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Nascido em 1931, Alfredo Paesani
formou-se arquiteto em 1954, pela Universidade Mackenzie.
Durante a faculdade foi estagiário de Oswaldo Bratke
e do escritório Croce, Aflalo & Gasperini, ao
mesmo tempo que a política entrou em sua vida, quando
foi diretor do Dafam, o diretório acadêmico.
Dois anos após graduar-se, tornou-se professor do
Mackenzie e, com três anos de formado, teve seu primeiro
feito profissional: venceu o concurso para o prédio
da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, com
Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo de Melo Saraiva. No
mesmo ano do concurso, 1957, Paesani ingressou na diretoria
do IAB/SP. Em 1964, criou, com Fábio Penteado, um
dos prédios que se tornaram ícones da escola
paulista: a sede do clube Harmonia, em São Paulo.
Paesani foi o primeiro presidente do Sindicato dos Arquitetos
de São Paulo (de 1971 a 1974) e, em 1980, tornou-se
o primeiro presidente da Federação Nacional
de Arquitetos (FNA), entidade que acaba de completar 25
anos.
E, é claro, foi um dos fundadores, na década
de 1970, da revista PROJETO.
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| Como a arquitetura surgiu em sua vida? |
Não sei dizer a razão inicial,
mas sempre tive convicção em fazer o curso
de arquitetura, desde jovem, com 14 ou 15 anos. Meu pai
estranhava muito e dizia: “Arquitetura!? Vai ser médico,
ou engenheiro!”.
No final do curso secundário, acabei arranjando
um emprego de office-boy no escritório de arquitetura
de João Francisco Portilho de Andrade. Fui gostando
e fiquei por lá até prestar o vestibular
e passar. Na faculdade, as matérias técnico-construtivas
sempre me atraíram. Participei da vida do diretório
acadêmico e no quinto ano era um sócio aspirante
do IAB.
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| Quando o senhor abriu seu primeiro escritório? |
No quinto ano de faculdade, eu e outros
três colegas abrimos um escritório. Tivemos
a felicidade de, em 1957, ganhar um concurso público
com Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo Saraiva - a sede
da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em
Florianópolis. Sempre trabalhei em equipes, nunca
formei um escritório. No começo trabalhei
muito com Pedro Paulo, depois com Ícaro de Castro
Mello, mais tarde com Fábio Penteado.
Mas a parte criativa nunca foi a mais importante para
mim. Eu colaborava, mas, em geral, os outros se encarregavam
da criação. Depois tinha a parte executiva,
nessa eu ia a fundo. Depois de alguns anos comecei a participar
também das obras. Eu me interessava por especificações,
queria entender as novas técnicas.
Nesse meio tempo fui dar aulas no Mackenzie e logo me
engajei em um projeto de modificação do
ensino da arquitetura, que provocava atrito entre os professores.
Mas aí quase todos foram expulsos do Mackenzie,
em duas etapas. Na primeira os mais radicais, comunistas;
e depois, os outros.
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| E quais as propostas de mudança
de ensino? |
Christiano Stockler das Neves, diretor
da faculdade, tinha uma consciência profissional
de alto mérito, mas esteticamente estava vinculado
à teoria clássica, e isso não aceitávamos.
Nós achávamos que o enfoque do ensino deveria
ser alterado e abranger outros temas e abordagens.
Ainda naquela época - início da década
de 1960 - os estudantes faziam trabalhos estranhos, como
um monumental hall de entrada de um edifício. Essas
discussões fizeram com que nos preparássemos
mais para o debate. E ainda havia a questão com
a FAU/USP.
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| Qual questão? |
Nós, do Mackenzie, nos dedicávamos
diretamente à prática da arquitetura; o
pessoal da FAU/USP estava interessado na formação
intelectual do profissional. Havia esse clima. Depois
as coisas foram evoluindo, com o intercâmbio de
professores. Para começar, Artigas convidou Paulo
Mendes e Pedro Paulo de Melo Saraiva para lecionar na
FAU/USP.
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| Como começou sua atividade no
IAB? |
Nosso grupo, então jovem, queria
logo entrar na diretoria. Fomos crescendo e vários
de nós assumimos a presidência sem nenhuma
limitação, havia uma aceitação
muito grande. E no IAB havia o Clubinho, que propiciou
vasta relação entre artistas e arquitetos.
Isso sem contar os aspectos de formação
política e ideológica.
Em 1961, participei de um Congresso da Paz em Moscou,
no qual também estava Lucio Costa. Imagine o que
era isso para o nosso grupo, nossa primeira viagem para
a Europa! Em 1961, organizei a ida de brasileiros para
um congresso em Cuba, que nos trouxe outro tipo de visão.
