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| Hans
Gunter Flieg | "Não sou
fotógrafo de arquitetura. Arquitetura para mim é um dos muitos campos
que foram adquiridos" | | |
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| | Aos
82 anos, Hans Gunter Flieg - considerado um dos mais importantes profissionais
da moderna fotografia brasileira - tem histórias para contar aos arquitetos.
Apesar de afirmar categoricamente que não é um fotógrafo
de arquitetura, parte de seu trabalho foi sobre o tema. Registrou obras de Rino
Levi, Lucjan Korngold e Gregori Warchavchik, entre outros. |
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| | Neste
país em que tudo estava para acontecer, tudo estava para ser feito, não
existia demanda para a realização de trabalhos fotográficos,
ela teve que ser criada | | | |
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| | Não
sou fotógrafo de arquitetura. Arquitetura para mim é um dos muitos
campos que foram adquiridos. A exemplo de Lina, cada trabalho era um
trabalho | |  |  |
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| Radicado no Brasil desde 1939,
o fotógrafo alemão Hans Gunter Flieg trabalhou com publicidade,
registrou o desenvolvimento industrial brasileiro e documentou o crescimento urbano
de São Paulo durante, sobretudo, as décadas de 1950 e 1960. Dessa
forma, mesmo sem objetivar o registro da arquitetura da época, suas lentes
captaram obras de Oscar Niemeyer, Ícaro de Castro Mello, Zanine Caldas,
Lucio Costa e Lina Bo Bardi, entre outros. É dele, por exemplo, a célebre
foto da maquete do museu em São Vicente, de Lina (que deu origem ao Masp),
e que, na opinião dele, “felizmente nunca saiu da prancheta, porque eu
sei o que teria acontecido com os quadros em caso de falha no ar-condicionado”.
Sua foto da construção do ginásio do Ibirapuera é
igualmente imperdível. Também foi o fotógrafo oficial da
1ª Bienal de São Paulo, em 1951. Sobre esse trabalho, ele relata:
“Não conheço nenhum outro registro do pavilhão temporário”.
A entrevista a PROJETO DESIGN contou com a participação do fotógrafo-arquiteto
Nelson Kon, retratando e perguntando. | | |
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Como o senhor entrou em contato com a fotografia? Quem o ensinou? |
Em Chemnitz, onde nasci,
em 1923, vi muita coisa que me chamava a atenção, e eu gostava de
desenho. Do ponto de vista internacional, a cidade tem algo curioso: um loja de
departamento de Eric Mendelsohn [arquiteto alemão nascido em 1887 e falecido
em 1953, nos EUA]. A molecada dizia: “Vamos à tarde no ‘judeu’, para andar
de escada rolante”. As modernidades eram trazidas por arquitetos judeus, como
dois prédios residenciais altos, bonitos, que foram construídos
perto de minha casa e eram conhecidos, no jargão popular, como “castelos
de judeus”. Em 1937 fui para Berlim, estudei dois anos em uma escola que era um
centro de exames para a admissão na Universidade Cambridge. Pelas restrições
econômicas, no final de 1938, meu pai, como era judeu, só poderia
me comprar equipamentos fotográficos se comprovasse que eu era estudante
de fotografia. Ou seja, era uma espécie de investimento. Por isso ele comprou
a Leica, que ainda guardo comigo. Em Berlim, consegui fazer aulas particulares
com Grete Karplus, ex-fotógrafa do Museu Judaico de Berlim. |
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| Por que sua família escolheu o Brasil? |
Foi o primeiro país
que abriu suas portas, havia amigos nossos aqui. Não tínhamos nenhuma
idéia sobre o país, exceto dois livros, escritos em alemão,
a respeito do Brasil. Em condições normais teria me sentido muito
bem se pudesse ter continuado lá, na Alemanha. |
| | | Quais foram seus
primeiros trabalhos de fotografia no Brasil? |
Chegando aqui, fui procurar emprego em uma loja
que vendia artigos fotográficos. Assim conheci o velho Farkas, pai de Thomas,
que ficava no fundo da loja da São Bento. Mas não trabalhei lá.
