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| Paulo Chaves Fernandes
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"Como não têm bom
padrão
de qualidade, as obras públicas começam
a se deteriorar no dia da inauguração" |
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Paulo
Chaves Fernandes, vem conseguindo transformar quase-ruínas
em espaços públicos. Entre eles estão
a Estação das Docas, o parque da Residência
e o Pólo Joalheiro |
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Paisagismo e recuperação de edificações históricas no projeto Feliz Luzitânia, premiado pela 5ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em 2003 |
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Vista aérea da Estação das Docas (2000), complexo que reúne atividades de comércio, lazer e cultura na capital paraense |
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Tendo como mecenas
o governo do Pará, o secretário estadual da
Cultura, Paulo Chaves Fernandes, vem conseguindo transformar
quase-ruínas em espaços públicos admirados
no Brasil e no exterior - entre eles estão, por exemplo,
a Estação
das Docas, o parque da Residência, o Feliz Luzitânia
e o Pólo Joalheiro.
Possivelmente o único secretário de Estado,
no Brasil, a se manter no cargo por dez anos ininterruptos,
o arquiteto Paulo Chaves Fernandes é responsável
por obras de restauro e revitalização que estão
fazendo Belém reviver seus tempos de opulência.
Segundo Fernandes, tão importante quanto restaurar
a memória é recuperar a auto-estima do paraense
e superar os cem anos de decadência, iniciados com a
queda do comércio da borracha. Além de inspecionar
os trabalhos em andamento, coordenar novos projetos e publicações
sobre a memória da cidade, junto a uma equipe que o
acompanha há anos, ele dedica horas à negociação
de áreas subutilizadas ou abandonadas, que quer transformar
em espaços contemporâneos.
Em meio a agitada agenda - que inclui a inauguração
de sua mais nova obra, o Mangal das Garças -, o secretário
recebeu PROJETO DESIGN para entrevista em que relata o percurso
do jovem que sonhava fazer cinema e se transformou em preservador
do patrimônio. |
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| O senhor fez arquitetura em Belém? |
Terminei o curso de arquitetura e urbanismo
na primeira turma da Universidade Federal do Pará,
na agitada década de 1960. Como havia grande carência
de arquitetos na cidade, durante o curso fiz alguns projetos,
como o do Tribunal de Contas.
Em 1972 eu já estava no Rio. Lá fiz curso
de cinema e mestrado em comunicação social
na UFRJ. Eu tinha casado e precisava me sustentar, por
isso aceitei um trabalho na área de arquitetura,
numa empresa do Rio, financiada pela revista Quatro Rodas.
Eles tinham a idéia de construir, a cada 200 quilômetros
das principais rodovias do país, um posto de gasolina,
com pousada e loja de conveniências. Eu era coordenador
de uma equipe de arquitetos.
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| Foi uma experiência interessante? |
Mais ou menos. Eles pagavam um bom salário para os arquitetos, mas tínhamos de ser muito eficientes. Eu só passei seis meses na empresa. Estava me sentindo muito alienado, trabalhando o dia inteiro no centro da cidade, e o projeto não foi para frente. Tomei uma decisão: arquitetura, nunca mais.
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| E foi viver do quê? |
De brisa. Isto é, quase, pois tinha um imóvel alugado em Belém e minha mulher trabalhava. Passei sete anos no Rio, fiz os cursos que desejava, meus filmes.
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| Qual o tema dos filmes? |
Um deles, Destruição cerebral, sobre um operário que saiu de São Paulo para se suicidar em Belém, foi apresentado e premiado em festivais da Polônia e da Checoslováquia. Em 1978, minha mulher engravidou e voltamos para Belém.
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| O retorno foi difícil? |
Eu tinha sido o primeiro aluno do vestibular e o primeiro da escola de arquitetura, mas tinha chutado tudo para levar uma vida mais ou menos à margem da acumulação do capital. Qando voltei para Belém a Universidade Federal do Pará estava iniciando o curso de comunicação social, e como eu tinha mestrado nessa carreira fui convidado a lecionar. Estou lá até hoje.
