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João Eduardo de Gennaro,
76 anos, possui trajetória ímpar. No início
da carreira, associado a Paulo Mendes da Rocha, desenhou célebres
projetos da escola paulista, como o Clube Paulistano (1957)
e o edifício Guaimbê (1964). No final da década
de 1960, transferiu-se para o grupo Itaú e lá
montou a Itauplan, um dos maiores escritórios de projeto
que o Brasil já teve. |
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O arquiteto tem que lutar para
entrar no poder público, tem que tomar conta da cidade.
Tínhamos que dar uma orientação nessa
periferia toda, para pleitear o bem-estar dessa população |
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| Logo após se
formar, em 1954, na Universidade Mackenzie, João Eduardo
de Gennaro formou escritório com cinco colegas da universidade.
Entre eles estava Paulo Mendes da Rocha, com quem De Gennaro
criou diversos ícones da arquitetura paulista dos anos
de 1950 e 1960. Em 1967, foi convidado a trabalhar na Duratex,
empresa do grupo do banco Itaú. Em seguida, criou a
Itauplan, que segundo ele chegou a ter “mais de 700 funcionários”
e se tornou uma verdadeira escola de arquitetura: além
de fazer o projeto arquitetônico, o arquiteto coordenava
todos os complementares, também realizados no escri-
tório. Junto ao banco, desenvolveu os mais diversos
trabalhos, chegando a entregar 300 agências bancárias
em um único ano. Desenhou indústrias, prédios
administrativos, centro de processamento de dados, edifícios
de apartamentos e até “um moinho”. Entre todos os projetos,
De Gennaro destaca o Centro Itaú Conceição
como o mais importante. Aposentado em 1993, ele continua na
ativa: “Arquiteto que fica parado não é bom”,
arremata. |
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| Fale-nos um pouco do início de
sua carreira. O senhor e Paulo Mendes da Rocha eram colegas
de turma? |
Sim. Logo que saímos da faculdade,
montamos um escritório em cinco pessoas, todos
do Mackenzie: o Bosco, um engenheiro calculista muito
bom, Djalma de Macedo Soares, Paulo Mendes da Rocha, Carlos
Darwin e eu. Alugamos um escritório em frente da
Biblioteca Mário de Andrade, no edifício
Filizola, entre 1954 e 1955. Trabalhamos lá por
dois ou três anos. Nessa época, por exemplo,
fiz um prédio residencial em Santos, o edifício
Clímax, uma obra com 12 ou 15 andares, na beira
da praia.
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| O prédio ainda existe? |
A última vez que passei por lá
ele estava inteiro. E iam aparecendo algumas residências
de amigos, como a de Paulo Monteiro de Barros, no Alto
de Pinheiros, que fiz com Paulinho [Mendes da Rocha].
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| Quando o senhor e Paulo Mendes da Rocha
resolveram se associar? |
Foi por causa do concurso do Clube Paulistano,
que ganhamos. O concurso foi todo desenvolvido na sala
do apartamento de Paulinho, na rua Lisboa. Apenas eu e
ele. Depois que ganhamos o concurso compramos um escritório
no Conjunto Nacional. E o prédio não tinha
nem elevador!
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| Antes do Paulistano, vocês já
tinham feito algum trabalho juntos? |
Além da casa de Monteiro de Barros,
fizemos a residência de Virgílio Lopes da
Silva, que era secretário estadual da Segurança,
também no Alto de Pinheiros. E fazíamos
muitos estudos, principalmente para o médico Clóvis
Machado de Campos, que também era um incorporador
de prédios de apartamentos. Ele tinha em vista
um terreno, fazia um levantamento muito preliminar, e
nos convidava para fazer um estudo do aproveitamento daquela
área.
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| O Guaimbê é dessa época? |
Não, o Guaimbê foi feito
pelo pessoal da Idelmo, que era uma incorporadora e que
lançou o Conjunto Nacional. Mas com o médico
saiu pouca coisa. Tabalhava-se muito de graça naquela
época.
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| Aliás, ainda se trabalha, não
é? |
Não dão valor. A gente
faz muito estudo e pouca obra. Hoje em dia, ainda mais.
Naquela época começamos a fazer muitos projetos
de escolas, postos de puericultura, fóruns, tudo
na gestão Carvalho Pinto [governador de São
Paulo de 1959 a 1963]. Fizemos coisas em Santo André,
em São José dos Campos, em Campinas. Mas
hoje está tudo meio mutilado. O IAB não
tem força política dentro de São
Paulo para conservar essas obras. Fizemos também
a casa do Paulinho e do cunhado dele, ganhamos o concurso
de Goiânia.
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| O senhor mantém contato com Paulo
Mendes da Rocha? |
Faz muito tempo que não o vejo.
Da última vez, eu ainda estava na Itauplan. Eu
me afastei muito.
