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| Roberto
Aflalo Filho | | "Um dos aspectos
positivos do novo plano diretor é pretender que se obtenha o máximo
de uso misto ao longo do tecido urbano". | | |
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novo plano diretor de São Paulo entrou em vigor em fevereiro passado. No
entanto, os diversos problemas dessa legislação paralisaram por
completo a aprovação de projetos na cidade. Quem aponta o problema
é Roberto Aflalo Filho, sócio do escritório Aflalo &
Gasperini e vice-presidente da Associação Brasileira de Escritórios
de Arquitetura (Asbea). | |  |  |
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Com mais de 30 arquitetos na equipe
e quatro décadas de atuação, o escritório Aflalo &
Gasperini é um dos mais ativos no Brasil. Roberto Cláudio dos Santos
Aflalo Filho - juntamente com Gian Carlo Gasperini e Luiz Felipe Aflalo Herman
- é membro do trio que comanda o escritório.
Aflalo Filho
formou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
Paulo em 1976 e tem o título de mestre em desenho urbano pela Universidade
de Harvard, em Cambridge, Estados Unidos, concluído em 1980. De certa forma,
seu trabalho dá continuidade à tradição aberta por
seu pai, Roberto Aflalo (1926-92) - fundador do escritório e um dos principais
arquitetos de sua geração.
Nesta entre-vista a PROJETO DESIGN,
Aflalo Filho fala sobre alguns aspectos do planejamento da cidade, como as operações
urbanas, e tece comentários a respeito do resultado do novo plano diretor
de São Paulo, que ele define como “um furacão que está passando
pelo setor de projetos e construção”. | | |
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O curso de mestrado em desenho urbano contribui para que o senhor tenha uma visão
crítica do novo plano diretor de São Paulo? |
Um dos cursos do mestrado analisava elementos
de mais-valia: investimentos públicos que valorizavam certos trechos da
cidade e formas de recuperar um pouco esse investimento, ainda em caráter
público. Por exemplo: ao criar um parque, valoriza-se o entorno, que tem
um ganho efetivo, e as proprie- dades ficam mais caras.
Determinadas correntes
consideram justo, de certa forma, a cidade recuperar esse investimento. Às
vezes isso é feito com aumento de impostos ou pela captura do coeficiente
de aproveitamento daquele terreno a mais do que o valor definido, com a venda
desse coeficiente. | | |
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Quais os pontos positivos do novo plano diretor da cidade de São Paulo? |
Conceitualmente, o que
foi proposto neste plano diretor é uma evolução do que tínhamos
anteriormente. E o que existia antes era uma cidade extremamente definida por
cores no mapa, um zoneamento fácil de ser reconhecido, com meia dúzia
de zonas predominantes, e ali valiam as mesmas regras para todas. Assim, em determinadas
zonas com maior índice de construção os terrenos custavam
mais caro, e em algumas zonas com menor índice de construção
os terrenos custavam mais barato. Obviamente que isso depende também de
localizações.
Mas o fato é que a cidade se desenvolveu
de forma muito impessoal. Você sai do Itaim-Bibi e vai para Moema, ou então
determinados pontos da Lapa ou Santo Amaro, e encontra as mesmas densidades -
resultado das zonas Z3 e Z4 -, as mesmas características e tipologias.
Ou seja, o único mecanis- mo de desenho da cidade era aquele zoneamento.
Ao longo do tempo, começamos a ter a operação interligada,
que no meu entender foi um desastre, porque deturpava zonas homogêneas,
pelo menos em termos qualitativos. Havia zonas Z2 que determinavam oito ou 12
pavimentos - em função do coeficiente de aproveitamento -, e depois
da operação interligada se podia construir prédios com 20,
com 25 andares. | | |
| As regras são mudadas no meio do jogo. |
E aqueles que começaram
sob uma regra acabam prejudicados. Ou seja, as operações interligadas
deveriam passar por uma comissão que avaliasse o impacto positivo ou negativo
e determinasse a quantidade de área que ela poderia ter agregada. Mas na
prática aprovava-se sempre o máximo. Acho que essa situação
foi desastrosa, porque não existia um plano urbano, um desenho precedente.
Aí surgiram as operações urbanas. Começava-se
a flexibilizar um pouco aquele zoneamento do início dos anos 1970 e a envolver
outras características que não só coeficiente de zoneamento
e cor no mapa. Começava-se a intervir em desenho da frente dos edifícios
com marquises, a estabelecer outras regras de desenho urbano.
