aflalo/gasperini: Torre Matarazzo, São Paulo

Torre corporativa e shopping na Paulista

Instalado na avenida Paulista, no terreno que abrigou a mansão da família Matarazzo, demolida em 1996, o empreendimento de 124,5 mil metros quadrados de área construída tem dois edifícios com estruturas independentes, porém interligados pela volumetria e pela estética das envoltórias, revestidas com vidro laminado de controle solar low-e.

Com base nas premissas de construção de uma torre comercial com lajes de até 2 mil metros quadrados, independente do shopping center - este com no máximo quatro pavimentos e um teatro-, o escritório aflalo/ gasperini arquitetos esboçou a volumetria do conjunto de edifícios, incorporando as demais condicionantes legais: gabarito e necessidade de preservação de árvores. “Achamos importante deixar um recuo na avenida Paulista que se transformaria numa grande praça de acesso e daria importância ao complexo”, explica a arquiteta Flávia Marcondes, diretora associada da empresa. O terreno de 11.952,50 metros quadrados está localizado na esquina da avenida com a rua Pamplona.

Apesar de a Torre Matarazzo e o Shopping Cidade São Paulo terem estruturas independentes, são interligados na volumetria e no subsolo. O edifício comercial foi escalonado em duas zonas, caracterizadas pelo tamanho diferente de seus pavimentos-tipo, com áreas de 2,2 mil e 1,6 mil metros quadrados. No total são 13 andares, laje de cobertura, térreo e sete subsolos com capacidade para 1,5 mil veículos - o quinto, o sexto e o sétimo são exclusivos para a torre, o terceiro e o quarto destinam-se somente ao centro de compras, o primeiro e o segundo atendem a ambos.

A TORRE
A obrigatoriedade de a torre ser independente do shopping center fez com que o volume deste a envolvesse. A partir da rua Pamplona é possível visualizar o escalonamento: o centro de compras com sua base maior e o prédio com zonas baixa e alta. Para criar um acesso convidativo e atraente, a fachada frontal do shopping, fora da ortogonalidade, possui uma moldura em balanço que se projeta em direção da avenida. As entradas de pedestres no shopping se dão pela Pamplona e pela Paulista, e são marcadas por marquises metálicas em balanço de nove metros revestidas com vidros laminados. O entorno do térreo é permeado por recuos que abrigam espaços livres, como o afastamento frontal de 23 metros do edifício e a praça lateral com 20 metros de largura e cem de extensão, tratados com paisagismo de Benedito Abbud. São 2,3 mil metros quadrados de área verde, preservando árvores locais.»

De acordo com Flávia, para dar leveza à volumetria da torre, adotou-se uma curvatura na parte superior, com a inclinação da caixilharia. O heliponto se projeta da edificação, solto do conjunto, sendo revestido, assim como algumas prumadas, com painéis de alumínio composto, para garantir detalhes estéticos. O coroamento da torre, levemente curvo, abriga três pavimentos técnicos e tem vidros mais transparentes, por trás dos quais se instalaram brises metálicos, de modo a configurar as lanternas das fachadas com a mesma solução dada ao lobby. “A intenção é iluminá-los à noite, dando uma identidade ao edifício, que poderá ser visto por grande parte da cidade”, explica a arquiteta. Nas faces laterais, uma junta vertical que separa visualmente o volume em duas partes resulta em maior esbelteza. Trata-se de uma reentrância que marca o plano inclinado, convergindo para o centro da fachada.

O conjunto pleiteia o Leed Core & Shell v2 - Nível Gold, já em fase de comissionamento. Toda a análise de eficiência energética foi feita considerando um único empreendimento, levadas em conta as diferenças no uso e operação de cada edifício, de acordo com Edson Kurotsu, coordenador da área na unidade de sustentabilidade do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), empresa responsável pela consultoria de certificação do empreendimento.

Além da implantação de sistemas para garantir a eficiência energética, gestão e uso racional de água, e qualidade do ambiente interno, entre outras ações, houve também o acompanhamento de toda a obra, ao longo de cinco anos, para que as atividades causassem o mínimo impacto à vizinhança, principalmente com relação a trânsito, poeira e retirada de sedimentos. Atentou-se ainda para que os resíduos de construção fossem desviados de aterro e encaminhados para reciclagem e reaproveitamento.