Antes de fotografar, trabalhei na Companhia Litographica Ypiranga, onde fiquei
dois anos. Era a melhor gráfica que tínhamos aqui, na época
comandada pela segunda geração de gráficos alemães
da minha região. Trabalhei como aprendiz, litografia na pedra, na seleção
de cores, ainda ponto por ponto com tintas litográficas. Depois, tentei
um contato com a Lintas, a agência de publicidade da Lever, e por sorte
não deu certo, pois fui para a Gráfica Niccolini, na Brigadeiro
Luís Antônio, onde consegui emprego por dois anos. Comecei a fotografar
de tudo, com uma máquina de chapa de vidro de 13 x 18, equipamentos da
Niccolini e minha Leica. Neste país tudo estava por acontecer, tudo estava
para ser feito, nada estava pronto e era um lugar fascinante. Para mim continua
sendo. | | | |
Por que uma indústria gráfica tinha tanta demanda de trabalhos fotográficos?
Não existiam estúdios de fotógrafos? |
Não existia a demanda, ela foi criada.
Havia muitos trabalhos de reprodução, mas os fregueses da gráfica
eram do próprio grupo, que tinham laços familiares com propietários
de laboratórios farmacêuticos. | | |
| Que tipo de trabalho? |
Eram fotos de publicidade. O interessante é
que um dos veículos eram os mata-borrões, distribuídos pelos
representantes dos laboratórios aos médicos. De um lado era mata-borrão
e do outro vinha a propaganda, através de calendários do mês.
Fotografei também a construção de um laboratório. |
| | | Esse foi seu
primeiro trabalho com arquitetura? |
Pode-se dizer que sim. Eu me lembro de um trabalho de arquitetura
que vi, negativos de prédios da Prudência Capitalização,
que foi algo enorme. Eles construíram o prédio de Rino Levi na avenida
Higienópolis. Eram fotos de edifícios prontos sem céu, e
eu tinha que montar o céu na fotografia. Foi minha primeira experiência
e eu não gostei nem um pouco, porque era falso. |
| | | Quais outros
trabalhos de arquitetura o senhor fez? Eles eram contratados através da
construtora ou do arquiteto? |
Havia de tudo. Posso dar um exemplo: uma agência de propaganda,
possivelmente a Standard, recebeu a incumbência de mandar fotografar todos
os prédios que tivessem tubos de uma determinada marca. Eu me meti a besta
e fiz o trabalho em 35 milímetros. Fotografei com a Leica. Deu alguns problemas
de perspectiva, e foto de arquitetura não pode ter distorção.
Mas era tolerável. E hoje é um dos documentá-rios mais interessantes
de arquitetura que eu tenho, porque tem os prédios em vários ângulos,
fotos com os tapumes e propagandas da época, enfim, é uma série
muito rica. Entre meus trabalhos está o prédio da Prudência,
de Rino Levi. Tem, quase terminado, o edifício da Sears, na praça
Osvaldo Cruz, atualmente o Shopping Paulista. Tem o Banco do Brasil, na esquina
da rua Líbero Badaró com a avenida São João, na foto
ainda com tapume. Tem um edifício residencial [da empreiteira Otto] Meinberg,
na subida do Masp. O Sabará, o hotel Excelsior, com o cine Ipiranga. Tem,
na Brigadeiro Tobias, o edifício Mara, do Eduardo Kneese de Mello, que
foi um dos arquitetos do pavilhão da primeira bienal, que fotografei em
outra ocasião. A foto foi publicada no livro Arte para quê?, de Aracy
Amaral. | | | |
Na Bienal, o senhor documentou o prédio? |
Das áreas internas, tenho fotos da sala
da França e fotos de uma porção de obras. Mas, primeiro fotografei
a demolição do velho Trianon [edifício derrubado em 1950
para dar lugar ao atual Masp]. Tenho a documentação da demolição,
não dele inteiro. | | |
| O senhor fazia vistas exteriores ou documentava tudo? |
Cada caso era um caso.
