Alfredo Paesani
"Espero que o CAU não seja apenas um centro de arrecadação com pouquíssimos benefícios"
 
  À véspera de publicar sua 300ª edição, PROJETODESIGN ouviu um de seus fundadores. Aos 73 anos de idade, afastado da arquitetura, ALFREDO PAESANI mantém-se lúcido acerca dos rumos da profissão
   
 
  "Combati e trabalhei contra a criação do CAU durante vários anos. Até que me convenci de que a maioria queria, não adiantava mais discutir. Então vamos fazer isso da melhor maneira possível"
 

Nascido em 1931, Alfredo Paesani formou-se arquiteto em 1954, pela Universidade Mackenzie. Durante a faculdade foi estagiário de Oswaldo Bratke e do escritório Croce, Aflalo & Gasperini, ao mesmo tempo que a política entrou em sua vida, quando foi diretor do Dafam, o diretório acadêmico.

Dois anos após graduar-se, tornou-se professor do Mackenzie e, com três anos de formado, teve seu primeiro feito profissional: venceu o concurso para o prédio da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, com Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo de Melo Saraiva. No mesmo ano do concurso, 1957, Paesani ingressou na diretoria do IAB/SP. Em 1964, criou, com Fábio Penteado, um dos prédios que se tornaram ícones da escola paulista: a sede do clube Harmonia, em São Paulo.

Paesani foi o primeiro presidente do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo (de 1971 a 1974) e, em 1980, tornou-se o primeiro presidente da Federação Nacional de Arquitetos (FNA), entidade que acaba de completar 25 anos.

E, é claro, foi um dos fundadores, na década de 1970, da revista PROJETO.

 
Como a arquitetura surgiu em sua vida?

Não sei dizer a razão inicial, mas sempre tive convicção em fazer o curso de arquitetura, desde jovem, com 14 ou 15 anos. Meu pai estranhava muito e dizia: “Arquitetura!? Vai ser médico, ou engenheiro!”.

No final do curso secundário, acabei arranjando um emprego de office-boy no escritório de arquitetura de João Francisco Portilho de Andrade. Fui gostando e fiquei por lá até prestar o vestibular e passar. Na faculdade, as matérias técnico-construtivas sempre me atraíram. Participei da vida do diretório acadêmico e no quinto ano era um sócio aspirante do IAB.

 
Quando o senhor abriu seu primeiro escritório?

No quinto ano de faculdade, eu e outros três colegas abrimos um escritório. Tivemos a felicidade de, em 1957, ganhar um concurso público com Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo Saraiva - a sede da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis. Sempre trabalhei em equipes, nunca formei um escritório. No começo trabalhei muito com Pedro Paulo, depois com Ícaro de Castro Mello, mais tarde com Fábio Penteado.

Mas a parte criativa nunca foi a mais importante para mim. Eu colaborava, mas, em geral, os outros se encarregavam da criação. Depois tinha a parte executiva, nessa eu ia a fundo. Depois de alguns anos comecei a participar também das obras. Eu me interessava por especificações, queria entender as novas técnicas.

Nesse meio tempo fui dar aulas no Mackenzie e logo me engajei em um projeto de modificação do ensino da arquitetura, que provocava atrito entre os professores. Mas aí quase todos foram expulsos do Mackenzie, em duas etapas. Na primeira os mais radicais, comunistas; e depois, os outros.

 
E quais as propostas de mudança de ensino?

Christiano Stockler das Neves, diretor da faculdade, tinha uma consciência profissional de alto mérito, mas esteticamente estava vinculado à teoria clássica, e isso não aceitávamos. Nós achávamos que o enfoque do ensino deveria ser alterado e abranger outros temas e abordagens.

Ainda naquela época - início da década de 1960 - os estudantes faziam trabalhos estranhos, como um monumental hall de entrada de um edifício. Essas discussões fizeram com que nos preparássemos mais para o debate. E ainda havia a questão com a FAU/USP.

 
Qual questão?

Nós, do Mackenzie, nos dedicávamos diretamente à prática da arquitetura; o pessoal da FAU/USP estava interessado na formação intelectual do profissional. Havia esse clima. Depois as coisas foram evoluindo, com o intercâmbio de professores. Para começar, Artigas convidou Paulo Mendes e Pedro Paulo de Melo Saraiva para lecionar na FAU/USP.

 
Como começou sua atividade no IAB?

Nosso grupo, então jovem, queria logo entrar na diretoria. Fomos crescendo e vários de nós assumimos a presidência sem nenhuma limitação, havia uma aceitação muito grande. E no IAB havia o Clubinho, que propiciou vasta relação entre artistas e arquitetos. Isso sem contar os aspectos de formação política e ideológica.