Alteravam-se
algumas densidades em determinados pontos, criavam-se alguns espaços públicos
diferenciados - ou seja, começou a existir um mecanismo para desenhar a
cidade além daquele grande plano, daquele zoneamento original. E eram intervenções
pontuais, normalmente em função de um investimento ou de um interesse
público em revitalizar determinada área. |
| | | Qual sua opinião
sobre a operação na Faria Lima? |
A Operação Urbana Faria Lima teve
um impacto muito grande na cidade. E qual foi o grande investimento? Foi o prolongamento
da avenida Faria Lima nos dois sentidos. Ela teve aspectos positivos e negativos.
Positivos porque, do ponto de vista viário, realmente estabeleceu uma ligação
mais ampla, paralela à marginal. Gerou-se uma avenida que tem perspectivas
para desenvolver projetos interessantes e potencial paisagístico nos fundos
de lotes que sobraram da desapropriação.
O que temos visto
é que na prática, por exemplo, o trecho da Nova Faria Lima que vai
da Juscelino Kubitschek até a Hélio Pelegrino - onde há esses
remanescentes de lotes desapropriados com um potencial fantástico para
paisagismo - é ocupado por propagandas, de proporções descomunais.
Como não há uma regra clara que estabeleça a prioridade
da paisagem pública para a coletividade, existe uma apropriação
da paisagem por interesses localizados e privados. |
| | | Voltando ao plano
diretor... | Para
nós, ele é um furacão que está passando pelo setor
de projetos, construção etc. Ele transformou em algo muito mais
complexo uma sistemática que era razoavelmente simples e já bastante
incorporada no processo de trabalho, tanto do empreendedor quanto das empresas
de projeto.
Agora, para você entender o que de fato pode fazer em
um terreno, tem que percorrer uma maratona de verificações e mesmo
assim todo mundo fica muito inseguro, pois ninguém sabe se já cobriu
todas as etapas. Isso sem contar os aspectos não regulamentados, que ainda
geram dúvida.
A Asbea está fazendo um trabalho junto à
prefeitura para subsidiá-la com as nossas dúvidas, questões
ainda pendentes e que poderiam ser trabalhadas para que o processo de aprovação
voltasse a ter andamento normal. | | |
| Desde então, vocês aprovaram algum projeto
novo? | Não.
Estamos trabalhando com aprovações que foram protocoladas antes
do novo plano. | | |
| Mas agora não é mais difícil
voltar atrás? | Nós
entendemos que não tem volta. A única coisa a fazer é aprimorar
esse processo, para tentar sanar os problemas fundamentais. |
| | | E quais são
eles? | Existe
uma série de decretos, de corrigendas. E a questão das garagens
é básica: hoje, um projeto novo não pode ser aprovado na
prefeitura a não ser que se computem as garagens no coeficiente de aproveitamento.
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As garagens computáveis inviabilizam a lógica anterior, não? |
Inviabilizam 98% dos
projetos. Eventualmente, se você não quiser construir todo o seu
coeficiente, pode fazer uma garagem computável. Mas em determinados empreendimentos
será preciso escolher entre construir a garagem ou o empreendimento, porque
a necessidade de garagem é muito grande.
Essa questão me
parece até uma barbeiragem na lei, e que agora está emperrada porque
não pode ser aprovada como um elemento isolado, tem que ser incluída
em um pacote. E esse pacote envolve outras questões do plano que estão
sob dúvida e fazem parte de negociações entre os diversos
partidos, até que se chegue em um acordo. Então estamos engessados
por essa e outras questões, que requerem o estabelecimento de regras para
a implantação e o funcionamento. |
| | | Que outro ponto o
senhor aponta como problemático? |
Temos que voltar para o campo conceitual. Com
relação ao que falei sobre a captura da mais-valia, esse plano diretor
tem algumas vertentes conceituais definidas. Primeiro, de certa forma ele tende
a diminuir a densidade na cidade; segundo, transfere a maior parte da mais-valia
dos terrenos, ou seja do potencial de construção, para o poder público.
Através de outorga onerosa, transfere para a cidade a mais-valia, pois
em determinadas áreas da cidade você poderá edificar até
quatro vezes a área do terreno pagando para o Estado.
Então,
esse diferencial de valor dos terrenos tende a diminuir um pouco. É óbvio
que um lote em que se pode construir quatro vezes terá um valor mais alto.
E no entanto, um terreno em que se podia construir quatro vezes, mas que para
isso agora será necessário pagar, deve ter uma queda de valor. Essa
mudança razoavelmente drástica no processo altera significativamente
a conta dos empreendimentos.