A sede da Pirelli, de [Gregori] Warchavchik, por exemplo, tem externas e internas,
foi impresso, foi feito um grande catálogo. É o único caso
de que me lembro em que usei um grip para segurar a máquina por fora, para
fotografar a fachada e a marquise. Acho que isso foi feito na mão, e possivelmente
sem visor. | | |
| O senhor fez também imagens da fábrica Duchen,
de Oscar Niemeyer, não? Foi encomenda de quem? |
A encomenda partiu de uma agência. |
| | | E para Zanine
Caldas? | Fotografei
a maquete que ele fez para o projeto de Rino Levi para a casa da família
Gomes em São José dos Campos [interior de São Paulo]. Na
ocasião, Rino Levi, Zanine e eu fomos até uma obra de Rino na esquina
da praça Buenos Aires. Ele pediu os cadernos de negativos, olhou e colocou
na pasta. Nunca mais os vi. Anos depois, Alexandre Penedo, que estuda a arquitetura
de São Jo-sé, localizou as imagens no arquivo de Rino e me faz cópias.
Para Zanine, fotografei também toda a linha de móveis a partir de
1950. | | | |
Houve alguma encomenda direta de um arquiteto? |
Com Lina [Bo Bardi] sempre foi direto. Fiz trabalhos
para o Masp, na cidade, solicitados por museus estrangeiros. Lina tinha fotos,
em certa época, de móveis para o Masp. Eu fotografei a construção
do Masp, tenho fotos de plantas do museu. Acompanhei sua construção
e, quando ele estava pronto, Lina me pediu para fotografar o auditório. |
| | | Lina dirigia
o fotógrafo? | No
caso do Masp, sim. Não atrapalhava nem um pouco. Quando as coisas funcionavam,
nos dávamos muito bem. Houve um caso em que saiu fogo. Do ponto de vista
dela, talvez com razão. Foi quando Lina esteve na Bahia, no Museu do Solar
do Unhão. Ela tinha me encomendado uma fotomontagem do Masp. Eu estava
com outros trabalhos, e um dia resolvi começá-lo. Tirei fotos do
parque, porque eu precisava de imagens dele visto debaixo da maquete para fazer
o fundo. Faltava fotografar a maquete. Quando Lina voltou, foi razoavelmente desagradável.
Não foi fácil. Eu sei que quem fez a montagem depois foi Luiz [Hossaka],
mas não demorou muito tempo e entramos em contato novamente. Com Bardi
sempre me dei bem, com a devida distância. Fiz a fotomontagem, para Lina,
do projeto do museu na praia de São Vicente, que felizmente nunca saiu
da prancheta porque eu sei o que teria acontecido com os quadros no caso de falha
no ar-condicionado. O pessoal está usando e abusando desse tipo de montagem
atualmente. | | |
| Como era seu contato com revistas como a Habitat, dirigida
por Lina? | Muito
pouco. Com Lina, sim, mas muitas vezes acontecia de eu fazer um trabalho e ele
ser publicado. | | |
| Por encomenda da revista? |
Às vezes não a mim, provavelmente
aos arquitetos ou aos donos dos projetos. Tem um artigo na Habitat sobre o meu
trabalho. Foi uma piada. Tinha um ponto de táxi perto da minha casa e eu
me dava muito bem com o pessoal de lá. Em certo momento utilizei alguns
taxistas como modelo para um trabalho sobre caminhões. Então o taxista
Zé, o Leão, participou das fotos. No momento da revelação
identifiquei algo familiar. Na minha sala havia uma reprodução,
um cartão-postal, de um retrato de Peter Brueghel. Era um pastor de ovelhas.
