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Ruy Ohtake: Edifício Conde de Sarzedas, São Paulo

Montantes verticais articulados

Com superfícies côncavas e convexas, a fachada do edifício Conde de Sarzedas exigiu a criação de um sistema de montantes verticais articulados para a curvatura de raios variados, com protótipos submetidos a ensaios de permeabilidade ao ar, estanqueidade à água e cargas de vento.

Plantas, cortes e fachadas
Na face curva os vidros são azuis, enquanto nas demais uma combinação de tons configura marcação horizontal
Montantes verticais articulados
Com superfícies côncavas e convexas, a fachada do edifício Conde de Sarzedas exigiu a criação de um sistema de montantes verticais articulados para a curvatura de raios variados, com protótipos submetidos a ensaios de permeabilidade ao ar, estanqueidade à água e cargas de vento.

Construído entre 1880 e 1890 e tombado pelo patrimônio histórico municipal, o castelinho localizado na rua Conde de Sarzedas, no bairro da Liberdade, área central de São Paulo, influenciou a arquitetura e o nome do edifício que agora é seu vizinho mais próximo. Como o casarão deveria ser preservado, o arquiteto Ruy Ohtake desenhou uma torre de linhas curvas e fachada-cortina, compondo recuos que envolvem a antiga edificação.

Com 29,4 mil metros quadrados de área construída, o edifício Conde de Sarzedas tem na fachada-cortina formas côncavas e convexas, construídas com o sistema structural glazing. A caixilharia foi produzida com laminados refletivos de dez milímetros, colados em perfis de alumínio da linha Hydro Official. Na face curva, os vidros são azuis, enquanto nas outras uma combinação de tons define uma marcação horizontal: opacos na frente de laje, fumê no vão-luz e azul no peitoril. No total, a Glassec forneceu 11.750 metros quadrados de vidros laminados para a obra.

Montantes articulados

O sistema estrutural dos caixilhos, composto por montantes e travessas, fica no lado interno da fachada. Os quadros foram fixados no vão através de ancoragens de alumínio. Estas sofrem variações de tamanho, para ajustar as diferenças de nível e prumo - comuns em construções - e conseguir o padrão de arquitetura exigido. Isso se deveu à necessidade de execução do trabalho por partes, sem conhecer as medidas finais dos andares construídos.

Os quadros tiveram diferenças de dimensões milimétricas, que não alteraram a modulação. Nas faces curvas, um sistema de montantes verticais articulados permitiu formar o desenho de raios variados, que exigiu guarnições com medidas especiais. As juntas entre quadros receberam escovas de vedação, nas partes curva e plana.

“A cobertura das faces seguiu o cronograma da obra, sendo executada conforme as lajes eram concluídas”, lembra o engenheiro Raul Costa Júnior, diretor da Cosbiem, responsável pela fabricação e execução das fachadas. “Para revestir os 12,2 mil metros quadrados de área de fachada, o trabalho foi desenvolvido em quatro etapas: do primeiro ao oitavo andar; do nono ao 16º; do 17º ao 27º; e, por fim, a execução do térreo e do mezanino, que, juntos, compõem um pé-direito de 12,5 metros. Para a vedação dos 97 metros de altura de superfície envidraçada foram fornecidos 61 mil quilos de alumínio e 36,8 mil metros de guarnição.”

Fachada posterior - a caixilharia foi produzida com vidros laminados refletivos de dez milímetros
A fachada-cortina é uma combinação de formas côncavas e convexas, construídas com o sistema structural glazing
Para as faces curvas foi criado um sistema de montantes verticais articulados ...

Cargas de vento

Para a obtenção do desenho sinuoso da fachada foram utilizadas fôrmas de moldagem de concreto in loco. A execução seguiu um mapa de montagem. Segundo o engenheiro Nelson Firmino, consultor da Aluparts, esse formato tende a encaixar o vento, gerando altas pressões de sucção. “Os caixilhos foram desenvolvidos para atender a cargas de 2 mil pascals. Através de protótipos, o sistema de fachada foi submetido a ensaios, seguindo a norma técnica da ABNT NBR 10.821”, ele afirma.

Foram aplicados testes de permeabilidade ao ar, estanqueidade à água e de cargas de vento uniformemente distribuídas. “Neste último, o protótipo foi exposto a cargas positiva e negativa [sucção], para que se avaliasse a deformação dos perfis em relação à folha e às ancoragens”, diz Firmino.

Apesar de o edifício ter sido idealizado para operar com condicionamento de ar, todos os andares possuem janelas maxim-ar, que promovem ventilação na falta de energia ou de ar-condicionado. Os pavimentos receberam sistema de proteção contra incêndio, composto por lã mineral com densidade de 140 kl/m3 e aplicado no rodateto, no peitoril e nas divisões verticais entre conjuntos. O material tem o objetivo de criar barreiras contra gases, fumaça, calor e fogo.

Pilares de transição

Com 106 metros de altura, lajes em balanço, pilares de transição, fachadas curvas e retas e parede-diafragma, o prédio enfrentou, na construção, grandes desafios e elevado grau de complexidade. Responsável pela obra, a construtora Blokos programou as trabalhos de forma a tornar o processo ágil e garantir a qualidade, evitando desperdícios, além de organizar a logística para não interferir no trânsito da região central de São Paulo.

Segundo os engenheiros Cláudio Eduardo Gomes (gestor de contrato) e Aníbal Raul Sánchez (gestor de produção), da Blokos, “para vencer os grandes vãos e permitir a passagem da tubulação sem perfurar a laje, evitando seu enfraquecimento, foram adotadas lajes nervuradas em todos os andares”. Os pilares de transição foram usados para atender ao projeto arquitetônico, que determinava seções circulares do térreo ao segundo andar e, a partir deste, retangulares. Paredes diafragma protegem o edifício do lençol freático existente na região.

Perfis tubulares

Segundo os engenheiros da Blokos, as quatro fachadas receberam tratamentos diferenciados, devido ao desenho e às características de cada uma delas. A face voltada para o antigo prédio do Tribunal da Justiça possui, a partir do primeiro pavimento, balanço de quatro metros. “Ele avança para o terreno do TJ, recurso permitido porque o projeto está interligado com a operação de reurbanização da prefeitura”, explica Gomes. A execução das lajes em balanço exigiu que o contrapeso de escoramento fosse jogado para dentro do edifício. “Ainda nessa fachada, na parte inferior, um prolongamento da área envidraçada forma uma barra solta, solução adotada para deixar a linha da base do corpo da edificação no mesmo nível”, completa Sánchez.

Com pé-direito duplo, a fachada do térreo recebeu amplo pano de vidro, concebido com o mesmo sistema das demais. Porém, a altura de sete metros tornou necessária a instalação de perfil complementar, para sustentação da caixilharia. Trata-se de uma estrutura secundária, composta por perfis tubulares de aço galvanizado, envolvidos por um perfil de alumínio com tratamento de superfície anodizado natural fosco. Este é preso na laje e no piso.

Projeto desenvolvido para a Fundação Carlos Chagas, o edifício Conde de Sarzedas foi locado para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.


Texto resumido a partir de reportagem
de Gilmara Gelinski
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 48 Janeiro de 2007
... formando a curvatura de raios variados

Texto de | Publicada originalmente em Finestra na Edição 48

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