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| Ruy Thales
Baillot |
| É preciso investir em projetos |
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"O ideal é que todas
as contruções tenham controle de qualidade,
mas poucas empresas fazem este procedimento" |
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Eleito presidente
da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia
da Construção Civil (Abratec) para o biênio
2005/2006, o geólogo Ruy Thales Baillot planeja encaminhar
propostas que já vêm sendo discutidas por outros
setores envolvidos no processo construtivo. A mais importante
delas é a luta para que os empreendedores comecem a
perceber que as etapas de desenvolvimento dos projetos de
arquitetura e executivos, investigação e controle
tecnológico devem ser encaradas como investimento,
e não como despesa. Nesta entrevista a Cida Paiva,
Baillot relata os prejuízos que podem ocorrer numa
execução sem os necessários procedimentos
de controle de qualidade e fala sobre as posições
a serem defendidas pela entidade. “Deveriam ser gastos um
ou dois anos na elaboração de projetos e seis
meses na construção da edificação.
Dessa forma, seria possível promover as mudanças
necessárias, antes do início da obra. Alterações
posteriores às vezes interferem no trabalho feito pelo
arquiteto, e ninguém tem o direito de modificar um
projeto de arquitetura, a não ser o próprio
autor”, afirma ele.
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| O que caracteriza o controle de qualidade
e o controle tecnológico na construção? |
Controle de qualidade é um conceito
que engloba o controle tecnológico, a verificação
da mão-de-obra, do aço, da armadura, se
o concreto que está sendo utilizado tem trabalhabilidade
para fazer formas mais ousadas, ensaios de aceitação
da obra, propriedades dos materiais temporais etc. Um
projeto de arquitetura que contempla muitas curvas, por
exemplo, exige cuidado rigoroso com a utilização
de fôrmas adequadas para atender às solicitações
do arquiteto. O ideal é que todas as construções
tenham controle de qualidade, mas poucas empresas ainda
fazem isso no Brasil. O controle tecnológico ocorre
em cerca de 20% das obras de edifícios administrativos
de alta tecnologia. Na área de edificações
residenciais, ele é raríssimo.
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| Qual a proposta da Abratec para modificar
esse quadro? |
A entidade tem procurado conscientizar
o público consumidor sobre a importância
da qualidade e do controle tecnológico da construção.
E também conscientizar o construtor e o empreendedor.
É importante destacar que esse trabalho custa uma
porcentagem tão pequena da obra, que não
vale a pena gastar muito mais, no futuro, por causa do
desempenho da edificação.
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| De que forma a entidade planeja levar
as informações ao comprador do imóvel? |
O primeiro passo é procurar mostrar
que ele deve observar cuidadosamente vários aspectos
antes de efetuar a compra de um imóvel, seja residencial
ou comercial. Pequenos defeitos podem representar uma
clara evidência de que outras coisas provavelmente
estarão piores. Uma fechadura torta ou uma esquadria
ruim é sinal de que falhas maiores podem estar
em locais não visíveis.
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| Isso significa que os procedimentos
indicados por normas técnicas não vêm
sendo seguidos? |
Quem modifica algo é quem faz.
Não se pode esperar que uma lei seja criada para
disciplinar uma tarefa qualquer. A lei é uma conseqüência
do uso e só existe quando há um erro. Quando
a pessoa vai comprar um imóvel deveria perguntar
quem fez o projeto, a sondagem, a construção,
o controle tecnológico. São as evidências
da qualidade, que algumas empresas exibem. A ISO, que
estabelece padrões de garantia da qualidade, tem
vários tipos de certificação. A norma
ISO 17.025 é pouco conhecida, mas é exatamente
para empresas de tecnologia.
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| O que estabelece a ISO 17.025? |
Ela contempla tudo que é estabelecido
pela ISO 9.000 e também exige que a empresa comprove
competência para fazer o trabalho a que se propõe.