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| E como foi o convite para ir para o
Itaú? |
Veio a famosa crise com a revolução
de 1964. Eu era muito amigo de Vilanova Artigas. Paulinho,
que também tinha muita ligação com
ele, já era professor na faculdade, eu ficava no
escritório. Mas eu era muito amigo de José
Marques Comparato, que morava numa casa desenhada por
Ricardo Sivers, que me convidou para trabalhar no Itaú.
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| Ele era do Itaú? |
Era engenheiro da Deca. Foi ele que construiu
o fórum de Avaré, projeto meu e de Paulinho.
E Comparato me apresentou a Olavo Setúbal, que
me contratou para o departamento de engenharia da Duratex,
que estava iniciando, e precisava de um apoio para a indústria.
Nessa época, ele começou a montar o banco
de novo, a recuperar a Duratex, que tinha falido. E fui
para o grupo Duratex, que era na rua Boa Vista, no centro
[de São Paulo].
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| Em que ano o senhor entrou para a Duratex? |
Em 1967. Foi um período muito
difícil. Uma vez chegamos ao escritório
do Conjunto Nacional e a polícia estava nos esperando.
Paulinho tinha ido para Cuba, Carlos Milan, que era muito
ligado a nós, tinha falecido de maneira trágica,
acidente de automóvel. Foi uma época difícil.
Então fui para a Duratex. Havia lá um pequeno
departamento de projetos, com um ou dois engenheiros e
um arquiteto.
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| Que tipo de trabalho o senhor fazia
na Duratex? |
Projeto de todas as indústrias,
toda a manutenção e ampliação.
Fiz uma indústria nobre, em Botucatu, com tudo:
tratamento de água, paisagismo etc. E fiz indústria
em Jundiaí, no parque industrial, em Manaus, para
a Itautec, e muita agência bancária. Fiz
prédio, banco na Argentina, Estados Unidos. Cheguei
a ter 700 funcionários na Itauplan. Havia um corpo
de engenharia com elétrica, hidráulica,
ar-condicionado. Todos os projetos complementares eram
feitos lá dentro. Tínhamos projetistas de
pontes, decoradores, pessoal de comunicação
visual que cuidou de um símbolo preto, que foi
o primeiro símbolo do banco.
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| Como era o trabalho dentro da Itauplan? |
Eu montava grupos de trabalho, para indústrias,
agências etc. Teve época em que entregamos
em um ano 300 agências do Itaú. Olavo entrava
na Itauplan pelo menos uma vez por semana. Nessa época
estávamos na [avenida] Paulista.
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| De que maneira o senhor formou a equipe? |
Com alunos, colegas etc. A Itauplan era
um departamento do banco Itaú em que todo mundo
queria trabalhar, porque lá se fazia projeto completo,
tinha contato com engenheiro, com elétrica, com
hidráulica. E eu conseguia fácil engenheiros
e arquitetos ótimos. A turma da Itauplan foi selecionada
e quando saí de lá deixei uma equipe muito
boa. Eu não tinha muita questão com horário,
coisa de escritório comercial, eu queria produção.
Eu tinha que entregar centenas de agências em um
ano, então obrigava todos a fazer programação,
programa do projeto completo. E tinha que coordenar elétrica,
hidráulica, ar-condicionado, estrutura, tudo. A
meninada tinha que coordenar tudo. Não era só
fazer arquiteturinha e entregar de qualquer maneira. De
jeito nenhum. Não se desenvolvia o projeto de arquitetura
se não se tivesse o projeto de estrutura, se não
se tivesse resolvido o projeto de elétrica, o ar-condicionado,
a hidráulica. Tudo compatível.
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| Entre os projetos que o senhor realizou
no Itaú, qual considera o mais importante? |
O [Centro Itaú] Conceição.
Foi um dos maiores e melhores. Quando tivemos de fazer
esse projeto, eu fui para a Europa com a equipe para ver
coisas semelhantes. Olavo quis dar uma praça para
a prefeitura e queria que o metrô também
servisse o Conceição. Aquele terreno foi
comprado num leilão, era uma área muito
grande, um buraco, como muitas áreas em São
Paulo completamente abandonadas. Olavo foi atrás
da Emurb [Empresa Municipal de Urbanização],
ofereceu em troca um monte de coisa. Ele gastou dinheiro
e beneficiou o poder público, mas exigiu também
alguma coisa. E tudo foi através da Emurb, com
uma aprovação difícil de ser feita.
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| Como foi feito o projeto? Quem é
que desenhava, quem deu as primeiras coordenadas? |
Eu gerenciava tudo, eu tinha que aprovar
tudo, primeiro tinha a aprovação minha,
depois tinha a de Olavo, que aprovava comigo e às
vezes com a equipe toda. Jaime [Cupertino] fez parte desse
projeto, trabalhou muito nele, e Javier [Manubens] também.
Eram os dois arquitetos que comandaram o resto da equipe.
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| A Itauplan oferecia uma situação
confortável para trabalhar, porque ninguém tinha
que correr atrás de projeto, não é? |
Muito. Eu gastava dinheiro em projeto,
e as coisas funcionavam, com rapidez. Hoje em dia você
faz um projeto que demora dez anos para se realizar.