ANÁLISE ENERGÉTICA
Segundo Kurotsu, embora o empreendimento esteja buscando a certificação, não existe a obrigatoriedade de atender aos valores de desempenho térmico de fachadas conforme a norma aplicável para Leed v2, a Ashrae 90.1-2004. Os sistemas construtivos da fachada foram pensados para minimizar o seu impacto no consumo do sistema de ar condicionado, considerando vidros de fator solar médio por fachada entre 0,30 e 0,40, com desempenho superior ao de vidros comuns (FS = 0,87). Além de trabalhar com vidros insulados na cobertura da praça de alimentação, oferecendo melhor conforto térmico aos usuários em comparação com um vidro laminado.»

Pela metodologia de análise energética utilizada, Kurotsu afirma que a orientação do conjunto contribuiu para reduzir parcialmente o consumo de energia. Foram realizados estudos a partir de um edifício de referência em quatro orientações distintas: a original de projeto e outras três determinadas a cada 90 graus, a partir da primeira. Com os resultados foi possível perceber que a disposição do edifício e de seus ambientes (por exemplo, áreas de serviço e apoio na fachada nordeste) trouxe uma pequena vantagem em relação às outras possibilidades. “Claro que o impacto não foi tão significativo pela configuração do volume em formato quadrado, o que implica resultados próximos entre as orientações testadas”, explica Kurotsu.

PROJETO DE FACHADAS
Detalhes arquitetônicos de difícil solução e as grandes dimensões dos vãos exigiram estudos rigorosos para a realização das fachadas. Utilizaram-se, então, vários sistemas, que deveriam atender às exigências da arquitetura e conceder harmonia ao conjunto. “As fachadas da torre demandaram a adoção de diversos perfis, para obter perfeito alinhamento entre os panos de prumada reta e os de prumada curva”, explica Henrique Sabioni de Lima, diretor técnico da Itefal, empresa responsável pela fabricação e execução da envoltória.

Na torre foi utilizado o sistema unitizado structural glazing, com perfis de alumínio de 120 milímetros da linha Mário Newton/OlgaColor, com acabamento de pintura eletrostática RAL 9.007 (camada de espessura mínima de 60 micra). “Os perfis foram dimensionados especialmente para a modulação dos painéis, de 1,25 metro de largura e 4,3 metros de altura, visando atender aos parâmetros de desempenho da NBR 10.821 e à pressão de vento de 2,1 mil pascals, estipulada no teste de túnel de vento”, explica o consultor Mário Newton Leme. Para a vedação dos 16 mil metros quadrados de área de fachada da torre foram utilizados vidros laminados e em alguns trechos laminados e temperados de 12 milímetros de espessura, colados com silicone estrutural bicomponente. As juntas entre os painéis unitizados foram vedadas com gaxetas.»

ESTRUTURA DO LOBBY
A fachada do lobby da torre corporativa recebeu vidros fixados com silicone estrutural nos perfis verticais, com modulação de 2,50 metros, sem perfis horizontais e com junta seca entre as peças. Para dar sustentação a ela e vencer o pé-direito de 18 metros, o escritório Kurkdjian e Fruchtengarten projetou uma estrutura metálica aparente, composta de longarinas espaçadas cerca de seis metros, superando um vão de 12 metros entre pilares de concreto. As longarinas estão apoiadas na direção vertical, por meio de tirantes com esticadores fixados ao quarto pavimento.

Segundo o engenheiro Júlio Fruchtengarten, a estrutura do lobby é composta também por uma marquise com nove metros de balanço, engastada em um tubo fixado aos pilares de concreto com 12 metros de vão. Esse tubo é dimensionado à torção proveniente da marquise. Por fim, esse sistema serve de suporte aos brises internos apoiados em barras de aço inox de 16 milímetros de diâmetro, pré-tracionadas e presas à marquise e à laje do quarto pavimento. Para o dimensionamento da estrutura foram consideradas as cargas usuais de vento conforme a norma brasileira e peso próprio da estrutura e do vidro.