Os proprietários do terreno acham
ainda que continuam com o valor original existente. Os empreendedores acham que
o valor não é mais aquele, porque eles têm que desembolsar
um valor para a compra dessa mais-valia, desse potencial. E eu acho que durante
algum tempo vai existir um processo de acomodação de valores, até
que os empresários, o público entendam qual é o valor real
advindo dessas alterações todas. |
| | Na hora em que houver
essa acomodação, necessariamente haverá aumento do preço
final do imóvel? |
Não sei. Haveria uma tendência, mas a oferta e
a procura são reguladoras, algum limite deve existir. Eu acho que o mercado
se regula. Não adianta o preço subir e não ter comprador. |
| | Então
alguém vai ter que pagar a conta. Ou o lucro diminui ou... |
Essa é a acomodação,
e deve acontecer nas duas pontas. O preço fica um pouquinho maior, o lucro
diminui um pouco, o terreno perde um pouco de valor e assim por diante. |
| | De uma forma
ou de outra, o plano é positivo para os arquitetos, porque o projeto vai
ser mais caro. Isso também não acaba defendendo um pouco
o mercado local? Imagine um arquiteto estrangeiro trabalhando aqui. |
Sim e não. Mas
isso é uma espécie de reserva de mercado, de um monopólio
que eu não sei se é benéfico na prática. Porque o
arquiteto não precisa ser um especialista em legislação. |
| | | Mas para trabalhar
em São Paulo ele vai ter que ser. |
Sim, vai ter que conhecer. E o que acontece é
que muitos escritórios que não querem se dedicar exclusivamente
a isso acabarão comprando serviços de terceiros para uma análise
de terreno. Quer dizer, se você pedir hoje uma ficha técnica na prefeitura,
uma descrição daquilo que você pode fazer no terreno, a prefeitura
não a fornece, porque ainda não está aparelhada para fazer
essa análise com segurança. Isso vai gerar um novo serviço,
que já existia antes, talvez de uma forma mais simples, mas hoje em dia
se torna algo necessário.
Eu fiz uma análise desse tipo
em dois momentos - há quatro anos e agora, em 2005 -, para o mesmo terreno,
para o mesmo empreendedor. A diferença entre os relatórios é
gritante. Antes havia uma avaliação direta, com cinco variáveis.
Estava tudo definido em uma folha ou duas. Hoje, não: primeiro tem um relatório
de avaliação, de levantamento de todos elementos de legislação,
depois a relação entre eles, depois as alternativas considerando
parâmetros daqui e dali. Resultado: é um relatório completamente
diferenciado - um caderno. | | |
| Isso não vai espantar o empreendedor de São
Paulo? | O
que se observa na conversa com muitos empreendedores é que, de maneira
geral, as margens de lucro e os valores de empreendimento em São Paulo
são muito diferentes de outros locais do país. Aqui ainda há
um potencial de ganho, uma vitalidade econômica que não existe em
outros lugares.
Pode ser que alguns resolvam empreender no interior, mas
já se passa para um patamar de valores diferentes. São Paulo é
o melhor mercado.Quando se sai de São Paulo, entra-se em um nível
de competitividade, em uma margem de lucro muito menor, e é preciso ajustar
muito o negócio.
Eu acho que a tendência é eventualmente
a gente ter menos facilidades aqui e expandir o mercado externo. É preciso
ver se há demanda também para a construção nesse mercado
externo. | | | |
Afinal, o que há de positivo nesse plano diretor? |
Antigamente, as zonas determinavam os usos que
podiam ser ali instalados, e isso é uma coisa muito generalizada, que em
zonas de uso misto se tornava um problema seriíssimo, com conflitos entre
bares, restaurantes e prédios residenciais, principalmente entre usos residenciais
e usos não-residenciais. E há também a questão de
fluxo, de tráfego.
É positivo nesse plano a percepção
desse problema, e a criação da figura da incomodidade. O uso residencial
seria a base do elemento da privacidade e a partir daí tem-se graus de
incomodidade. Certos usos têm alto grau de incomodidade, outros menos. Hoje
em dia, uma zona mista pode abrigar qualquer coisa, e os usos são determinados
pelas vias. Aquelas de maior movimento, onde você já tem um grau
de ruído mais alto, um pouco menos propícias para residências,
apresentam maior permissividade de usos.
Vias locais, com características
mais privadas, são mais propícias para residências, e é
menor a permissividade de uso. Então essa sensibilidade é talvez
um aprimoramento na leitura da cidade. O plano diretor é dirigido para
uma cidade de uso misto.
Podemos ler que se pretende que haja o máximo
de uso misto ao longo do tecido urbano, que se tenha a convivência de trabalho,
lazer, moradia em pequenos trechos, em vez de ter bairros de moradia ou bairros
de trabalho, que são modelos problemáticos. |
| | Por
Fernando Serapião Publicada originalmente
em PROJETODESIGN Edição 304 Junho de 2005 |
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