Em 1961, participei de um Congresso da Paz em Moscou, no qual também estava Lucio Costa. Imagine o que era isso para o nosso grupo, nossa primeira viagem para a Europa! Em 1961, organizei a ida de brasileiros para um congresso em Cuba, que nos trouxe outro tipo de visão.

O IAB sempre teve a compreensão do que era uma estrutura internacional - existe o núcleo local, o IAB estadual, o nacional e a União Internacional de Arquitetos.

 
E quanto à organização sindical?

Eu já havia tido vários encargos no IAB - secretário, vice-presidente, supervisor estadual e nacional. O então ministro [do Planejamento] Roberto Campos propôs, e quase foi aprovado, que os profissionais do exterior, principalmente os americanos, pudessem desenvolver os planos diretores no Brasil.

Quando ele fez essa proposta nós estávamos organizando um seminário sobre reforma e planejamento urbano em Curitiba, em 1966. E foi definido que ao final do evento haveria uma manifestação de repúdio à proposta do ministro. Ele era nosso convidado para o encerramento e, quando [Carlos Maximiliano] Fayet leu o texto preparado, o ministro ficou louco da vida, levantou e foi embora.

Politicamente, foi uma coisa importante, mas evidentemente cutucamos o leão com vara curta.

 
Então surgiu a necessidade do sindicato?

Surgiu a necessidade de articular uma defesa que não fosse apenas a manifestação de um grupo. Fomos ao Sobral Pinto, e ele perguntou quem nos representava. Nós respondemos que era o IAB. “Vocês não têm sindicato?”, ele perguntou. Ficamos surpresos com isso, o que acabou despertando nosso interesse em fundar o sindicato para a defesa do profissional.

Primeiro criamos uma associação pré-sindical, que apresentou um pleito ao Ministério do Trabalho. Nós conseguimos um bom número de assinaturas e em 1966 o sindicato foi aprovado. O IAB sempre deu todo o apoio para que isso acontecesse, fornecendo suporte para que tivéssemos espaço para articulação nacional. E outros estados começaram a se articular.

 
E o senhor se tornou presidente do sindicato?

Eu achava que não deveria ser candidato porque politicamente isso não era bom. Nunca fui vinculado ao Partido Comunista, mas estava muito próximo dele. O fato é que eu fui o primeiro candidato e fui eleito. Sabíamos que seriam necessários cinco ou seis sindicatos para fazer a federação de arquitetos. Como estava tudo planejado, em dois ou três anos esses cinco se constituíram: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Assim articulamos a federação. Os arquitetos estavam vinculados ao sindicato dos engenheiros e tínhamos que conversar com eles para que concordassem com a nossa saída. Foi uma etapa difícil e uma negociação importante, na qual tive grande participação. E fizemos a federação, da qual também me candidatei a presidente e assumi a primeira gestão. Nessa época, começamos a coletar dados estatísticos e fizemos previsões, algumas delas totalmente furadas.

 
Qual, por exemplo?

A primeira diz respeito ao ingresso da mulher na profissão, que começava a acontecer e achávamos que seria extremamente difícil coordenar e direcionar. Foi um engano estratégico fundamental. O outro erro é que achávamos que a maior parte dos profissionais, ao sair da escola, se vincularia a um emprego, em vez de criar escritórios autônomos.

Até hoje se continua a exercer a profissão, pelo menos em sua maioria, como autônomo, em pequenos escritórios, um microuniverso. Aí começa a surgir a dificuldade de uma estrutura sindical de arquitetos, pois ela só pode defender o profissional se ele pedir para ser defendido. Também aparecem os primeiros conflitos com o IAB, do ponto de vista da estratégia de encaminhamento político nas entidades. Foi difícil: o IAB é muito mais forte, tem uma posição política e ideológica totalmente diferente do sindicato. Essa contradição foi aparecendo em várias situações.

No início da formação da federação aconteceu também o crescimento do movimento sindical, principalmente no ABC. A organização do sindicato saiu das mãos de Joaquim Dantas. Apareceu Lula, o sindicato do ABC, o dos jornalistas, com uma visão diferente. Para o arquiteto era muito difícil participar de reuniões e debates políticos junto com operários.

 
E o Conselho de Arquitetura e Urbanismo?

Fui contra desde o início. Nós defendíamos uma tese, totalmente superada, de que o país não se organiza se cada profissão criar o seu conselho, a sua regulamentação profissional. Um país não pode viver assim subdividido. Minha proposta era que houvesse conselhos não como esses que existem atualmente - de engenharia, medicina, odontologia etc. -, que têm uma tradição de burocracia e onde as coisas mais importantes não são discutidas.