Só o pastor debruçado quase sobre a moldura. E era a mesma cara
do Zé Leão, só que 400 anos antes. A mesma cara de levemente
safado. Reproduzi isso, fiz uma ampliação da foto do Zé e
levei para Bardi. Ele se encantou com isso, e publicou um artigo na Habitat. |
| | | O senhor não
era fotógrafo especializado em arquitetura ou em qualquer outra área.
Isso acontecia porque não havia demanda suficiente ou porque se considerava
que as artes, publicidade e arquitetura eram áreas interligadas? |
Note o seguinte: em
1930 havia no Brasil 40 milhões de habitantes; em 1940 tinha crescido 5%
e estava com 42 milhões; de 1940 para cá, isso quadruplicou. Há
uma expressão em alemão para uma criança que cresce muito
depressa: se diz que ela arrebenta as costuras. Qual a possibilidade para um desenvolvimento
orgânico, nas instituições, nas profissões, nas motivações,
na educação, na saúde? Isso explica quase tudo. Que outro
país teve esse aumento populacional? E além do crescimento populacional,
nas décadas de 1930 e 1940 o cidadão era outro. Aqui em São
Paulo houve toda a migração interna, todas as imigrações
européias, japonesa, coreana, enfim, a composição atualmente
é muito diferente do que era nas décadas de 1930 e 1940. Coloque
nisso o senso de identificação, o senso de "meu país",
de "minha pátria". A pessoa vem para cá fugida, faminta,
para fazer a América. Quando consegue, e tem um caráter razoável,
vai sentir provavelmente alguma gratidão pelas possibilidades que teve
aqui. O máximo é que a próxima geração possa
começar a pensar em identidade. | | |
| Mas o que o senhor mais gostava de fazer? Foto industrial,
de publicidade ou de arquitetura? |
O que dá prazer é aquilo que você conhece,
o que você chega a conhecer depois de fazer. Como os cristais, que era algo
que culturalmente conhecia em casa. Vidro era algo de que gostava, mas que eu
não teria procurado, ocorreu por acaso e é uma longa história.
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Mas se fosse para escolher as imagens de uma retrospectiva? |
Talvez sejam as de alguns
álbuns de família que eu fiz, da minha família. Isso é
valioso, discutível. Porque a natureza, muito sábia, inventou a
memória, que, sozinha, vai se apagando, ficando mais nebulosa. Se você
não permite isso, através de fotografias, ela se fixa às
imagens gráficas. Se você não tem fotografias, a memória
pode aparecer em sonhos ou pode ir atenuando-se aos poucos e de repente dá
lugar para outras coisas. A fotografia nesse sentido é algo muito curioso.
Hoje o que eu gosto de fazer? Para mim, hoje, o trabalho tem total fascinação
pela diversidade do que produzi. | | |
| Vamos falar da preferência do fotógrafo.
Quando o senhor fotografava, por exemplo, obras de Lina e de Niemeyer, qual o
senhor preferia? | Não
sou fotógrafo de arquitetura. Arquitetura para mim é um dos muitos
campos que foram adquiridos. A exemplo de Lina, cada trabalho era um trabalho.
Essa maquete era uma coisa, a construção do Masp era outra. A foto
do Masp quase pronto teve talvez oito ou dez exposições, mas de
repente a foto com um grupinho de crianças é diferente. Cada foto
é um trabalho. | | |
| A arquitetura entrou em seu trabalho como um ramo
cultural? | Cultura
não, isso tudo é posterior. Detestava oferecer meu trabalho, e por
isso fiz cada um deles tão bem quanto possível, para haver uma seqüência
de recomendações. Isso me custou tempo, não sei quanto, mas
não interessa. O que importa é o resultado final. Até foi
difícil comparar meus preços, porque o trabalho valia a pena. Senão
não teriam pago e também não acredito que tenha sido um preço
doido. | | | Por
Fernando Serapião e Nelson Kon Publicada
originalmente em PROJETODESIGN Edição 307 Setembro de
2005 | |
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