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| Isso foi em que ano? |
Em 1979. E uma vez em Belém, amigos
começaram a pedir projetos. Terminei trabalhando
na empresa Engeplan. Em 1983, fui assessor de urbanismo
na gestão do Almir Gabriel na prefeitura de Belém.
Fizemos algumas reformas interessantes no Ver-o-Peso,
no mercado de São Brás.
Fiquei na prefeitura até 1988, porque o sucessor
de Almir Gabriel me manteve no cargo. Em seguida, já
no governo Collor, um amigo senador me chamou para ser
superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico
Nacional.
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| Já estava ligado à memória, na época? |
Sim, por causa do tipo de documentário que fazia. Passei dois anos no Iphan. Em 1994, Almir Gabriel foi eleito governador e me convidou para a Secretaria de Cultura.
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| Por que a Secretaria da Cultura? |
É que, apesar de arquiteto, tinha interesse pelo cinema e pela arte, formação em comunicação social e a ligação com o Iphan. E estou aqui há dez anos. Montei um departamento de projetos - que funciona ao lado do meu gabinete - e coloquei a questão da memória como uma das prioridades do nosso trabalho.
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| Numa eventual troca de administração, isso não seria perigoso para a continuidade dos projetos? |
Ah, sim. Mas hoje temos equipes formadas
nesses serviços. Todos os projetos são desenvolvidos
aqui na própria secretaria, por mim e por minha
equipe interdisciplinar. O fato de permanecer dez anos
na Secretaria de Cultura me deu a oportunidade de criar
uma escola e desenvolver mão-de-obra técnica
na área de arquitetura, com artesãos especializados
em restauro.
Claro que a continuidade preocupa. O governo que abandonar
a Estação das Docas, o parque da Residência,
o Feliz Luzitânia, o Mangal das Garças, o
Pólo Joalheiro, o Teatro da Paz vai pagar o preço.
Eu restaurei a alma do Teatro da Paz. Briguei, mas hoje
ele já não abriga mais colação
de grau, posse de políticos, bailes de carnaval.
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| A própria Secretaria da Cultura cuida da manutenção dessas obras? |
Além de projetar, licitar, realizar
e implantar, a secretaria mantém todas as obras
que restaura, com exceção do Pólo
Joalheiro e do Quartel de Óbidos. O segredo não
é só fazer, é preservar. Veja a Estação
das Docas, com quase cinco anos de inaugurada, e o Feliz
Luzitânia, com dois: estão como novas, não
parecem obras do governo.
O que acontece em geral com as obras públicas?
Como não têm um bom padrão de qualidade,
elas começam a se deteriorar logo no dia da inauguração.
Não me interessa só fazer o projeto, quero
que a cidade se aproprie delas.
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| E, como estão conservadas, a população quer mantê-las. É assim? |
Pois é. E com a seqüência
de governo - estamos na terceira gestão do mesmo
partido - de propostas sérias e com resultados
que a população começa a ver, a mentalidade
muda.
Do Pará que “já teve” e de uma Belém
que “já foi”, mudamos para um Pará que “volta
a ter” e uma Belém que “volta a ser”. A situação
ainda não é a ideal, mas as pessoas já
sentem mais confiança em sua terra.
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| Os espaços restaurados já são auto-sustentáveis? |
Não, nenhum deles. Não
são espaços para dar lucro. Os aluguéis
ajudam a repor alguma coisa, mas não dão
para a manutenção de espaços muito
grandes, como os do Feliz Luzitânia.
A Estação das Docas já se pagou,
com os impostos recolhidos, os empregos diretos e que
proporciona, a publicidade gratuita das matérias
publicadas em várias revistas do país. Os
aluguéis das lojas dão para pagar só
a metade dos custos, o resto tem de sair do governo.
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| Esse cuidado com a manutenção de prédios públicos não é comum no Brasil, não é? |
Para mim, a manutenção
é tão importante ou mais do que fazer. Não
justifica fazer e no dia seguinte começar a deteriorar.
Quem nos paga é a população, e ela
cria uma expectativa em torno disso, quer uma obra bem
acabada e durável.
Aqui em Belém, o padrão de qualidade que
estabelecemos fez crescer as expectativas da população
de uma obra para outra.