Deveria haver conselhos com atividades mais globalizantes, menos burocráticas, mas que reunissem profissionais da área de saúde, profissionais de humanas, profissionais das ciências exatas, arte, cultura, grandes conselhos dentro dos quais as profissões iriam se enquadrando. Esses grandes conselhos teriam uma reunião anual que traçaria suas diretrizes, o que não acontece hoje. Quando ela acontece é para discutir política eleitoral, interesses menores. Então, não deveríamos dar esse passo - do CAU - porque não ajuda a organizar o país.

Mas os arquitetos avançaram - sou uma voz absolutamente minoritária, não participo mais dos debates - na proposta. Desde o início combati muito isso, trabalhei contra durante vários anos. A questão era amplamente discutida, só que chegou a um ponto que me convenci de que a maioria queria, não adiantava mais discutir. Então vamos fazer isso da melhor maneira possível.

 
Que maneira é essa?

Primeiro, o sistema Confea/Creas é um ranço terrível, cheio de burocracia e incompetência. Não tem função importante. Decidi ver o que era por dentro, e saí horrorizado de lá. Era uma entidade atrasadíssima, que pretendia representar todos os profissionais do país, uma coisa terrível. E o CAU poderia ser diferente. Só que precisa ter a capacidade para estabelecer formas e critérios diferentes de atuação.

Uma entidade desse tipo tem a pretensão de proteger a sociedade do mau profissional, por isso estabelece regras de comportamentos e atividades, exerce a fiscalização. Acho difícil isso acontecer na profundidade de relações, como também acho que alguns aspectos são complicados, como os conselhos de ética. É uma porcaria.

Mas o CAU será feito e eu espero que, em sua estrutura final, ele possa ser um pouco mais aberto, democrático, transparente, menos introvertido, e tendo maior respeito da sociedade. Espero que esse conselho não seja apenas um centro de arrecadação com pouquíssimos benefícios.

Penso assim, acredito nessas coisas, mas estou fora, não participo mais.

 
Sua posição pessoal é de que há o risco de esse organismo se transformar em mais um órgão burocrático?

Provavelmente devem ter tomado cuidado para não permitir isso. Por outro lado, é preciso imaginar como os arquitetos vão entender essa nova entidade. Ela é correspondente ao IAB? Está no mesmo nível? Ela se soma? Ela se sobrepõe? Ela fica independente da orientação política do IAB? São questões que têm de ser colocadas.

Mas dentro desse conselho, além do IAB, participam a federação sindical, a organização dos paisagistas [Abap], a Asbea, a Abea. Então é uma entidade complexa.

 
Para terminar, conte em que contexto aconteceu a criação da PROJETO.

Durante a criação do sindicato achamos que precisávamos de um boletim, um veículo de comunicação. Aí surgiu Vicente Wissenbach, que é jornalista e já tinha bom relacionamento com os arquitetos, e se propôs a fazer um boletim ligado ao sindicato. Isso aconteceu em 1972. Era um risco muito grande fazer isso dentro do sindicato, devido à questão política e à ditadura.

Nessa fase os sindicatos eram muito visados. O IAB se interessou, Fábio Penteado assumiu a responsabilidade e o boletim ficou vinculado às duas entidades - o IAB e o sindicato. Esse boletim nasceu charmoso, tinha uma estrutura interessante, uma forma jornalística de abordar as questões, os temas eram relevantes. Isso tudo era o que os arquitetos queriam. Mas é claro que não tínhamos grana para fazer essa coisa toda. Para manter o boletim, precisávamos de anunciantes para obtermos recursos.

 
Aí a publicação se tornou independente?

Passamos por várias fases, e Vicente foi tocando a publicação, até que chegou o momento em que tivemos que discutir a propriedade. De quem é? E aí é Fábio que conta, em uma entrevista, que o caminho a ser seguido foi a criação de um encarte chamado PROJETO, aberto à comercialização, para dar sustentação ao boletim. Com isso ficou mais claro o que era propriedade do IAB e o que passou a ser a PROJETO.

Boletim e revista conviveram mais alguns anos, depois ficou só a revista. A PROJETO começou a desenvolver pautas diferentes, com abrangência nacional. Vários arquitetos colaboraram com isso, e foi um privilégio descobrir esses caminhos. A revista alcançou um bom padrão e foi crescendo. Fábio acabou ingressando na UIA, e a revista ganhou prestígio internacional.

Hoje a PROJETO DESIGN é importante, e Arlindo Mungioli tem dado continuidade com um cuidado muito grande, que a gente admira e aposta que vai continuar.

 
 
Por Fernando Serapião e Vicente Wissenbach
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 299 Janeiro de 2005
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