiente e realizam um controle da entrada da luminosidade, deixando o espaço interno com a quantidade ideal de luz natural, evitando ofuscamento”, detalha Nilson Viana, consultor técnico da Cebrace. 

Segundo Luiz Fernando Bruno, diretor comercial da Allugel, responsável pela fabricação e montagem da nova fachada, o maior desafio deste projeto foi reproduzir na íntegra o aspecto visual da antiga, principalmente os brises verticais, criados especialmente para esse retrofit. O diretor lembra que, ao assumir a obra, acreditava-se que o prédio fosse uma circunferência perfeita. Mas foi detectado que a periferia da viga não era uniforme e que, portanto, as células não poderiam ser iguais. A solução foi deixar entre as 100 prumadas, 10 delas para ajustes, além do levantamento topográfico para se ter a noção exata da distorção do eixo quanto a variação do raio, laje a laje. Desta forma foi possível garantir o perfeito alinhamento da fachada com a estrutura. 

Segundo Igor Alvim, não foi necessário fazer reforços na estrutura, pois as peças de ancoragem foram dimensionadas para atender aos esforços. O fato de o edifício ter um formato cilíndrico exigiu que a medição fosse criteriosa, pois os módulos de fachada deveriam ter um alinhamento com as paredes dos quartos. Ao total foram instaladas 3.250 células em 11 mil metros quadrados de área de fachada, num prazo de fabricação e instalação de cinco meses. A obra consumiu 125 toneladas de alumínio e 12 mil metros quadrados de vidros colados com silicone bi-componente e gaxetas de EPDM.



Ficha Técnica

Retrofit Hotel Nacional
Cliente HN Empreendimentos e Participações
Local Rio de Janeiro, RJ
Área do terreno 14 mil m²
Área construída 58 mil m² (hotel); 106.700 m² (total projetado atual)
Projeto 1968 a 1972 (projeto original de Niemeyer); 2015 (retrofit do prédio do hotel)
Obra dezembro de 2016 (hotel)  

Arquitetura e Urbanismo arquitetos Marcos Leite Bastos e Eduardo Manzano (autores), Thiago Ranzatti, Iaponam Salvador da Silva Jr., Eduardo Souza, Michelle Covacho de Medeiros, Natália Garbin, Marcella Sellinas, Tatiany Di Donato, Kauê Souza, Felipe Menezes, Eric Oshiro, Andressa Peres, Raissa Furlan, Keithy Karg, Anna Pancini, Nathaline Cossio, Manoela Dirma Leitão (colaboradores)
Construção Orca
Fachadas QMD Consultoria, Igor Alvim (projeto e consultoria de vidros), Allugel (fabricação e montagem)
Estrutura metálica D’Angeli Engenharia
Estrutura de concreto engenheiro Bruno Contarini
Acústica Traço Verde (consultoria)
Paisagismo Burle Marx (projeto original), Escritório de Paisagismo Burle Marx e Benedito Abudd (atual)

Fornecedores

Caixilharia Belmetal (Sistema Offset), CBA (perfis de alumínio)
Vidros Cebrace / Disvidro
Silicone GE
Elevadores Atlas/Daiken

 

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 103
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