Internamente, a fachada possui brises horizontais de alumínio. Com 50 milímetros de altura e 254 de largura, eles estão suspensos pelos tirantes de aço inox, formando um conjunto de altura em torno de 25 metros e largura de 46,5 metros. A montagem dos brises ocorreu de cima para baixo, sendo encaixados os perfis nos tirantes na parte inferior, elevados até sua posição e fixados por anéis elásticos, que serviram como trava, posicionados em sulcos previamente usinados nos tirantes. “Além do bom efeito estético, os brises auxiliam no conforto térmico diante da exposição dessa fachada, a oeste. Com esse mesmo conceito, esses elementos foram instalados na fachada do lobby do shopping, porém externamente”, detalha Mário Newton.

FACHADA DO SHOPPING
As fachadas do centro de compras seguiram a modulação de 2,5 metros de largura e 0,7 de altura. “Como os painéis revestiram em sua maioria uma empena cega, foi projetado um sistema totalmente diferente com um quadro em perfil U, extremamente leve, para colagem do vidro com silicone estrutural e um sistema de fixação por encaixe, com travamento vertical e deslizamento horizontal, sem fixação por parafusos, possibilitando grande velocidade de instalação na obra e baixo custo por metro quadrado”, explica o consultor. Nos trechos de vão-luz, o sistema stick possui alguns quadros móveis, do tipo maxim-ar, com atuadores acionados em caso de sinistro, necessários conforme determinações legais.

Para vedar cerca de 11 mil metros quadrados de área de fachada do shopping center foram utilizados vidros laminados de nove e 12 milímetros, colados com silicone estrutural bicomponente em perfis de alumínio com acabamento de pintura eletrostática RAL 9.007 com espessura mínima de camada de 60 micra. As juntas de 16 milímetros de espessura, entre os vidros, receberam silicone de vedação de cura neutra.

ENSAIOS
As fachadas foram submetidas a testes realizados na Câmara Azul do Instituto Tecnológico da Construção Civil (Itec), para verificação da penetração de ar, estanqueidade a água e comportamento sob cargas uniformemente distribuídas, conforme a NBR 10.821-3:2011. “Durante a verificação da estanqueidade, o protótipo da fachada unitizada, constituído por nove quadros fixos com dimensão linear total de 3.780 milímetros de largura e 9.475 milímetros de altura, foi submetido a pressão de 300 pascals, sendo o sistema classificado quanto ao nível de desempenho superior”, diz Mário Newton.

A obra consumiu 220 toneladas de alumínio e foi feita em 19 meses, sendo dez meses para as fachadas e brises do shopping e nove para a torre. Segundo Sabioni de Lima, a execução ocorreu separadamente e obedeceu ao cronograma do empreendimento, começando pela envoltória do centro de compras, que entraria em funcionamento antes de a outra edificação estar concluída.

COBERTURA ENVIDRAÇADA
Sobre a praça de alimentação, no quarto pavimento do shopping, foi instalada uma cobertura de 600 metros quadrados, composta por vidros insulados neutros GL Ins 2139, com fator solar de 31%, coeficiente de sombreamento de 0,36 e transmissão luminosa de 42%. “A solução do vidro em posição horizontal, como em coberturas, acaba implicando maior carga térmica para o sistema de ar condicionado, em relação a um sistema horizontal opaco. Porém, para minimizar esse impacto, utilizou-se o insulado de 30 milímetros, que reduz o ganho de calor pelo diferencial de temperatura externa e interna ao ambiente e pela radiação solar direta. Ou seja, tem melhor desempenho térmico em relação às propriedades de transmitância térmica e fator solar”, explica Kurotsu.

A cobertura de vidro foi instalada sobre estrutura metálica aparente, constituída de pórticos dispostos a cada 2,5 metros, fabricados com perfis tubulares e contendo uma viga intermediária a cada 1,25 metro. “Os pórticos são contidos no próprio plano pela viga de coroamento de concreto. A distribuição e a absorção das cargas se dão na direção longitudinal, onde a contenção ocorre por duas linhas de contraventamento - horizontais de cobertura e verticais. A estrutura apoia-se na laje de cobertura e na viga de coroamento de concreto. Para o dimensionamento da estrutura foram consideradas as cargas de peso próprio da estrutura e do vidro, sobrecarga de norma de 25 kgf/m2 e vento conforme a norma brasileira”, detalha Fruchtengarten.