O IAB sempre teve a compreensão do que era uma
estrutura internacional - existe o núcleo local,
o IAB estadual, o nacional e a União Internacional
de Arquitetos.
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| E quanto à organização
sindical? |
Eu já havia tido vários
encargos no IAB - secretário, vice-presidente,
supervisor estadual e nacional. O então ministro
[do Planejamento] Roberto Campos propôs, e quase
foi aprovado, que os profissionais do exterior, principalmente
os americanos, pudessem desenvolver os planos diretores
no Brasil.
Quando ele fez essa proposta nós estávamos
organizando um seminário sobre reforma e planejamento
urbano em Curitiba, em 1966. E foi definido que ao final
do evento haveria uma manifestação de repúdio
à proposta do ministro. Ele era nosso convidado
para o encerramento e, quando [Carlos Maximiliano] Fayet
leu o texto preparado, o ministro ficou louco da vida,
levantou e foi embora.
Politicamente, foi uma coisa importante, mas evidentemente
cutucamos o leão com vara curta.
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| Então surgiu a necessidade do
sindicato? |
Surgiu a necessidade de articular uma
defesa que não fosse apenas a manifestação
de um grupo. Fomos ao Sobral Pinto, e ele perguntou quem
nos representava. Nós respondemos que era o IAB.
“Vocês não têm sindicato?”, ele perguntou.
Ficamos surpresos com isso, o que acabou despertando nosso
interesse em fundar o sindicato para a defesa do profissional.
Primeiro criamos uma associação pré-sindical,
que apresentou um pleito ao Ministério do Trabalho.
Nós conseguimos um bom número de assinaturas
e em 1966 o sindicato foi aprovado. O IAB sempre deu todo
o apoio para que isso acontecesse, fornecendo suporte
para que tivéssemos espaço para articulação
nacional. E outros estados começaram a se articular.
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| E o senhor se tornou presidente do sindicato? |
Eu achava que não deveria ser
candidato porque politicamente isso não era bom.
Nunca fui vinculado ao Partido Comunista, mas estava muito
próximo dele. O fato é que eu fui o primeiro
candidato e fui eleito. Sabíamos que seriam necessários
cinco ou seis sindicatos para fazer a federação
de arquitetos. Como estava tudo planejado, em dois ou
três anos esses cinco se constituíram: Rio
Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e São
Paulo.
Assim articulamos a federação. Os arquitetos
estavam vinculados ao sindicato dos engenheiros e tínhamos
que conversar com eles para que concordassem com a nossa
saída. Foi uma etapa difícil e uma negociação
importante, na qual tive grande participação.
E fizemos a federação, da qual também
me candidatei a presidente e assumi a primeira gestão.
Nessa época, começamos a coletar dados estatísticos
e fizemos previsões, algumas delas totalmente furadas.
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| Qual, por exemplo? |
A primeira diz respeito ao ingresso da
mulher na profissão, que começava a acontecer
e achávamos que seria extremamente difícil
coordenar e direcionar. Foi um engano estratégico
fundamental. O outro erro é que achávamos
que a maior parte dos profissionais, ao sair da escola,
se vincularia a um emprego, em vez de criar escritórios
autônomos.
Até hoje se continua a exercer a profissão,
pelo menos em sua maioria, como autônomo, em pequenos
escritórios, um microuniverso. Aí começa
a surgir a dificuldade de uma estrutura sindical de arquitetos,
pois ela só pode defender o profissional se ele
pedir para ser defendido. Também aparecem os primeiros
conflitos com o IAB, do ponto de vista da estratégia
de encaminhamento político nas entidades. Foi difícil:
o IAB é muito mais forte, tem uma posição
política e ideológica totalmente diferente
do sindicato. Essa contradição foi aparecendo
em várias situações.
No início da formação da federação
aconteceu também o crescimento do movimento sindical,
principalmente no ABC. A organização do
sindicato saiu das mãos de Joaquim Dantas. Apareceu
Lula, o sindicato do ABC, o dos jornalistas, com uma visão
diferente. Para o arquiteto era muito difícil participar
de reuniões e debates políticos junto com
operários.
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| E o Conselho de Arquitetura e Urbanismo? |
Fui contra desde o início. Nós
defendíamos uma tese, totalmente superada, de que
o país não se organiza se cada profissão
criar o seu conselho, a sua regulamentação
profissional. Um país não pode viver assim
subdividido. Minha proposta era que houvesse conselhos
não como esses que existem atualmente - de engenharia,
medicina, odontologia etc. -, que têm uma tradição
de burocracia e onde as coisas mais importantes não
são discutidas.
