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| Fernando
Chacel | | "Não planejei
ser paisagista. As coisas acabaram acontecendo na minha vida e, de repente, me
associei a um botânico muito importante". | |
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| | Fernando
Chacel formou-se em 1953 na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade
do Brasil (atual UFRJ). Entre 1952 e 1953 foi estagiário de Roberto Burle
Marx, a quem atribui seu interesse pelo paisagismo. “O fascínio pela arte
de Burle Marx, por suas cores, foi algo que me emocionou muito e me revelou um
caminho no qual não havia pensado”, diz ele. O que mais chama a atenção
no trabalho de Chacel não é o paisagismo de pequeno porte, as formas,
volumes ou o conhecimento sobre espécies e materiais, mas o domínio
da paisagem de grandes glebas, a recuperação ambiental de áreas
de porte elevado. Nesse contexto, seu trabalho mais conhecido é o conjunto
de projetos na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, como os parques Professor Mello
Barreto e Fazenda da Restinga. E Chacel diz ainda que há muito a fazer
por lá, principalmente na porção oeste. “É muita área”,
ele relata. Nos intervalos do 3º Seminário Internacional de Paisagismo,
realizado no início de junho, no Senac/São Paulo, Chacel concedeu
esta entrevista a PROJETO DESIGN. | | | |
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| | Na
Cidade da Música, fizemos um parque temático, que é exatamente
uma espécie de restauração de todos os elementos da paisagem
original da Barra da Tijuca, ou seja, da restinga e do manguezal | |
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| Distante das discussões
sobre tendências ou mercado, Fernando Chacel é considerado, atualmente,
o mais importante paisagista brasileiro. Ele acaba de ganhar uma honraria internacional,
que, em suas palavras, é “um reconhecimento da Fundação Dembarton
Oaks, de Washington”, instituição ligada à Universidade Harvard,
nos Estados Unidos. | | |
| Como surgiu seu interesse pelo paisagismo? |
Minha formação
primeira foi a de arquiteto. Meu interesse pelo paisagismo surgiu exatamente quando
fui trabalhar no escritório de Roberto Burle Marx, onde fui estagiário
entre 1952 e 1953. Mas, na realidade, não fui trabalhar com paisagismo:
fiquei encarregado de uma exposição que ele faria em Washington,
nos Estados Unidos, e eu pintava os desenhos que ele iria expor. Foi quando conheci
seu lado artístico.
Esse fascínio pela arte de Roberto Burle
Marx, por suas cores, foi algo que me emocionou muito e me revelou um caminho
no qual não havia pensado. Posteriormente, fui trabalhar na prefeitura,
no setor de paisagismo, como uma pessoa que havia trabalhado no escritório
de Burle Marx. Então, eu era visto como um paisagista e me deram uma praça
para fazer. | | |
| E o senhor fez? |
É uma história curiosa. Realmente
eu não sabia o que fazer, nunca fizera uma praça na minha vida.
Eu ainda tinha laços com Burle Marx e, então, fui ao arquivo dele,
peguei uns dois ou três desenhos de situações semelhantes
e, mais ou menos, fiz uma espécie de colagem. Para fazer os desenhos, deu
certo. Utilizei a pedra portuguesa, aquelas formas amebóides. Na parte
de vegetação fui procurar o mestre de jardim de Burle Marx, para
que ele me explicasse o que era aquilo que eu via nos desenhos, aquela determinada
planta, e comecei a entender os projetos.
Criei um produto final. Fiz
um desenho a guache, técnica com a qual eu estava bastante sintonizado,
e a impressão de meus colegas da repartição pública
foi a de que se tratava realmente de um discípulo de Burle Marx. Ele nunca
soube disso. | | |
| E essa praça foi executada? |
Não, graças
a Deus. Mas essa foi a minha primeira experiência profissional na área
do paisagismo. Veja, eu não planejei ser paisagista. As coisas acabaram
acontecendo na minha vida e, de repente, me associei a um botânico muito
importante, Luiz Emygdio de Mello Filho. Posso dizer que ele foi a pessoa mais
importante na minha formação. Na ocasião, fechamos um contrato
com a Central Hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais, para fazer uma série
de trabalhos na barragem de Furnas. Foi quando comecei a entrar em outra área,
embora com o raciocínio ainda muito ligado à idéia de jardim.
Os trabalhos de Furnas também foram vistos por Lucas Nogueira Garcez, da
Cesp [Companhia Energética de São Paulo]. Ele gostou e me convidou
para trabalhar na Cesp. Então eu trabalhei três anos para Furnas
e dez anos para a Cesp. | | |
| Que tipo de trabalho? |
Foi na Cesp que realmente houve a grande virada
de meu trabalho de jardinismo para algo mais ambiental. E foi exatamente na barragem
de Paraibuna, em São Paulo, que tive a primeira experiência no sentido
de recuperação de uma área degradada, de restauração
paisagística. Já havia a visão de se fazer alguma coisa para
recriar, com plantas nativas, algo que se assemelhasse ao ecossistema original.