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| O governo não pensou ainda em transferir a manutenção para a iniciativa privada, a exemplo do que se faz em outros estados? |
Acho que é o passo seguinte. O governo estava sem nenhuma credibilidade, agora estamos conseguindo reverter essa mentalidade. Quando assumi a secretaria, a credibilidade do governo estava tão baixa que não queriam nos alugar fotocopiadoras, nem o carro para o secretário. Esse aumento de credibilidade é significativo no caso do Museu de Arte Sacra, com as pessoas doando suas peças de valor para o Estado.
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| De que maneira o senhor analisa as críticas de que suas obras seriam para uso dos ricos? |
É uma bobagem. Hoje, a Estação
das Docas recebe, a cada dia, de 6 mil a 8 mil pessoas.
O parque da Residência, antiga moradia dos governadores,
era um espaço segregado, estava completamente abandonado
e consegui convencer o governador a deixá-lo aberto
à população.
O velho casarão foi restaurado para funcionamento
da Secretaria da Cultura; o parque ao redor recebeu o
paisagismo da arquiteta Rosa Kliass e vários equipamentos
de lazer, como anfiteatro, o restaurante no velho gazebo
envidraçado, a sorveteria no antigo vagão
de trem do governador, e a estrutura de ferro do velho
reservatório de gás que nos foi doado deu
lugar à Estação Gasômetro,
cujo interior foi adaptado para espetáculos, exposições
e café.
E agora, o parque Mangal das Garças, com 60 mil
metros quadrados, ao lado do Arsenal da Marinha, mostrará
aos visitantes uma síntese do ambiente amazônico
bem no coração da cidade.
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| Diante de tantas edificações que necessitavam de restauro, qual o critério que o senhor utilizou para iniciar os trabalhos? |
O da oportunidade. No caso dos armazéns
das docas, antes de ser secretário eu já
tinha um anteprojeto para a área, com o qual venci
um concurso público. Para a grande área
do Feliz Luzitânia, eu tinha feito os primeiros
rascunhos do projeto quando trabalhava no Iphan. Nesse
projeto, a Casa das Onze Janelas era um quartel do Exército
e ninguém podia se aproximar. O forte também
era do Exército, a igreja de santo Alexandre e
a casa paroquial do arcebispado.
Para cada imóvel foi preciso uma longa negociação.
Essas negociações não são
fáceis. E só trabalho com áreas complicadas.
A sorte foi que os governadores sempre me deram carta
branca. Nada seria possível sem esse apoio, ou
se fosse um governo que encarasse essas obras como fontes
de recursos para o próprio bolso e visasse apenas
fins políticos. Porque há resultados políticos,
claro, só que eles não são o objetivo,
são as conseqüências.
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| Na elaboração dos projetos, o senhor solicitou assessoria de profissionais de outros estados? |
No início dos nossos trabalhos,
Belém tinha muita carência em paisagismo.
Como todos os projetos previam extensas áreas verdes,
convidamos a arquiteta Rosa Kliass para nos assessorar.
Atualmente, ela é a única assessora que
mantemos, mas durante esse período a equipe formou
uma paisagista local, e estamos trabalhando com ela também.
O grande problema do paisagismo em Belém é
que não temos um horto botânico, temos de
comprar plantas da Amazônia em São Paulo,
o que é um absurdo. Aliás, um dos meus próximos
projetos inclui um grande viveiro de plantas da região.
Também no início recorremos a especialistas
em restauro da Bahia, mas agora trabalhamos com nossos
restauradores.
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| Sua arquitetura sofre influência de alguma vertente especial? |
Meu trabalho não tem compromisso com nenhuma escola, a minha perspectiva é eclética, talvez até pela minha história de vida. Assim como faço restauro, faço arquitetura contemporânea, e até arquitetura regionalista.
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| Como o senhor se sente ao ver a população se apropriar desses espaços públicos? |
Eu me sinto cúmplice de um processo de renascimento que ajuda a cidade a superar o longo período de decadência, de destruição de seus bens, de perda de sua memória. As pessoas começam a ver que Belém tem um patrimônio que vale a pena ser recuperado, e que o Pará é um estado riquíssimo em todos os sentidos.
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Por Éride Moura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 301 Março de 2005 |
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