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| E quem executava as obras? |
O pessoal do local, sempre. Eu selecionava
as firmas, fazia as concorrências. A Itauplan se
encarregava de tudo isso.
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| Mas o senhor chegava a desenhar? |
Sim. Havia as chamadas agências
especiais, como a da praça Pan-Americana [em São
Paulo], que eu acompanhava mais de perto. Fiz também
muitos prédios para a computação,
em todo bairro de São Paulo tem um. A esses prédios
eu tinha que dar muito mais atenção. Um
dos primeiros projetos que realizei foi no Anhangabaú,
que era da seguradora do grupo. Hoje, acho que até
foi vendido esse prédio. Fica ao lado do Teatro
Municipal, na esquina da rua Barão de Itapetininga.
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| Está tudo documentado? |
Tudo fotografado, filmado. Tem um arquivo
enorme. O Itaú tem um arquivo fascinante e a Itauplan
tinha também.
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| Onde está esse arquivo? |
Acho que devia estar no Itaú Cultural,
que foi um projeto de Ernest Mange. No início,
eu participei.
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| Por que escolheram Mange? |
Era colega de Olavo. Ele ficou um tempo
como coordenador do instituto e depois passou para outro
diretor do banco. Hoje é Milu Vilela que cordena.
Lá também tem a Malu, assistente de Milu,
que começou na Itauplan, uma ótima arquiteta.
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| A Itauplan chegou a prestar serviços
para terceiros? |
Alguns trabalhos. Era o que eu mais queria,
mas Olavo não deixava. Dizia: “Vocês não
dão nem conta do serviço aqui, querem prestar
serviços para terceiros?”. Mas tinha muito serviço
ligado a diretores, ligados ao grupo. E outras firmas
do próprio grupo, como a Sulimob, que é
uma empresa de incorporação totalmente independente
do banco e que fazia muito apartamento popular e alguns
finos. Fizemos, por exemplo, um prédio na Bela
Cintra, quase na Paulista. Fizemos no Recife uma indústria
enorme na área química e até moinho
de trigo. Trabalhei que nem um camelo. Essa organização
me deu muita satisfação, mas me sugou demais.
Eu trabalhava sábado e domingo. No sábado,
Olavo queria ver as indústrias, queria ver uma
obra ou outra, e eu saía com ele, não tinha
jeito.
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| E por que a Itauplan acabou? |
Chegou um momento que os gerentes e diretores
do banco não viam com bons olhos a Itauplan, porque
eles queriam contratar as obras, os projetos. Mas Olavo
não deixava, segurava, ele e o pai de Jaime, que
era um dos diretores do banco e foi diretor da Duratex
também.
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| Depois as coisas mudaram, não? |
Eles não tinham mais a força
de antes. Vieram os filhos, a nova geração,
que tem outra visão, da terceirização.
Mas quando veio a crise do período Collor tive
que cortar 50% da equipe. Quase tive uma úlcera
no estômago.
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| E quando o senhor saiu? |
Foi em 1993, pois lá no banco
era assim: atingia 62 anos, tinha que sair. Eu ainda fiquei
um ano a mais.
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| Fazendo uma avaliação,
o senhor sente mais carinho por qual projeto, o Paulistano
ou o Conceição? |
Eu tenho muito carinho por minhas coisas,
mas acho que o principal é a equipe que montamos.
A equipe da Itauplan.
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| O modelo que o senhor trabalhava com
Paulo Mendes estava ligado à idéia de Artigas,
do concreto, com uma visão social da arquitetura. O
senhor sentiu alguma reação pelo fato de estar
trabalhando em uma empresa ligada a um banco? |
Nunca me incomodaram. Aliás, eles
me procuraram, às vezes para conseguir projetistas,
porque eu formava muitos projetistas lá também.
Não era também o melhor salário do
mundo, mas tinha muito trabalho e o trabalho forma um
arquiteto. O arquiteto que fica parado não é
bom. Então, todo mundo queria ir trabalhar lá.
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| Depois que saiu da Itauplan, o que o
senhor tem feito? |
Fiz uma casa para o meu filho, fiz uma
para mim. Estou trabalhando até hoje. Ontem estive
em Campos do Jordão, pois estou finalizando uma
casa.
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| Essa casa em Campos do Jordão
o senhor desenhou à mão? |
Eu desenhei à mão. Não
tenho escritório. Contratei uma menina que trabalhou
comigo muito tempo no Itaú, Lúcia Ravache,
é otima arquiteta.
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| O senhor se arrepende de alguma coisa? |
Acho que trabalhei demais e larguei muito
o IAB. O arquiteto tem que lutar para entrar no poder
público, tem que tomar conta da cidade. Temos tantos
arquitetos, tínhamos que dar uma orientação
nessa periferia toda, para pleitear o bem-estar dessa
população. O IAB tinha que ter força,
entrar nessa briga.
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Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 306 Agosto de 2005 |
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