Ainda não existia, contudo, esse conceito de ecogênese tão
forte. Em Paraibuna, trabalhei também com um dos nossos grandes ambientalistas,
que é Aziz Ab’Saber. Aprendi muito com ele. Nós realmente começamos
a fazer um trabalho de produção de mudas, o que foi uma espécie
de embrião para obras que se desenvolveram depois, com uma série
de pessoas do setor ambiental, como agrônomos e engenheiros florestais.
Esse foi o primeiro trabalho sistemático nessa linha de pensamento. |
| | | Nesse contexto,
o senhor considera o trabalho de Burle Marx mais de paisagismo ou ambiental? |
O paisagismo também
é ambiental. Hoje mostrei [no seminário] projetos que ele fez com
biólogos, como os que elaborou para as lagoas [Grupo Biológico das
Lagoas, no Rio de Janeiro], que são trabalhos ainda em voga. Embora não
executados, são ecogenéticos. Não foram realizados porque
não era o momento, sobretudo porque não havia pressão de
lei. | | | |
Em entrevista para PROJETO DESIGN, Rosa Kliass afirmou haver no Brasil duas correntes
paisagísticas: uma de Roberto Burle Marx, a outra de Roberto Coelho Cardoso.
O senhor concorda com essa visão dos dois Robertos? |
Concordo, embora os dois
tenham atuado de formas muito diferentes, com influências diversas. Roberto
Coelho Cardoso vem de uma escola californiana. Apesar de seu nome português,
ele era filho de americano. Cardoso prestou um grande serviço porque tinha
uma cátedra, era professor de paisagismo. Ele influenciou toda uma geração
de alunos, o que foi um trabalho muito positivo. Mas, como paisagista, eu não
compararia Roberto Cardoso com a arte de Burle Marx.
O que Burle Marx
fez na área da botânica é insuperável. Mas que existem
os dois Robertos, isso é verdade. Eu acho, contudo, que são escolas
muito diferentes. Nunca vi em Roberto Coelho Cardoso o menor interesse pela ecologia;
ao contrário, ele tinha um trabalho extremamente construtivista, que era
muito diferente do de Burle Marx. | | |
| Há grandes diferenças de escala nos
trabalhos que o senhor realiza, não? |
Eu trabalho nas escalas mais variadas. Vou falar
um pouco de meus escritórios. São dois pequenos escritórios,
um em São Paulo, com meu sócio Sidney Linhares, e um no Rio de Janeiro.
Nós trabalhamos de forma complementar. A maioria dos nossos clientes,
embora o escritório em São Paulo também tenha trabalhos muito
grandes, está concentrada no Rio. Talvez por causa desses projetos na Barra
da Tijuca, que abriram um grande campo de atuação para nós,
sobretudo por responderem a problemas legislativos. Então, nesse sentido,
nós somos muitas vezes chamados nos empreendimentos antes do arquiteto.
Nós trabalhamos também no âmbito dos impactos ambientais,
sempre no sentido de criar ecossistemas de compensação, de substituição. |
| | | Qual o porte
dos escritórios? | São
pequenos, e cada um deles tem, por coincidência, equipe formada por cinco
membros. Mas temos o dobro disso em número de consultores externos, que
pertencem, sobretudo, às áreas de agronomia, engenharia florestal
e biologia.
Nosso trabalho, nas mais variadas escalas, é feito
muito em cima disso. Eu acho que importante proje-tar em todas as escalas, e gosto
muito de trabalhar na pequena dimensão, porque é aí que surge
uma série de detalhes para os quais você não dá atenção
na grande escala - embora mesmo nesta, quando se setorizam os compartimentos paisagísticos,
passa-se da grande à pequena. | | |
| Com essa visão ecológica, o senhor
não se incomoda de trabalhar com empreendimentos imobiliários? |
Depende do empreendimento
imobiliário. Há alguns deles com os quais prefiro não trabalhar.
Hoje está difícil, porque a estética atual dos empreendimentos
não é aquela que satisfaz meus sentimentos. Eu não posso
concordar ou deixar de concordar. É muito complicado porque, na realidade,
essa estética adotada por eles vende. |
| | | Dê algum exemplo
de seus projetos de pequena escala. |
Primeiro, uma série de residências. Depois, não
tão de pequena escala assim, tenho praças públicas. Há
uma em especial, que infelizmente hoje está degradada, mas que ficou muito
boa, no Rio de Janeiro: a praça Antero de Quental. Ela foi destruída
por falta de conservação. | | |
| O senhor falou, em sua apresentação
no seminário, a respeito das diferenças entre Rio de Janeiro e São
Paulo. Existem declarações polêmicas suas, dizendo que para
São Paulo, em alguns casos, a solução é demolir. |
Passa por isso. São
Paulo já começou, na área da arquitetura, a demolir muita
coisa. Eu fiz um projeto para o parque D. Pedro 2º, que infelizmente está
com as obras paradas, no qual estavam previstas demolições. Sobre
esse parque, acho que há uma coisa muito importante a destacar. Nele, tudo
o que era tido como problema eu achei que representava soluções.