Deveria haver conselhos com atividades mais globalizantes,
menos burocráticas, mas que reunissem profissionais
da área de saúde, profissionais de humanas,
profissionais das ciências exatas, arte, cultura,
grandes conselhos dentro dos quais as profissões
iriam se enquadrando. Esses grandes conselhos teriam uma
reunião anual que traçaria suas diretrizes,
o que não acontece hoje. Quando ela acontece é
para discutir política eleitoral, interesses menores.
Então, não deveríamos dar esse passo
- do CAU - porque não ajuda a organizar o país.
Mas os arquitetos avançaram - sou uma voz absolutamente
minoritária, não participo mais dos debates
- na proposta. Desde o início combati muito isso,
trabalhei contra durante vários anos. A questão
era amplamente discutida, só que chegou a um ponto
que me convenci de que a maioria queria, não adiantava
mais discutir. Então vamos fazer isso da melhor
maneira possível.
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| Que maneira é essa? |
Primeiro, o sistema Confea/Creas é
um ranço terrível, cheio de burocracia e
incompetência. Não tem função
importante. Decidi ver o que era por dentro, e saí
horrorizado de lá. Era uma entidade atrasadíssima,
que pretendia representar todos os profissionais do país,
uma coisa terrível. E o CAU poderia ser diferente.
Só que precisa ter a capacidade para estabelecer
formas e critérios diferentes de atuação.
Uma entidade desse tipo tem a pretensão de proteger
a sociedade do mau profissional, por isso estabelece regras
de comportamentos e atividades, exerce a fiscalização.
Acho difícil isso acontecer na profundidade de
relações, como também acho que alguns
aspectos são complicados, como os conselhos de
ética. É uma porcaria.
Mas o CAU será feito e eu espero que, em sua estrutura
final, ele possa ser um pouco mais aberto, democrático,
transparente, menos introvertido, e tendo maior respeito
da sociedade. Espero que esse conselho não seja
apenas um centro de arrecadação com pouquíssimos
benefícios.
Penso assim, acredito nessas coisas, mas estou fora, não
participo mais.
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| Sua posição pessoal é
de que há o risco de esse organismo se transformar
em mais um órgão burocrático? |
Provavelmente devem ter tomado cuidado
para não permitir isso. Por outro lado, é
preciso imaginar como os arquitetos vão entender
essa nova entidade. Ela é correspondente ao IAB?
Está no mesmo nível? Ela se soma? Ela se
sobrepõe? Ela fica independente da orientação
política do IAB? São questões que
têm de ser colocadas.
Mas dentro desse conselho, além do IAB, participam
a federação sindical, a organização
dos paisagistas [Abap], a Asbea, a Abea. Então
é uma entidade complexa.
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| Para terminar, conte em que contexto
aconteceu a criação da PROJETO. |
Durante a criação do sindicato
achamos que precisávamos de um boletim, um veículo
de comunicação. Aí surgiu Vicente
Wissenbach, que é jornalista e já tinha
bom relacionamento com os arquitetos, e se propôs
a fazer um boletim ligado ao sindicato. Isso aconteceu
em 1972. Era um risco muito grande fazer isso dentro do
sindicato, devido à questão política
e à ditadura.
Nessa fase os sindicatos eram muito visados. O IAB se
interessou, Fábio Penteado assumiu a responsabilidade
e o boletim ficou vinculado às duas entidades -
o IAB e o sindicato. Esse boletim nasceu charmoso, tinha
uma estrutura interessante, uma forma jornalística
de abordar as questões, os temas eram relevantes.
Isso tudo era o que os arquitetos queriam. Mas é
claro que não tínhamos grana para fazer
essa coisa toda. Para manter o boletim, precisávamos
de anunciantes para obtermos recursos.
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| Aí a publicação
se tornou independente? |
Passamos por várias fases, e Vicente
foi tocando a publicação, até que
chegou o momento em que tivemos que discutir a propriedade.
De quem é? E aí é Fábio que
conta, em uma entrevista, que o caminho a ser seguido
foi a criação de um encarte chamado PROJETO,
aberto à comercialização, para dar
sustentação ao boletim. Com isso ficou mais
claro o que era propriedade do IAB e o que passou a ser
a PROJETO.
Boletim e revista conviveram mais alguns anos, depois
ficou só a revista. A PROJETO começou a
desenvolver pautas diferentes, com abrangência nacional.
Vários arquitetos colaboraram com isso, e foi um
privilégio descobrir esses caminhos. A revista
alcançou um bom padrão e foi crescendo.
Fábio acabou ingressando na UIA, e a revista ganhou
prestígio internacional.
Hoje a PROJETO DESIGN é importante, e Arlindo Mungioli
tem dado continuidade com um cuidado muito grande, que
a gente admira e aposta que vai continuar.
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Por Fernando Serapião
e Vicente Wissenbach
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 299 Janeiro de 2005 |
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