Por exemplo, no caso de uma firma que vai fazer ensaio
de compactação de aterros, por determinado
método, a certificadora verifica se ela tem manual
de qualidade, facilidade de localização
de ensaios e relatórios, equipamentos calibrados,
com unidades rastreáveis, mão-de-obra treinada,
ambiente de trabalho adequado. Tudo isso é determinado
pela ISO 17.025, mas poucos conhecem. As associadas à
Abratec são atestadas pelo Inmetro segundo a ISO
17.025 e a norma indicada por elas, que geralmente é
a da ABNT.
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| Quantas empresas são associadas
à Abratec? |
Catorze. Trata-se de uma associação
nova, criada há cerca de seis anos e que está
adquirindo sua personalidade. A direção
da Abratec estuda a proposta de mudança de seus
estatutos, para poder abrigar também universidades
e institutos de pesquisas, entre outras entidades.
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| Em qual área essas empresas atuam? |
O controle tecnológico abrange
controle da qualidade do concreto, solo, fundações
e sondagem e verificação do comportamento
da estrutura. Hoje há a consciência de que
todo o concreto deve ser controlado. Existe também
uma consciência nos aterros de responsabilidade,
como barragens e estradas. O controle de qualidade é
tênue na área de fundações
e praticamente não é feito na sondagem,
que é hoje um dos setores mais problemáticos.
Topografia e sondagem caíram no nível da
marginalidade porque, aparentemente, podem ser realizadas
com grande facilidade. Em São Paulo, que é
uma referência, pouquíssimas empresas fazem
trabalho de sondagem com qualidade atualmente.
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| Quais os planos da Abratec para esses
setores? |
Atualmente, nossa plataforma é
divulgar informações para o consumidor e
para a comunidade da construção civil e
buscar contato com entidades do setor. O grande problema
é expandir para outros estados, além de
São Paulo. Porque o custo para uma empresa ser
reconhecida pelo Inmetro é muito elevado. Anualmente,
os auditores visitam as empresas, verificam se o sistema
da qualidade está funcionando, se os equipamentos
estão calibrados, se há resultados rastreáveis
e se a firma detém a tecnologia do trabalho a ser
executado. Há também outra ferramenta, que
poucas pessoas conhecem: o programa interlaboratorial.
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| Como funciona esse programa? |
Trata-se de uma recomendação
da ISO mundial. Ele é coordenado por uma comissão
técnica de laboratórios de ensaios do Inmetro.
As empresas associadas à Abratec também
participam. Cada laboratório coordena um programa
direcionado para determinado produto da construção
civil - concreto, cimento, telhas, tijolos, por exemplo
- e distribui amostras iguais para os outros laboratórios.
Todos fazem o mesmo ensaio e devolvem os resultados, tratados
estatisticamente e verificados se estão dentro
de uma elipse de confiança. Esse programa é
recomendação da ISO e vários países
fazem, mas um dos melhores é o brasileiro. Foi
criado há cerca de 12 anos.
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| Como o programa é mantido economicamente? |
Na Holanda, quem paga o interlaboratorial
são os fabricantes. No Brasil, são os próprios
laboratórios. O objetivo do programa é saber
se estes estão desenvolvendo ensaios de maneira
compatível, com índices de confiança.
Isso significa que o consumidor poderá fazer ensaios
em qualquer um dos laboratórios associados da Abratec
e participantes do programa, que tem o objetivo de mostrar
a qualidade do trabalho desenvolvido por eles. Trata-se
de uma autoverificação.
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| A indústria da construção
vem utilizando esses dados de forma satisfatória? |
A maioria das empresas desconhece que
existe um programa interlaboratorial e que esses laboratórios
são acreditados pelo Inmetro.
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| Em qual etapa da construção
deveriam ser solicitados os ensaios? |
Legalmente, toda obra deveria ter controle
de qualidade. Um dos esforços da Abratec é
no sentido de fazer com que a indústria da construção
civil desperte para algo aparentemente simples e plausível,
que é o controle tecnológico, a investigação
do sítio, os laudos e ensaios para que a obra seja
compatível com o terreno, por exemplo. Esse trabalho
custa de 0,01% a 0,5% do valor do empreendimento. Não
tem sentido, portanto, fazer economia nessa etapa. Esse
percentual reverte em economia de custos e tranqüilidade,
pois a construtora é responsável pela obra
durante cinco anos. A utilização de produtos
não conformes pode gerar gastos adicionais com
manutenção.