Por exemplo, a presença de um terminal de ônibus, do metrô,
do VLT [veículo leve sobre trilhos]. Esse é realmente o parque do
povo, o parque do não-automóvel. Chega-se a ele por meio de transporte
público e isso é muito importante. Qualquer um pode ir ao parque,
utilizando ônibus, VLT ou metrô. E outra coisa: nós abrimos
a estação do metrô para dentro do parque. Isso será
possível quando a obra estiver pronta. |
| | | E como está
o andamento das obras? | A
obra está parada pela metade, parece que a firma vencedora da concorrência
faliu. Também não tive nenhum contato durante a mudança de
administração das prefeituras, mas acredito que os trabalhos serão
retomados. E eu conto com isso porque quem está encarregado de retomar
o processo é exatamente a pessoa que promoveu este seminário, que
é Plínio de Toledo Piza Filho. Com ele, fizemos uma das margens
daquela caixa que se chama rio Tamanduateí também. E fizemos a outra
margem. Nesta nós idealizamos um grande trabalho de recuperação
da área e criamos zonas de interesse para a coletividade, que é
muito carente. | | |
| O senhor acabou de ganhar um prêmio internacional. |
Na realidade, é
um reconhecimento que veio de uma entidade muito importante, a Fundação
Dembarton Oaks, de Washington, nos Estados Unidos. Ela trabalha com a Universidade
Harvard. Há um setor que se ocupa de paisagismo na fundação,
e que está preocupado em fazer, dentro do seu grande acervo, que inclui
jardins dos séculos 17 a 19, também uma parte com projetos contemporâneos.
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E qual é a idéia desse acervo de projetos contemporâneos?
| Eles
querem fazer um acervo relativamente pequeno, com projetos que consideram diferenciados.
E eles demonstram esse reconhecimento exatamente com base nesses trabalhos de
ecogênese. Eu tenho muitos trabalhos nesse sentido, o que não impede
que eu continue a elaborar outras propostas também, mais tradicionais.
Mas é um trabalho para o qual sou muito solicitado por causa da legislação.
Há a obrigatoriedade de fazer esses projetos. O empresário ou o
promotor de determinado plano de desenvolvimento tem obriga- ção
de fazê-lo, porque do contrário ele não obtém licença
para o empreendimento. | | |
| Ainda há muito que fazer na Barra da Tijuca? |
Muito. Eu diria que
a Barra Leste foi a da restituição, mas a Barra Oeste, da avenida
Ayrton Senna, é a da reconstituição, da reconstrução
da paisagem. E aí ainda há muito trabalho para fazer. É muita
área. | | |
| O senhor está fazendo ainda, na Barra, a Cidade
da Música? É uma parceria com o escritório do arquiteto francês
Christian de Portzamparc? |
Além de ele ser um arquiteto extraordinário,
o trabalho dele é igualmente extraordinário. Portzamparc é
uma pessoa de elevadas possibilidades, realmente muito especial. Porque é
difícil um arquiteto ceder um projeto seu para uma parceria.
Portzamparc
fez um trabalho em que havia pilotis. Normalmente, estes seriam idealizados pelo
arquiteto, mas, como ele pediu que esses pilotis fizessem parte integrante do
parque, passou a criação para mim. Isso é raríssimo
entre os arquitetos. E não foi algo imposto. Ele está muito satisfeito
com o resultado. É um trabalho muito bonito. |
| | | Está andando? |
Sim, esteve um tempo
parado, mas deve terminar por ocasião dos Jogos Pan-Americanos, em 2007.
Ele ficará pronto, mas não aberto ao público. Nós
fizemos um parque temático, que é exatamente uma espécie
de restauração de todos os elementos da paisagem original da Barra
da Tijuca, ou seja, da restinga e do manguezal. |
| | | O senhor acredita
que exista no Brasil alguma cidade que seja mais avançada em termos de
políticas ambientais? |
O Rio de Janeiro está bastante avançado nesse
aspecto, porque tem uma Secretaria de Meio Ambiente muito ativa e muito correta
nas suas ações. Eles têm criado áreas de proteção
ambiental às vezes dentro de um terreno, o que é muito raro, porque
uma APA em geral atinge toda uma região.
No Rio existem APAs localizadas
dentro de um simples terreno porque envolvem valores ecológicos. Um exemplo
é a APA das Tabebuias. Essa área é grande, tem quase 600
mil metros quadrados, mas cerca de 200 mil estavam ocupados por um último
fragmento de mata paludosa, que está em extinção na Barra
da Tijuca. A Secretaria de Meio Ambiente achou por bem segurar esse último
fragmento e criar ali uma área de proteção, de preservação,
e deixar que fosse feito um desenvolvimento mais reduzido em termos de ocupação. |
| | Por
Evelise Grunow e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN Edição 305
Julho de 2005 | |
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