O DESEMPENHO DOS VIDROS
Em função do tamanho da área envidraçada - cerca de 27 mil metros quadrados -, a escolha de vidros foi fundamental. “As exigências de especificação basearam-se em alto desempenho em eficiência energética e design minimalista, com vidros laminados em dois tons de prata e neutro, para revestir as fachadas e a cobertura da área da praça de alimentação”, informa Valdir Arcocha, coordenador de vendas da Glassec Viracon, empresa responsável pelos projetos e soluções de vidros aplicados no empreendimento. “Na envoltória dos dois edifícios foi utilizado o mesmo vidro laminado de controle solar low-e, com maior transparência, menor reflexão luminosa, ótima redução de calor e boa atenuação acústica, mas com detalhes diferenciados”, informa Hugo Scapolan, coordenador de produto da companhia.

Para a torre foram especificados os vidros prata GL 2139 de 12 milímetros (fator solar de 39%, coeficiente de sombreamento 0,44 e transmissão luminosa de 46%), aplicados no vão-luz, e vidros neutros GL 4078 e GA 137, de nove milímetros (fator solar de 35% e 58%, coeficiente de sombreamento 0,40 e 0,67 e transmissão luminosa de 33% e 71%, respectivamente). Na fachada do shopping foram aplicados os vidros GL 2139 e GL 4078 com as mesmas espessuras.

Em comparação com vidros comuns, a redução do consumo de energia foi em torno de 20% no uso do sistema de ar condicionado e ventilação mecânica. “Potencialmente, pelo estudo de desempenho energético da metodologia do Apêndice G da Ashrae 90.1-2004, a redução total anual de consumo de energia comparado ao modelo de referência da certificação foi de 11,2%”, afirma Edson Kurotsu, do CTE.

“Além do vidro, o isolamento termoacústico foi reforçado com um painel especial da Isover. Aplicados nos trechos de recobrimento de vigas e pilares, esse painel de 50 milímetros de espessura, composto de lã mineral e revestido com tecido de vidro de grande resistência mecânica, serviu como shadow box. A travessa intermediária de cada painel unitizado foi preenchida internamente com lã de rocha de 80 kg/m³ para auxiliar o isolamento acústico entre os pavimentos”, completa o consultor de fachada Mário Newton.



Ficha Técnica

Torre Matarazzo e Shopping Cidade São Paulo
Local São Paulo, SP
Ano do projeto 2007
Ano de conclusão da obra 2015
Área do terreno 11.952,50 m2
Área construída 124.511 m2
Incorporação Cyrela Commercial Properties e Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário
Arquitetura aflalo/gasperini arquitetos - Roberto Aflalo Filho, Luis Felipe Aflalo, Gian Carlo Gasperini, Grazzieli Gomes Rocha, José Luiz Lemos (direção/autoria) / Flavia Marcondes (direção/coordenação) / Geane Kaori, Paula Homsi, Luciana Maki, Matheus Gaspar, Sandra Nasser, Patricia Rodrigues, Livia Fantin, Camila Suganuma, Andressa Ramos, Francine Sayaka, Telma Otake, Juliana Andrade, Juliana Garcias, Fabio Kassai, Ana Carolina Aipp, Bruno Taiar (arquitetos) / Julio César Teodoro, Bruna Florêncio, Martina Croso, Juliana Abbud, Daniele Ferreira, Luisa Orsini (estagiários) / Marcelo Nagai, Arthur Faria, Daniela Mungai, José Messias da Silva, Raquel Rodorigo, Reinaldo Nishimura, Ricardo Claro de Abreu, Yuri Vital, Felipe Sato, Gabriel Braga (3D)
Construção Método
Acústica Acústica Engenharia
Fachadas Mário Newton Leme (consultoria); Itefal (fabricação e execução)
Estrutura de concreto França e Associados
Estrutura metálica Kurkdjian e Fruchtengarten
Consultoria de sustentabilidade/certificações CTE
Fotos Daniel Ducci

Fornecedores

Linha Mário Newton/OlgaColor (perfis de alumínio)
Dow Corning (silicone estrutural)
GlassecViracon/Guardian (vidros)
Isover (painéis isolantes Ecovent)
Somfy (acionadores automáticos)
Projeto Alumínio (painéis de alumínio composto)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 95
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