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| O que pode ocorrer com uma obra feita
sem controle tecnológico? |
Uma investigaçao malfeita pode
acarretar muitos prejuízos - custos de etapas não
previstas, retrabalho, desperdício de material.
Sem um projeto detalhado, pode acontecer de na construção
surgirem interferências não detectadas anteriormente.
A sondagem não foi bem-feita e na hora de construção
dos subsolos chega-se a uma rocha, que deverá ser
cortada. Isso custa dinheiro não previsto no orçamento.
Os projetos deveriam ser desenvolvidos simultaneamente
ao trabalho de investigação, pois assim
seria possível promover as mudanças necessárias
antes do início da obra. Alterações
posteriores às vezes interferem no trabalho desenvolvido
pelo arquiteto e ninguém tem o direito de modificar
um projeto de arquitetura, a não ser o próprio
autor. É como mudar um livro, um quadro, uma obra
de arte.
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| Então é melhor investir
em projeto? |
Se o empreendedor tivesse consciência
de quanto custa a correção de erros na obra,
ele investiria no desenvolvimento dos projetos. Seriam
gastos um ou dois anos nessa etapa e seis meses na construção
da edificação. No exterior é assim,
e no Brasil ocorre exatamente o contrário. O projeto
deve ser desenvolvido com competência, revisado,
estudado. Todos os projetos - de arquitetura aos executivos
- custam de 2% a 5% do valor de uma obra. A economia nessa
fase pode resultar em gastos maiores para a correção
de erros. A proposta da Abratec é mostrar que projetos,
investigação e controle tecnológico
devem ser encarados como investimentos, e não como
despesas. Infelizmente, a maioria da comunidade da construção
civil não vê assim. O empreendedor deveria
investir de 3,5% a 7% do valor da obra para obter qualidade
e desempenho.
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| Existem empresas que atuam dentro dessa
prática? |
Sim, há centros de excelência
no mercado. E essas empresas são facilmente reconhecidas.
Elas têm buscado um diferencial no controle da qualidade.
Porém, existe ainda muita desinformação
no setor e algumas empresas de construção
encaram o controle tecnológico apenas como uma
exigência a ser cumprida, de maneira burocrática
e pelo menor preço possível.
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| O mercado tem registrado o aumento do
número de obras com pré-fabricados, como os
painéis de concreto e os perfis metálicos para
estruturas. Produtos industrializados têm melhor controle
tecnológico? |
Certamente. Todo produto industrializado
passa por controle tecnológico - viga, tubo de
água, estruturas metálicas, painéis
de concreto. No caso das estruturas metálicas,
o que ocorre é que a oferta de tipologias de perfis
no Brasil ainda é muito pequena, não há
disponibilidade de grande número que permita atender
a projetos com formas mais arrojadas. Mas todas as empresas
sérias do segmento fazem controle tecnológico.
Até porque elas só poderão responder
a um processo de mau desempenho de uma fachada se tiverem
laudos que mostrem que seu produto foi construído
com qualidade. Vou dar um exemplo: a Wal-Mart contrata
serviços de controle para todos os itens - piso,
elétrica, hidráulica, incêndio, telhado,
estrutura e fachada, entre outros. Nenhuma empresa séria
faz um controle parcial, pois é muito perigoso.
O controle da qualidade da indústria da construção
civil é obrigatório e necessário.
E a certificação também é
importante, pois prova que a empresa faz um bom produto.
Instituições como o Inmetro e a Associação
Brasileira de Normas Técnicas, selos como o NBR
e ISO fazem parte dos requisitos básicos das grandes
construtoras. O ideal seria criar um selo em conjunto
com o Inmetro para comprovar a qualidade da obra que vai
ser entregue ao consumidor.
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Por Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 42 Setembro de 2005 |
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